CAPÍTULO 1
LUANA NARRANDO
Meu nome é Luana, tenho 22 anos, pele morena clara, cabelo cacheado e longo, do tipo que chama atenção sem esforço; sou magra, mas meu corpo é bem definido por causa da academia, porque gosto de me cuidar, talvez seja uma das poucas coisas que eu realmente posso controlar.
Moro na Rocinha, numa casa simples e pequena… mas é minha, tudo limpo, organizado, cada canto tem um pouco da minha luta.
Nem sempre foi assim: antes, eu morava com o meu pai, no asfalto; minha mãe… bom, ela só me colocou no mundo e foi embora, sumiu, nunca quis saber de mim. Segundo o meu pai, ela era uma mulher da vida, engravidou dele, quis abortar, mas ele não deixou, convenceu ela a continuar a gravidez… em troca de dinheiro; depois que eu nasci, ela me entregou e desapareceu, essa é a única versão que eu conheço, e, por muito tempo, foi o suficiente.
Meu pai sempre fez tudo por mim, nunca deixou faltar nada; era nós dois contra o mundo… até ele arrumar uma namorada: mais nova, bonita e venenosa. Com uma semana de namoro, ela já estava morando com a gente, e foi aí que tudo começou a desmoronar: ela não ia com a minha cara, nunca foi, e aos poucos foi colocando coisa na cabeça do meu pai, distorcendo tudo, inventando situações… até que a casa, antes cheia de paz, virou um inferno de discussões todos os dias, olhares tortos, silêncios pesados.
Até que, um dia, ele me mandou embora, sem pensar duas vezes; e o pior? Eu já esperava. Não discuti, não implorei, não chorei na frente dele, só peguei minhas roupas… e saí de cabeça erguida, mas por dentro? Eu estava quebrada.
Eu tinha um dinheiro guardado do meu último emprego, não era muito, mas era o que eu tinha. Comecei a procurar um lugar para ficar… e foi aí que a realidade bateu: no asfalto, tudo era caro demais. Foi então que eu tomei uma decisão, subir o morro, sabendo que ali seria mais acessível, mais difícil em alguns aspectos… mas possível. E foi: consegui essa casa onde moro hoje, para a minha sorte, já era mobiliada; se não fosse isso, eu nem sei por onde começaria.
Mas casa não paga conta sozinha, então eu precisava de um emprego; corri atrás, bati em porta, levei currículo… até que consegui uma vaga em uma loja de roupas no asfalto, não era o trabalho dos sonhos, mas era o que ia me manter de pé.
Aqui no morro, a vida tem suas regras, na maior parte do tempo, é tranquilo… tirando quando tem invasão, porque quando tem, ninguém dorme, ninguém respira direito. O tráfico comanda tudo, homens armados em cada canto, olhares que pesam, presenças que intimidam; eu faço o possível para ficar longe disso tudo, não quero contato, não quero envolvimento. Mas, mesmo assim, não passo despercebida: sempre tem uma piadinha, um comentário, um olhar mais demorado; eu finjo que não escuto, mas tem um… que é impossível ignorar: o chefe. Ele se acha dono de tudo, do morro… e, pelo visto, de mim também. No começo, eu ficava calada, com medo; hoje? Eu respondo: ele pode mandar em quem quiser aqui, mas em mim, não.
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Acordo atrasada
— Droga…
Pulo da cama já sentindo o coração acelerar, dona Leila vai surtar hoje. Me arrumo correndo, calça jeans skinny, camisa da loja, tênis, cabelo solto, um gloss, um pouco de blush, só pra não sair com cara de morta. Pego minha bolsa, o celular… e corro até a cozinha pra pegar a marmita que deixo pronta todas as noites, rotina, sobrevivência.
Saio de casa e começo a descer o morro, cumprimentando quem cruza meu caminho, aqui, pelo menos, ainda existe aquele senso de comunidade. Mas quando chego na contenção… já sei o que me espera.
— Bom dia, flor do dia.
— Meu sonho é pegar essa morena…
— Dá uma chance aí, Luaninha…
Reviro os olhos por dentro, mas por fora? Indiferença, passo direto, como se eles nem existissem, porque, às vezes, ignorar é a única defesa.
Pego o ônibus e, quando chego na loja, nem dá tempo de respirar.
— Isso são horas, Luana?
— Desculpa, dona Leila; o celular não despertou, não sei o que aconteceu…
— Eu sei: você dormiu demais.
Corto o ar com um suspiro preso
— Não é que…
— Chega. Vai arrumar a vitrine.
Engulo seco
— Tá.
Vou direto fazer o que ela mandou; Bianca já está lá.
— Essa mulher é uma bruxa — ela sussurra —, a gente quase nunca se atrasa…
— Eu sei — respondo baixo —, mas eu não posso perder esse emprego.
— Nem eu.
E a gente segue, porque precisa.
O dia passa arrastado: cliente entra, cliente sai, sorrisos forçados, pernas doendo, cabeça cheia. Quando dá meio-dia, almoço rápido, m*l dá tempo de descansar, e depois tudo de novo… até dar dezoito horas. Eu e Bianca fechamos a loja, dona Leila já foi embora, como sempre, e pego o ônibus, coloco o fone, música alta, é o único momento do dia em que eu consigo me desligar de tudo.
Mas dura pouco: assim que desço e começo a subir em direção à entrada do morro… eu vejo. Ele. Digão. Encostado, como se estivesse me esperando,e talvez esteja. Nossos olhares se encontram por um segundo, só um, mas é o suficiente; desvio, passo por ele sem dizer nada.
— Boa noite pra você também, Luana.
— me erra.
— Olha lá como você fala comigo.
— Falo como eu quiser, a boca é minha — falei alto e segui andando.
— Mas quem cala ela sou eu — ele respondeu, e eu ainda ouvi o resto: — Vou te falar, estou doidinho pra calar ela do melhor jeito.
Nem respondi. Continuei andando.
Assim que entrei em casa, fui direto para o quarto. Tomei banho, vesti a roupa de academia, prendi o cabelo em um r**o de cavalo alto e calcei o tênis. Passei na cozinha, comi alguma coisa rápido, peguei a garrafinha de água e saí.
Todos os dias, quando chego do trabalho, vou para a academia que fica aqui no morro.
No caminho, vi o Digão de novo, mas dessa vez ele estava distante, mas ainda senti o olhar dele em mim.
"E isso ainda vai dar muito problema."