Capítulo 6

1785 Words
Ponto de Vista: Greco ​Depois da noite no baile, a dinâmica no quartel-general mudou drasticamente. Pietra não era mais apenas uma garantia de dívida sob custódia, e nós dois sabíamos disso. O beijo diante de todo o morro havia deixado uma marca visível: a presença dela na minha casa já não podia ser questionada por ninguém. ​Eu estava no meu escritório pessoal, analisando mapas de rotas de suprimento e relatórios de segurança, quando Breno entrou sem bater. O rosto do meu braço direito trazia uma expressão séria, daquelas que precedem tempestades. ​— Chefe, temos um problema com a distribuição da zona leste — disse Breno, colocando um arquivo sobre a mesa. — Alguém vazou a rota da nossa entrega principal de amanhã. Os caras do morro vizinho montaram uma emboscada no caminho. Se não tivéssemos um batedor na frente, tínhamos perdido tudo. ​Senti o sangue esquentar. Informação interna vazada significava apenas uma coisa: traição dentro do meu próprio círculo. ​— Quem sabia dessa rota, Breno? — perguntei, a voz descendo de tom, carregada de uma promessa velada de morte. ​— Pouca gente. Eu, você, os moleques do transporte... e a Pietra, que organizou as planilhas de custos de transporte essa semana — respondeu ele, sustentando o meu olhar. ​A menção ao nome dela fez o ar da sala ficar mais pesado. Fiquei em silêncio por alguns segundos, processando a insinuação. ​— Meça suas palavras, Breno — avisei, a voz cortante. ​— Não estou acusando ninguém, Greco. Só estou te mostrando os fatos — retrucou Breno, mantendo a postura. — A garota teve acesso aos arquivos. Ela tem o irmão lá fora, tem o passado no asfalto. Se alguém apertou o garoto ou ofereceu dinheiro para ela tirar a família desse rolo, você acha mesmo que ela não entregaria a rota? ​Levantei-me da cadeira devagar. A ideia de Pietra me traindo provocou um gosto amargo na minha boca. Durante semanas, ela manteve a cabeça erguida, recusando-se a dobrar o joelho, mas demonstrando uma integridade que poucos ao meu redor tinham. No entanto, no nosso mundo, a confiança cega é a primeira coisa que te coloca num caixão. ​— Chame a Pietra — ordenei. — Agora. ​Ponto de Vista: Pietra ​Eu estava na biblioteca da casa organizando as notas fiscais dos projetos comunitários quando Breno apareceu na porta. Ele não disse uma palavra amigável, apenas fez um sinal para que eu o seguisse até o escritório de Greco. ​Ao entrar na sala, percebi imediatamente a mudança na atmosfera. Greco estava de pé ao lado da janela, olhando para fora com as mãos cruzadas atrás das costas. A aura calorosa e protetora que ele demonstrou no baile havia desaparecido por completo, substituída por uma frieza gélida que fez meu estômago gelar. ​A porta se fechou atrás de mim, deixado-nos a sós. ​— Você queria falar comigo? — perguntei, tentando manter a firmeza na voz. ​Greco virou-se devagar. O olhar dele sobre mim não tinha o desejo de dias atrás; era um olhar de julgamento, analítico e perigoso. ​— A carga de suprimentos que deveria chegar hoje cedo quase foi interceptada na rota leste — disse ele, caminhando passos lentos na minha direção. — Alguém passou o trajeto exato e o horário para os meus inimigos. ​Senti meu coração dar um pulo no peito. ​— Sinto muito por isso, mas o que isso tem a ver comigo? — questionei, franzindo a testa. ​— Você revisou as planilhas do transporte na terça-feira, Pietra — respondeu ele, parando a poucos centímetros de mim, a voz baixa e carregada de uma tensão sufocante. — Você tinha os horários, os valores e os caminhos de cada caminhão que entra neste morro. ​Demorou alguns segundos para que a ficha caísse. Ele estava me acusando. ​— Você acha... que eu passei essa informação? — perguntei, a voz falhando por um instante antes de ser tomada por uma onda de raiva pura. — Você realmente acha que eu venderia a sua rota para os seus inimigos? ​— Você é a pessoa nesta casa com mais motivos para querer ver a minha operação cair — disse ele, sustentando o olhar, embora eu pudesse ver uma sombra de conflito no fundo dos seus olhos escuros. — Você não queria estar aqui. O seu irmão está lá fora. O que te impediria de fazer um acordo com quem quer que fosse para conseguir a sua liberdade? ​Aquelas palavras doeram mais do que qualquer ameaça física que ele já tinha feito. A raiva que queimava no meu peito transformou-se em uma mágoa profunda ao perceber como eu fui ingênua ao acreditar que o beijo e as palavras no baile significavam alguma coisa real. ​— Eu posso odiar o fato de você me manter presa aqui, Greco — respondi, dando um passo à frente e encarando-o de queixo erguido, com lágrimas de indignação queimando nos meus olhos. — Eu posso odiar o seu controle e o seu orgulho. Mas eu nunca faria algo que colocasse a vida de pessoas inocentes em risco. Eu não sou uma traidora. E não sou como você, que resolve tudo na base do sangue e da desconfiança! ​Ponto de Vista: Greco ​Ver as lágrimas de raiva nos olhos de Pietra e a indignação legítima na sua voz fez algo quebrar dentro de mim. A dor estampada no rosto dela não era a atuação de uma criminosa descoberta; era a reação de alguém cuja honra profunda tinha sido ferida sem piedade. ​Ela deu um passo para trás, balançando a cabeça em negação. ​— Eu achei que... depois daquela noite, você pelo menos me enxergava de verdade — disse ela, a voz embargada. — Mas você é incapaz de confiar em qualquer pessoa, não é? O seu poder te isolou tanto que você prefere achar que todo mundo é seu inimigo a aceitar que alguém possa ser leal. ​Ela se virou para caminhar em direção à porta, mas eu movi-me mais rápido. Segurei o braço dela antes que ela pudesse tocar na maçaneta. ​— Pietra, espere — pedi, a voz perdendo a frieza habitual. ​— Me solta, Greco! — ela disparou, tentando puxar o braço, com o corpo todo tremendo. — Você quer uma prisioneira? Então me tranque no quarto de novo! Mas não finja que se importa com a minha presença nesta casa se você acha que eu sou capaz de uma nojeira dessas! ​A raiva dela era devastadora. Puxei-a suavemente para mais perto, impedindo que ela se afastasse, sentindo a respiração descontrolada dela bater contra o meu peito. ​— Eu precisava checar, Pietra — murmurei, a mão subindo do braço dela para o seu pescoço, os meus dedos tocando a pele quente da sua nuca. — No meu lugar, um erro de julgamento significa a morte de dezenas de homens. Eu não posso me dar ao luxo de falhar. ​— E por isso você destruiu a pouca confiança que ainda existia entre nós? — questionou ela, olhando diretamente nos meus olhos, com as lágrimas finalmente escorrendo pela sua bochecha. ​Aquela lágrima limpou qualquer resquício de dúvida na minha mente. A culpa atingiu-me com a força de um golpe físico. Inclinei-me e usei o meu polegar para enxugar a lágrima do rosto dela, sentindo a fragilidade e a força absurda dessa mulher nas minhas mãos. ​— Me perdoe — sussurrei, pronunciando palavras que há anos não saíam da minha boca. — Eu errei com você. ​Ponto de Vista: Pietra ​Ouvir um pedido de desculpas da boca do homem mais temido da comunidade me pegou completamente desprevenida. O olhar de Greco não era mais o do líder implacável; era o de um homem genuinamente arrependido, despido de todas as armas e defesas. ​O toque da mão dele na minha bochecha era suave, quase hesitante, como se ele tivesse medo de me quebrar ou de me fazer recuar. ​— Eu vou descobrir quem foi o verdadeiro responsável por esse vazamento — prometeu ele, a voz grave e firme. — E vou provar para você que eu sei reconhecer quem está ao meu lado de verdade. ​— E se a sua investigação apontar que você não pode confiar em ninguém aqui dentro? — perguntei, com a voz baixa, sentindo a proximidade do corpo dele diminuir a minha raiva e acender aquele fogo familiar. ​— Eu só preciso poder confiar em você, Pietra — respondeu ele, aproximando o rosto do meu até que nossos hálitos se misturassem. — O resto do mundo eu consigo combater sozinho. ​A vulnerabilidade na voz dele derrubou os últimos vestígios de mágoa que eu tentava alimentar. Levei minha mão ao peito dele, sentindo o batimento forte e acelerado do seu coração sob o tecido da camisa. Ele estava entregando a própria guarda na minha frente — algo que nunca tinha feito com ninguém neste morro. ​— Greco... — murmurei, mas a minha fala foi interrompida quando ele selou nossos lábios em um beijo calmo, profundo e cheio de um significado totalmente diferente dos anteriores. ​Não havia urgência ou demonstração de poder naquele beijo. Havia um pedido silencioso de perdão, uma entrega mútua e a aceitação de que o vínculo que ha tínhamos criado era muito mais forte do que qualquer suspeita ou ameaça externa. ​Quando ele se afastou devagar, mantendo a testa apoiada na minha, vi no olhar dele algo que mudaria o rumo de tudo: o dono do morro estava completamente rendido. ​De repente, batidas apressadas na porta cortaram o momento. Breno entrou na sala sem esperar pela resposta, trazendo o rosto pálido e o rádio comunicador na mão. ​— Chefe! Descobrimos quem passou a rota para a facção rival — disse Breno, olhando de Greco para mim com uma mistura de choque e urgência. ​— Quem foi? — perguntou Greco, recompondo a postura instantaneamente, embora mantivesse uma das mãos segurando a minha. ​— Foi a Vanessa — revelou Breno. — Pegamos o celular dela com as mensagens gravadas. Ela vendeu a rota em troca de dinheiro para sumir da comunidade e para tentar incriminar a Pietra por vingança. E tem mais... ela avisou os caras que você está vulnerável por causa da garota. Eles estão montando um cerco na entrada do morro agora mesmo. ​Greco olhou para mim, a expressão tornando-se escura e perigosa novamente, mas desta vez não havia qualquer dúvida entre nós — apenas a certeza de que a verdadeira guerra pela supremacia do morro tinha acabado de começar.
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