Ponto de Vista: Greco
Depois da noite no baile, a dinâmica no quartel-general mudou drasticamente. Pietra não era mais apenas uma garantia de dívida sob custódia, e nós dois sabíamos disso. O beijo diante de todo o morro havia deixado uma marca visível: a presença dela na minha casa já não podia ser questionada por ninguém.
Eu estava no meu escritório pessoal, analisando mapas de rotas de suprimento e relatórios de segurança, quando Breno entrou sem bater. O rosto do meu braço direito trazia uma expressão séria, daquelas que precedem tempestades.
— Chefe, temos um problema com a distribuição da zona leste — disse Breno, colocando um arquivo sobre a mesa. — Alguém vazou a rota da nossa entrega principal de amanhã. Os caras do morro vizinho montaram uma emboscada no caminho. Se não tivéssemos um batedor na frente, tínhamos perdido tudo.
Senti o sangue esquentar. Informação interna vazada significava apenas uma coisa: traição dentro do meu próprio círculo.
— Quem sabia dessa rota, Breno? — perguntei, a voz descendo de tom, carregada de uma promessa velada de morte.
— Pouca gente. Eu, você, os moleques do transporte... e a Pietra, que organizou as planilhas de custos de transporte essa semana — respondeu ele, sustentando o meu olhar.
A menção ao nome dela fez o ar da sala ficar mais pesado. Fiquei em silêncio por alguns segundos, processando a insinuação.
— Meça suas palavras, Breno — avisei, a voz cortante.
— Não estou acusando ninguém, Greco. Só estou te mostrando os fatos — retrucou Breno, mantendo a postura. — A garota teve acesso aos arquivos. Ela tem o irmão lá fora, tem o passado no asfalto. Se alguém apertou o garoto ou ofereceu dinheiro para ela tirar a família desse rolo, você acha mesmo que ela não entregaria a rota?
Levantei-me da cadeira devagar. A ideia de Pietra me traindo provocou um gosto amargo na minha boca. Durante semanas, ela manteve a cabeça erguida, recusando-se a dobrar o joelho, mas demonstrando uma integridade que poucos ao meu redor tinham. No entanto, no nosso mundo, a confiança cega é a primeira coisa que te coloca num caixão.
— Chame a Pietra — ordenei. — Agora.
Ponto de Vista: Pietra
Eu estava na biblioteca da casa organizando as notas fiscais dos projetos comunitários quando Breno apareceu na porta. Ele não disse uma palavra amigável, apenas fez um sinal para que eu o seguisse até o escritório de Greco.
Ao entrar na sala, percebi imediatamente a mudança na atmosfera. Greco estava de pé ao lado da janela, olhando para fora com as mãos cruzadas atrás das costas. A aura calorosa e protetora que ele demonstrou no baile havia desaparecido por completo, substituída por uma frieza gélida que fez meu estômago gelar.
A porta se fechou atrás de mim, deixado-nos a sós.
— Você queria falar comigo? — perguntei, tentando manter a firmeza na voz.
Greco virou-se devagar. O olhar dele sobre mim não tinha o desejo de dias atrás; era um olhar de julgamento, analítico e perigoso.
— A carga de suprimentos que deveria chegar hoje cedo quase foi interceptada na rota leste — disse ele, caminhando passos lentos na minha direção. — Alguém passou o trajeto exato e o horário para os meus inimigos.
Senti meu coração dar um pulo no peito.
— Sinto muito por isso, mas o que isso tem a ver comigo? — questionei, franzindo a testa.
— Você revisou as planilhas do transporte na terça-feira, Pietra — respondeu ele, parando a poucos centímetros de mim, a voz baixa e carregada de uma tensão sufocante. — Você tinha os horários, os valores e os caminhos de cada caminhão que entra neste morro.
Demorou alguns segundos para que a ficha caísse. Ele estava me acusando.
— Você acha... que eu passei essa informação? — perguntei, a voz falhando por um instante antes de ser tomada por uma onda de raiva pura. — Você realmente acha que eu venderia a sua rota para os seus inimigos?
— Você é a pessoa nesta casa com mais motivos para querer ver a minha operação cair — disse ele, sustentando o olhar, embora eu pudesse ver uma sombra de conflito no fundo dos seus olhos escuros. — Você não queria estar aqui. O seu irmão está lá fora. O que te impediria de fazer um acordo com quem quer que fosse para conseguir a sua liberdade?
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer ameaça física que ele já tinha feito. A raiva que queimava no meu peito transformou-se em uma mágoa profunda ao perceber como eu fui ingênua ao acreditar que o beijo e as palavras no baile significavam alguma coisa real.
— Eu posso odiar o fato de você me manter presa aqui, Greco — respondi, dando um passo à frente e encarando-o de queixo erguido, com lágrimas de indignação queimando nos meus olhos. — Eu posso odiar o seu controle e o seu orgulho. Mas eu nunca faria algo que colocasse a vida de pessoas inocentes em risco. Eu não sou uma traidora. E não sou como você, que resolve tudo na base do sangue e da desconfiança!
Ponto de Vista: Greco
Ver as lágrimas de raiva nos olhos de Pietra e a indignação legítima na sua voz fez algo quebrar dentro de mim. A dor estampada no rosto dela não era a atuação de uma criminosa descoberta; era a reação de alguém cuja honra profunda tinha sido ferida sem piedade.
Ela deu um passo para trás, balançando a cabeça em negação.
— Eu achei que... depois daquela noite, você pelo menos me enxergava de verdade — disse ela, a voz embargada. — Mas você é incapaz de confiar em qualquer pessoa, não é? O seu poder te isolou tanto que você prefere achar que todo mundo é seu inimigo a aceitar que alguém possa ser leal.
Ela se virou para caminhar em direção à porta, mas eu movi-me mais rápido. Segurei o braço dela antes que ela pudesse tocar na maçaneta.
— Pietra, espere — pedi, a voz perdendo a frieza habitual.
— Me solta, Greco! — ela disparou, tentando puxar o braço, com o corpo todo tremendo. — Você quer uma prisioneira? Então me tranque no quarto de novo! Mas não finja que se importa com a minha presença nesta casa se você acha que eu sou capaz de uma nojeira dessas!
A raiva dela era devastadora. Puxei-a suavemente para mais perto, impedindo que ela se afastasse, sentindo a respiração descontrolada dela bater contra o meu peito.
— Eu precisava checar, Pietra — murmurei, a mão subindo do braço dela para o seu pescoço, os meus dedos tocando a pele quente da sua nuca. — No meu lugar, um erro de julgamento significa a morte de dezenas de homens. Eu não posso me dar ao luxo de falhar.
— E por isso você destruiu a pouca confiança que ainda existia entre nós? — questionou ela, olhando diretamente nos meus olhos, com as lágrimas finalmente escorrendo pela sua bochecha.
Aquela lágrima limpou qualquer resquício de dúvida na minha mente. A culpa atingiu-me com a força de um golpe físico. Inclinei-me e usei o meu polegar para enxugar a lágrima do rosto dela, sentindo a fragilidade e a força absurda dessa mulher nas minhas mãos.
— Me perdoe — sussurrei, pronunciando palavras que há anos não saíam da minha boca. — Eu errei com você.
Ponto de Vista: Pietra
Ouvir um pedido de desculpas da boca do homem mais temido da comunidade me pegou completamente desprevenida. O olhar de Greco não era mais o do líder implacável; era o de um homem genuinamente arrependido, despido de todas as armas e defesas.
O toque da mão dele na minha bochecha era suave, quase hesitante, como se ele tivesse medo de me quebrar ou de me fazer recuar.
— Eu vou descobrir quem foi o verdadeiro responsável por esse vazamento — prometeu ele, a voz grave e firme. — E vou provar para você que eu sei reconhecer quem está ao meu lado de verdade.
— E se a sua investigação apontar que você não pode confiar em ninguém aqui dentro? — perguntei, com a voz baixa, sentindo a proximidade do corpo dele diminuir a minha raiva e acender aquele fogo familiar.
— Eu só preciso poder confiar em você, Pietra — respondeu ele, aproximando o rosto do meu até que nossos hálitos se misturassem. — O resto do mundo eu consigo combater sozinho.
A vulnerabilidade na voz dele derrubou os últimos vestígios de mágoa que eu tentava alimentar. Levei minha mão ao peito dele, sentindo o batimento forte e acelerado do seu coração sob o tecido da camisa. Ele estava entregando a própria guarda na minha frente — algo que nunca tinha feito com ninguém neste morro.
— Greco... — murmurei, mas a minha fala foi interrompida quando ele selou nossos lábios em um beijo calmo, profundo e cheio de um significado totalmente diferente dos anteriores.
Não havia urgência ou demonstração de poder naquele beijo. Havia um pedido silencioso de perdão, uma entrega mútua e a aceitação de que o vínculo que ha tínhamos criado era muito mais forte do que qualquer suspeita ou ameaça externa.
Quando ele se afastou devagar, mantendo a testa apoiada na minha, vi no olhar dele algo que mudaria o rumo de tudo: o dono do morro estava completamente rendido.
De repente, batidas apressadas na porta cortaram o momento. Breno entrou na sala sem esperar pela resposta, trazendo o rosto pálido e o rádio comunicador na mão.
— Chefe! Descobrimos quem passou a rota para a facção rival — disse Breno, olhando de Greco para mim com uma mistura de choque e urgência.
— Quem foi? — perguntou Greco, recompondo a postura instantaneamente, embora mantivesse uma das mãos segurando a minha.
— Foi a Vanessa — revelou Breno. — Pegamos o celular dela com as mensagens gravadas. Ela vendeu a rota em troca de dinheiro para sumir da comunidade e para tentar incriminar a Pietra por vingança. E tem mais... ela avisou os caras que você está vulnerável por causa da garota. Eles estão montando um cerco na entrada do morro agora mesmo.
Greco olhou para mim, a expressão tornando-se escura e perigosa novamente, mas desta vez não havia qualquer dúvida entre nós — apenas a certeza de que a verdadeira guerra pela supremacia do morro tinha acabado de começar.