Capítulo 5

1875 Words
Ponto de Vista: Pietra ​O sabor de Greco nos meus lábios continuava a me perseguir dias após aquele beijo no galpão comunitário. Eu tentava me concentrar nas planilhas de custos e na organização dos eventos da comunidade, mas a minha mente insistia em voltar para o momento em que minhas mãos agarraram a camisa dele em vez de empurrá-lo. ​Eu estava brava comigo mesma. Passei a vida inteira mantendo o controle, construindo barreiras para proteger a mim e ao meu irmão, e agora bastava uma aproximação daquele homem para que todo o meu autocontrole desmoronasse. ​Sexta-feira chegou acompanhada de uma vibração diferente no ar. O som grave dos graves das caixas de som já ecoava pela montanha desde o final da tarde. Era noite de baile funk na quadra principal do morro, o evento mais esperado da semana. ​Eu estava no meu quarto quando Dona Rosa entrou sem bater, trazendo nas mãos um vestido justo de tom verde-esmeralda e um par de saltos altos. ​— O chefe mandou entregar — disse ela, deixando as peças sobre a cama com um sorriso cúmplice. — Ele disse que espera você na quadra às dez horas. ​— Eu não vou a baile nenhum — respondi imediatamente, sem tirar os olhos do notebook onde finalizava um balanço financeiro. — Não sou atração da festa dele. ​— Menina Pietra, um conselho de quem conhece o Greco desde garoto... — Dona Rosa se aproximou, a voz suave. — Ele não mandou o vestido para te humilhar. No morro, quando o líder aparece com alguém ao seu lado no baile, ele está dizendo para todo mundo que aquela pessoa está sob a proteção absoluta dele. Depois do ataque da semana passada, isso é uma garantia para a sua própria segurança. ​Encarei o tecido do vestido sobre a cama. A explicação de Dona Rosa fazia sentido do ponto de vista pragmático, mas o meu orgulho gritava contra a ideia de aparecer em público como "a acompanhante do chefe". No entanto, permanecer trancada naquele quarto me fazia sentir cada vez mais vulnerável. ​Exatamente às dez da noite, desci as escadas vestindo o modelo verde. O corte ajustava-se perfeitamente às minhas curvas, destacando o tom da minha pele, e o salto alto me dava alguns centímetros a mais de imponência. ​Greco já me esperava no átrio da casa, cercado por Breno e mais três homens armados. Ele vestia uma camisa preta com os primeiros botões abertos, revelando a curva do pescoço e a margem das suas tatuagens, além de uma corrente grossa de prata. Quando me viu descer os últimos degraus, o olhar dele percorreu meu corpo devagar, com uma intensidade que fez meu pulso acelerar no mesmo instante. ​Ele deu um passo à frente, sem esconder o brilho de satisfação nos olhos. ​— Você demorou — comentou ele, a voz baixa e aveludada. ​— Eu quase não vim — respondi, sustentando o olhar dele enquanto ajustava a alça do vestido. — Não estou aqui para dar espetáculo. ​— Você não precisa dar espetáculo, Pietra. Sua presença por si só já é suficiente para parar este morro — retrucou ele, oferecendo o braço dobrado para mim. — Vamos. A noite é longa. ​Hesitei por um segundo antes de deslizar minha mão pelo braço firme dele. O toque da sua pele contra a minha disparou o costumeiro alerta de perigo, mas caminhei ao seu lado com a cabeça erguida. ​Ponto de Vista: Greco ​A entrada na quadra do baile foi exatamente como eu planejei. A iluminação de néon cortava a fumaça e a multidão dançava ao som do grave pesado que fazia o chão de concreto tremer. No entanto, à medida que avançávamos em direção ao camarote VIP no andar superior, uma onda de sussurros abriu caminho entre as pessoas. ​Ver Pietra ao meu lado, vestida em verde-esmeralda e caminhando com a postura de uma rainha que não se curva a ninguém, causou o impacto exato que eu desejava. Todos sabiam quem ela era, mas vê-la sob o meu braço reescrevia a história: ela não era uma refém fragilizada; era a mulher que mantinha o equilíbrio do meu território. ​Subimos para a área reservada, de onde era possível ter uma visão privilegiada de toda a festa. Breno posicionou os homens nas saídas estratégicas do camarote, garantindo a nossa segurança. ​— Aceita uma bebida? — perguntei, aproximando-me do seu ouvido para me fazer ouvir por cima do som alto da música. ​— Apenas água — respondeu ela, olhando ao redor com curiosidade e uma ponta de desconfiança. — Você traz todas as suas "garantias de dívida" para festas assim? ​Soltei uma risada baixa, servindo um copo de água e entregando a ela, enquanto pegava um copo de uísque com gelo para mim. ​— Nenhuma garantia de dívida durou mais de vinte e quatro horas na minha casa, Pietra. Você é a única exceção. ​Ela tomou um gole da água, a expressão mudando para algo mais analítico enquanto observava a multidão lá embaixo. ​— As pessoas aqui realmente respeitam você. Não é só medo — comentou ela, surpresa. ​— O medo mantém os inimigos afastados, mas o respeito mantém a comunidade de pé — respondi, apoiando as costas na barra de proteção do camarote e ficando de frente para ela. — Eu dou a este lugar a ordem que o Estado nunca trouxe. Em troca, eles me dão lealdade. ​— É um sistema perigoso, Greco. Uma hora, a conta dessa violência chega. ​— E quando chegar, estarei pronto para pagar — disse, dando um passo para mais perto dela, reduzindo o espaço entre nós. — Mas hoje a noite não é sobre negócios. É sobre nós dois. ​Ponto de Vista: Pietra ​A proximidade de Greco no camarote tornava a atmosfera ainda mais sufocante do que o calor do baile lá embaixo. O cheiro do uísque misturado ao perfume amadeirado dele criava uma combinação embriagante. ​De repente, a figura de Vanessa apareceu na subida da escada do camarote. Ela usava um vestido vermelho extremamente curto e trazia no rosto uma expressão de fúria m*l disfarçada ao nos ver juntos. Ela caminhou diretamente até nós, ignorando os olhares de advertência de Breno. ​— Boa noite, Greco — disse ela, mantendo a voz doce, embora seus olhos estivessem cravados em mim como lâminas. — Não sabia que o baile virou reunião de negócios com a funcionária nova. ​Greco nem se deu ao trabalho de se virar completamente para ela, mantendo seu olhar focado no meu rosto. ​— Você está no lugar errado, Vanessa — disse ele, a voz fria e desprovida de qualquer cortesia. — O camarote reservado hoje é privado. ​— Ah, entendi... privado para você e a garotinha do asfalto que acha que manda em alguma coisa — provocou ela, dando um passo na minha direção. — Você realmente acha que é diferente de todas as outras que passaram por aqui, Pietra? Ele só está te usando para mostrar poder depois do ataque da semana passada. ​Senti o sangue subir para as minhas bochechas, mas recusei-me a perder o controle na frente daquela mulher e de todos os homens ao redor. Dando um passo à frente, enfrentei Vanessa de cabeça erguida. ​— A diferença entre mim e você, Vanessa, é que eu não preciso me humilhar buscando a atenção de ninguém nesta casa — respondi, a voz impecavelmente calma e afiada. — Se a minha presença incomoda você, sugiro que encontre outro lugar para passar a sua noite. ​A reação de Vanessa foi instantânea: o rosto dela ficou vermelho de raiva e ela ergueu a mão para avançar na minha direção. Mas antes que ela pudesse dar mais um passo, a mão de Greco segurou o pulso dela com um aperto de ferro. ​Ponto de Vista: Greco ​A frieza e a classe com que Pietra respondeu à provocação de Vanessa só confirmaram o quanto essa garota era extraordinária. Ela não precisava da minha proteção para se impor; ela tinha a sua própria força. ​Puxei o pulso de Vanessa devagar, obrigando-a a dar um passo para trás. ​— Chega — declarei, o tom de voz tão baixo e perigoso que até a música alta ao fundo pareceu perder a força. — Se você desrespeitar a Pietra mais uma vez, sob o meu teto ou no meu morro, você não pisa mais nesta comunidade, Vanessa. Entendeu bem? ​Vanessa olhou para mim em choque, percebendo que a minha ameaça era cem por cento real. Soltei o pulso dela com desdém. ​— Breno, tire a Vanessa daqui — ordenei sem olhar para trás. ​Breno aproximou-se rapidamente e conduziu a mulher para fora do camarote. Vanessa saiu lançando-me um último olhar de raiva e humilhação, sumindo no meio da multidão da pista de dança. ​Voltei minha atenção para Pietra. Ela mantinha a postura ereta, mas o ritmo acelerado da sua respiração entregava a adrenalina que corria nas suas veias. ​— Você não precisava ter feito isso — disse ela, cruzando os braços. — Eu sei me defender sozinha. ​— Eu sei que sabe — respondi, dando o último passo que nos separava e segurando-a pela cintura, puxando seu corpo suavemente contra o meu. — E é exatamente por isso que estou cada vez mais fascinado por você, Pietra. ​Ponto de Vista: Pietra ​O contato direto do seu corpo contra o meu no meio do camarote me deixou sem reação. A mão dele na minha cintura era quente e possessiva, mas não havia força bruta ali — havia apenas uma atração magnética e avassaladora à qual eu já não conseguia resistir. ​— Greco... as pessoas estão olhando — murmurei, tentando manter uma última linha de defesa mental, embora minhas mãos tenham pousado involuntariamente nos ombros largos dele. ​— Deixe que olhem — sussurrou ele perto do meu ouvido, a voz grave ressoando dentro do meu peito. — Que vejam exatamente de quem você é. ​Aquelas palavras deveriam ter me irritado. Deveriam ter despertado o meu desejo de combater a sua arrogância. Mas o modo como o olhar dele queimava sobre o meu rosto e a tensão acumulada de dias de convivência forçada explodiram de uma só vez. ​Inclinei a cabeça para cima e, desta vez, não esperei que ele tomasse a iniciativa. Selecionei o momento e selei nossos lábios em um beijo profundo e faminto. ​Greco soltou um rosnado baixo contra a minha boca, intensificando o aperto na minha cintura e puxando-me para ainda mais perto, colando nossos corpos de forma absoluta. O beijo no baile era quente, rápido e carregado de uma paixão perigosa que desafiava todas as regras que eu tinha estabelecido para mim mesma. ​O som do baile lá embaixo sumiu completamente. Existia apenas o calor do toque dele, o sabor do uísque e a certeza aterrorizante de que eu tinha entregado o meu coração e a minha liberdade ao homem mais perigoso do morro — e que, a partir daquela noite, não haveria mais volta.
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