Capítulo 4

1900 Words
Ponto de Vista: Greco ​O cheiro de fumaça ainda impregnava o ar da manhã, mas a rotina no morro não parava por causa de um ataque fracassado. A feira funcionava nas ruas de baixo, o comércio abria as portas e a vida seguia o seu fluxo normal. Para quem olhava de fora, parecia paz. Para mim, era apenas o intervalo entre duas tempestades. ​Eu estava sentado na varanda do quartel-general, observando a movimentação com uma xícara de café preto na mão. O corte na minha mandíbula queimava levemente, lembrete físico do tiroteio da noite anterior. ​O som de passos leves no piso de concreto me fez virar o rosto. Pietra caminhava na minha direção. Ela usava roupas simples, o cabelo preso em um coque meio solto e uma pasta de documentos debaixo do braço. Apesar das poucas horas de sono, o olhar dela continuava firme, sem traço da fragilidade que vi por alguns segundos durante o ataque. ​— O relatório da reconstrução da entrada principal está pronto — disse ela, colocando as folhas sobre a pequena mesa de vidro ao meu lado. — Os prejuízos com os veículos destruídos e os danos no portão somam quase quarenta mil. ​Olhei para os papéis e depois para ela, impressionado com a precisão do trabalho. ​— Você trabalhou Nisso desde cedo? — perguntei, levando a xícara aos lábios. ​— Não consegui dormir muito — respondeu ela de forma fria, mantendo a distância. — E quanto mais cedo eu organizar as contas, mais rápido mostro que sou útil para pagar o absurdo da dívida que você inventou. ​Deixei escapar um sorriso de canto. A garota não perdia uma oportunidade de marcar território. ​— Sente-se, Pietra — ordenei, indicando a cadeira vaga à minha frente. ​ela hesitou por um segundo, mas acabou se sentando, mantendo a postura ereta. ​— O ataque de ontem não foi um evento isolado — comecei, o tom mudando para algo mais sério. — A facção do morro vizinho está tentando expandir as rotas de distribuição. Eles acham que, por eu manter projetos sociais e reduzir a violência nas ruas, fiquei fraco. ​— E você não ficou? — provocou ela, cruzando os braços. — Um homem que precisa manter o controle à base de armas e ameaças não me parece ter uma liderança sólida. ​Aproximei-me, apoiando os cotovelos nos joelhos e encarando-a bem de perto. ​— A liderança no morro não é sobre gostar de violência, Pietra. É sobre ser o único obstáculo entre a ordem e o caos absoluto. Se eu cair, o grupo que entrar aqui não vai negociar dívida de irmão irresponsável. Eles vão transformar a vida de cada morador em um inferno. Incluindo a sua família. ​Vi a mandíbula dela travar. As minhas palavras acertaram o ponto fraco que ela tentava esconder: a noção de que o meu domínio, por mais rígido que fosse, era a única coisa protegendo o mundo dela do verdadeiro horror. ​— Isso não faz de você um herói, Greco — sussurrou ela, embora a agressividade na voz tenha diminuído. ​— Eu nunca disse que era um herói — respondi, mantendo o olhar fixo no dela. — Mas sou o homem que garante que você acorde viva amanhã. ​Ponto de Vista: Pietra ​O olhar de Greco tinha um peso que me sufocava. O pior de tudo era saber que, no fundo, ele tinha razão. Durante o tiroteio da noite anterior, a única coisa que me manteve calma foi a presença dele no quarto, a certeza de que ele destruiria qualquer um que tentasse passar por aquela porta. ​Eu estava odiando o fato de começar a entender a lógica dele. Odiava mais ainda a forma como meu corpo reagia quando ele se aproximava. ​— Se o perigo é real, por que você não me deixa ir embora? — perguntei, tentando resgatar o controle da conversa. — Ficar aqui me transforma em um alvo fácil para os seus inimigos. ​— Você é mais segura aqui dentro do que na rua lá embaixo — retrucou ele, levantando-se da cadeira. — E além disso, temos um acordo. Você é a garantia. ​— Um acordo que você impôs! — disparou, levantando-se também. ​Antes que ele pudesse responder, Breno apareceu na varanda, interrompendo a discussão. ​— Chefe, a reunião com os líderes comunitários está marcada para daqui a dez minutos no galpão principal — avisou Breno, o olhar alternando rapidamente entre mim e Greco. — E o pessoal da associação quer saber se o financiamento da creche vai ser mantido depois dos estragos de ontem. ​Greco olhou para mim antes de responder ao seu braço direito. ​— Pegue a pasta com o planejamento do mês, Pietra. Você vai comigo. ​— O quê? — perguntei, surpresa. — Eu não tenho nada que fazer nessa reunião. ​— Você é quem está cuidando da parte administrativa agora — disse ele, a voz não aceitando contestações. — Quero você ao meu lado para apresentar os números. Está na hora de você ver como a supremacia deste morro funciona na prática. ​Ponto de Vista: Greco ​O galpão comunitário ficava no meio do morro, um espaço amplo usado para reuniões, eventos e distribuição de suprimentos. Quando entramos, dezenas de moradores e líderes locais já estavam acomodados em cadeiras de plástico. O falatório cessou instantaneamente assim que pisei no local, acompanhado por Breno e Pietra. ​A presença de Pietra ao meu lado causou cochichos inevitáveis. Todos conheciam a história da irmã que subiu o morro para salvar o irmão de uma cobrança fatal. Vê-la caminhando ao meu lado, carregando as pastas da administração, enviava um sinal claro para a comunidade: ela não era uma prisioneira comum. ​Caminhei até a mesa central e me sentei. Pietra sentou-se ao meu lado, abrindo os relatórios com mãos ágeis e demonstrando um profissionalismo impecável, apesar do nervosismo visível. ​— Vamos direto ao ponto — declarei, olhando para os representantes do bairro. — O ataque de ontem causou prejuízos, mas a nossa estrutura continua intacta. Nenhuma atividade comunitária será suspensa. ​Um dos moradores mais antigos, um senhor de cabelos brancos chamado Seu Mário, levantou a mão. ​— Greco, o boato que corre é que a creche comunitária vai perder o repasse deste mês para cobrir os estragos da entrada. As mães estão preocupadas. ​Olhei para Pietra, fazendo um sinal discreto com a cabeça. Ela piscou, surpresa por eu passar a palavra para ela, mas recompôs-se rapidamente. ​— Isso não é verdade — disse Pietra, a voz ecoando firme pelo galpão. Ela folheou o relatório e apontou para uma planilha. — A verba para a creche e para a reforma do posto de saúde já foi reservada e está separada do fundo de segurança. Os estragos do ataque serão cobertos pelo orçamento de emergência do próprio quartel. ​Os moradores pareceram visivelmente aliviados. Sussurros de aprovação correram pelas fileiras de cadeiras. ​Fiquei observando Pietra por alguns segundos. A naturalidade com que ela assumiu o controle da explicação, a clareza da sua voz e a segurança que ela transmitia eram impressionantes. Ela não era apenas uma mulher bonita e teimosa; era uma força da natureza que sabia como se impor quando necessário. ​A reunião prosseguiu por mais uma hora, com Pietra detalhando cada repasse e respondendo às dúvidas com uma paciência e competência que há muito tempo não se viam naquela sala. ​Ponto de Vista: Pietra ​Quando a reunião terminou e os moradores começaram a sair, senti um peso enorme sair dos meus ombros. Não esperava me envolver de forma tão direta com as pessoas da comunidade, mas ver o alívio no rosto daquelas mães ao saberem que a creche continuaria aberta fez tudo valer a pena. ​Ficamos a sós no galpão, com Breno guardando a porta do lado de fora. ​— Você se saiu muito bem — disse Greco, encostando-se na borda da mesa e cruzando os braços. — Tem mais talento para liderar esse povo do que metade dos homens que trabalham para mim. ​— Eu só fiz o meu trabalho — respondi, guardando os papéis na pasta. — E para ser sincera, fiquei surpresa por você não ter cortado a verba da creche para comprar mais munição. ​Greco deu uma risada baixa, um som denso e envolvente. ​— Você acha que eu sou um monstro sem cérebro, Pietra. Mas para manter o morro sob controle, as pessoas precisam sentir que a minha gestão traz estabilidade. O medo garante o respeito dos inimigos, mas a estrutura garante a lealdade dos moradores. ​Ele deu alguns passos na minha direção, parando bem à minha frente. A energia entre nós mudou instantaneamente, o ar ficando denso de novo. ​— Você viu hoje o impacto do seu trabalho — disse ele, a voz descendo de tom. — Você ajudou essas pessoas. ​— Eu ajudei porque elas não têm culpa dos seus jogos de poder — respondi, olhando nos olhos dele, sentindo o coração acelerar com a proximidade. ​— Talvez — murmuro ele, erguendo a mão e tocando suavemente uma mecha do meu cabelo que tinha se soltado do coque, colocando-a atrás da minha orelha. Os dedos dele roçaram a pele do meu pescoço, enviando uma descarga elétrica direto para a minha espinha. — Mas o fato é que você está se tornando indispensável aqui, Pietra. E isso é perigoso. ​— Perigoso para quem? — perguntei, a respiração falhando. ​— Para nós dois — respondeu ele, aproximando o rosto do meu. ​Desta vez, não houve rádio para interromper, nem tiros lá fora. Apenas o silêncio do galpão e a tensão insuportável entre nós dois. Greco reduziu o último espaço entre os nossos rostos, cobrindo meus lábios com os dele em um beijo intenso, dominador e faminto. ​Um choque de realidade e desejo me atingiu em cheio. No início, tentei empurrá-lo suavemente pelo peito, mas a firmeza do toque dele e o calor da sua boca nos meus lábios derrubaram todas as minhas defesas. Minhas mãos, em vez de afastá-lo, agarraram o tecido da camisa dele, puxando-o para mais perto. ​O beijo era exatamente como o homem: impetuoso, sem pedir licença, exigindo uma rendição que eu jurava que jamais entregaria. Quando ele finalmente se afastou devagar, mantendo a testa colada na minha, ambos estávamos com a respiração descontrolada. ​— Eu disse que você não conseguiria manter a resistência por muito tempo — sussurrou ele contra os meus lábios, um sorriso vitorioso e perigoso surgindo no seu rosto. ​Abri os olhos, o pânico e a paixão guerreando dentro do meu peito ao perceber o limite que havíamos acabado de cruzar. ​— Isso foi um erro — consegui dizer, dando um passo para trás e me soltando do braço dele. ​— Pode chamar do que quiser, Pietra — respondeu ele, a voz carregada de uma certeza absoluta. — Mas agora o jogo mudou de vez. E você sabe disso. ​Apanhei a pasta de papéis com as mãos trêmulas e saí apressada do galpão, com o sabor dele ainda queimando nos meus lábios e a assustadora certeza de que eu estava perdendo a batalha contra o dono do morro.
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