Ponto de Vista: Greco
O cheiro de fumaça ainda impregnava o ar da manhã, mas a rotina no morro não parava por causa de um ataque fracassado. A feira funcionava nas ruas de baixo, o comércio abria as portas e a vida seguia o seu fluxo normal. Para quem olhava de fora, parecia paz. Para mim, era apenas o intervalo entre duas tempestades.
Eu estava sentado na varanda do quartel-general, observando a movimentação com uma xícara de café preto na mão. O corte na minha mandíbula queimava levemente, lembrete físico do tiroteio da noite anterior.
O som de passos leves no piso de concreto me fez virar o rosto. Pietra caminhava na minha direção. Ela usava roupas simples, o cabelo preso em um coque meio solto e uma pasta de documentos debaixo do braço. Apesar das poucas horas de sono, o olhar dela continuava firme, sem traço da fragilidade que vi por alguns segundos durante o ataque.
— O relatório da reconstrução da entrada principal está pronto — disse ela, colocando as folhas sobre a pequena mesa de vidro ao meu lado. — Os prejuízos com os veículos destruídos e os danos no portão somam quase quarenta mil.
Olhei para os papéis e depois para ela, impressionado com a precisão do trabalho.
— Você trabalhou Nisso desde cedo? — perguntei, levando a xícara aos lábios.
— Não consegui dormir muito — respondeu ela de forma fria, mantendo a distância. — E quanto mais cedo eu organizar as contas, mais rápido mostro que sou útil para pagar o absurdo da dívida que você inventou.
Deixei escapar um sorriso de canto. A garota não perdia uma oportunidade de marcar território.
— Sente-se, Pietra — ordenei, indicando a cadeira vaga à minha frente.
ela hesitou por um segundo, mas acabou se sentando, mantendo a postura ereta.
— O ataque de ontem não foi um evento isolado — comecei, o tom mudando para algo mais sério. — A facção do morro vizinho está tentando expandir as rotas de distribuição. Eles acham que, por eu manter projetos sociais e reduzir a violência nas ruas, fiquei fraco.
— E você não ficou? — provocou ela, cruzando os braços. — Um homem que precisa manter o controle à base de armas e ameaças não me parece ter uma liderança sólida.
Aproximei-me, apoiando os cotovelos nos joelhos e encarando-a bem de perto.
— A liderança no morro não é sobre gostar de violência, Pietra. É sobre ser o único obstáculo entre a ordem e o caos absoluto. Se eu cair, o grupo que entrar aqui não vai negociar dívida de irmão irresponsável. Eles vão transformar a vida de cada morador em um inferno. Incluindo a sua família.
Vi a mandíbula dela travar. As minhas palavras acertaram o ponto fraco que ela tentava esconder: a noção de que o meu domínio, por mais rígido que fosse, era a única coisa protegendo o mundo dela do verdadeiro horror.
— Isso não faz de você um herói, Greco — sussurrou ela, embora a agressividade na voz tenha diminuído.
— Eu nunca disse que era um herói — respondi, mantendo o olhar fixo no dela. — Mas sou o homem que garante que você acorde viva amanhã.
Ponto de Vista: Pietra
O olhar de Greco tinha um peso que me sufocava. O pior de tudo era saber que, no fundo, ele tinha razão. Durante o tiroteio da noite anterior, a única coisa que me manteve calma foi a presença dele no quarto, a certeza de que ele destruiria qualquer um que tentasse passar por aquela porta.
Eu estava odiando o fato de começar a entender a lógica dele. Odiava mais ainda a forma como meu corpo reagia quando ele se aproximava.
— Se o perigo é real, por que você não me deixa ir embora? — perguntei, tentando resgatar o controle da conversa. — Ficar aqui me transforma em um alvo fácil para os seus inimigos.
— Você é mais segura aqui dentro do que na rua lá embaixo — retrucou ele, levantando-se da cadeira. — E além disso, temos um acordo. Você é a garantia.
— Um acordo que você impôs! — disparou, levantando-se também.
Antes que ele pudesse responder, Breno apareceu na varanda, interrompendo a discussão.
— Chefe, a reunião com os líderes comunitários está marcada para daqui a dez minutos no galpão principal — avisou Breno, o olhar alternando rapidamente entre mim e Greco. — E o pessoal da associação quer saber se o financiamento da creche vai ser mantido depois dos estragos de ontem.
Greco olhou para mim antes de responder ao seu braço direito.
— Pegue a pasta com o planejamento do mês, Pietra. Você vai comigo.
— O quê? — perguntei, surpresa. — Eu não tenho nada que fazer nessa reunião.
— Você é quem está cuidando da parte administrativa agora — disse ele, a voz não aceitando contestações. — Quero você ao meu lado para apresentar os números. Está na hora de você ver como a supremacia deste morro funciona na prática.
Ponto de Vista: Greco
O galpão comunitário ficava no meio do morro, um espaço amplo usado para reuniões, eventos e distribuição de suprimentos. Quando entramos, dezenas de moradores e líderes locais já estavam acomodados em cadeiras de plástico. O falatório cessou instantaneamente assim que pisei no local, acompanhado por Breno e Pietra.
A presença de Pietra ao meu lado causou cochichos inevitáveis. Todos conheciam a história da irmã que subiu o morro para salvar o irmão de uma cobrança fatal. Vê-la caminhando ao meu lado, carregando as pastas da administração, enviava um sinal claro para a comunidade: ela não era uma prisioneira comum.
Caminhei até a mesa central e me sentei. Pietra sentou-se ao meu lado, abrindo os relatórios com mãos ágeis e demonstrando um profissionalismo impecável, apesar do nervosismo visível.
— Vamos direto ao ponto — declarei, olhando para os representantes do bairro. — O ataque de ontem causou prejuízos, mas a nossa estrutura continua intacta. Nenhuma atividade comunitária será suspensa.
Um dos moradores mais antigos, um senhor de cabelos brancos chamado Seu Mário, levantou a mão.
— Greco, o boato que corre é que a creche comunitária vai perder o repasse deste mês para cobrir os estragos da entrada. As mães estão preocupadas.
Olhei para Pietra, fazendo um sinal discreto com a cabeça. Ela piscou, surpresa por eu passar a palavra para ela, mas recompôs-se rapidamente.
— Isso não é verdade — disse Pietra, a voz ecoando firme pelo galpão. Ela folheou o relatório e apontou para uma planilha. — A verba para a creche e para a reforma do posto de saúde já foi reservada e está separada do fundo de segurança. Os estragos do ataque serão cobertos pelo orçamento de emergência do próprio quartel.
Os moradores pareceram visivelmente aliviados. Sussurros de aprovação correram pelas fileiras de cadeiras.
Fiquei observando Pietra por alguns segundos. A naturalidade com que ela assumiu o controle da explicação, a clareza da sua voz e a segurança que ela transmitia eram impressionantes. Ela não era apenas uma mulher bonita e teimosa; era uma força da natureza que sabia como se impor quando necessário.
A reunião prosseguiu por mais uma hora, com Pietra detalhando cada repasse e respondendo às dúvidas com uma paciência e competência que há muito tempo não se viam naquela sala.
Ponto de Vista: Pietra
Quando a reunião terminou e os moradores começaram a sair, senti um peso enorme sair dos meus ombros. Não esperava me envolver de forma tão direta com as pessoas da comunidade, mas ver o alívio no rosto daquelas mães ao saberem que a creche continuaria aberta fez tudo valer a pena.
Ficamos a sós no galpão, com Breno guardando a porta do lado de fora.
— Você se saiu muito bem — disse Greco, encostando-se na borda da mesa e cruzando os braços. — Tem mais talento para liderar esse povo do que metade dos homens que trabalham para mim.
— Eu só fiz o meu trabalho — respondi, guardando os papéis na pasta. — E para ser sincera, fiquei surpresa por você não ter cortado a verba da creche para comprar mais munição.
Greco deu uma risada baixa, um som denso e envolvente.
— Você acha que eu sou um monstro sem cérebro, Pietra. Mas para manter o morro sob controle, as pessoas precisam sentir que a minha gestão traz estabilidade. O medo garante o respeito dos inimigos, mas a estrutura garante a lealdade dos moradores.
Ele deu alguns passos na minha direção, parando bem à minha frente. A energia entre nós mudou instantaneamente, o ar ficando denso de novo.
— Você viu hoje o impacto do seu trabalho — disse ele, a voz descendo de tom. — Você ajudou essas pessoas.
— Eu ajudei porque elas não têm culpa dos seus jogos de poder — respondi, olhando nos olhos dele, sentindo o coração acelerar com a proximidade.
— Talvez — murmuro ele, erguendo a mão e tocando suavemente uma mecha do meu cabelo que tinha se soltado do coque, colocando-a atrás da minha orelha. Os dedos dele roçaram a pele do meu pescoço, enviando uma descarga elétrica direto para a minha espinha. — Mas o fato é que você está se tornando indispensável aqui, Pietra. E isso é perigoso.
— Perigoso para quem? — perguntei, a respiração falhando.
— Para nós dois — respondeu ele, aproximando o rosto do meu.
Desta vez, não houve rádio para interromper, nem tiros lá fora. Apenas o silêncio do galpão e a tensão insuportável entre nós dois. Greco reduziu o último espaço entre os nossos rostos, cobrindo meus lábios com os dele em um beijo intenso, dominador e faminto.
Um choque de realidade e desejo me atingiu em cheio. No início, tentei empurrá-lo suavemente pelo peito, mas a firmeza do toque dele e o calor da sua boca nos meus lábios derrubaram todas as minhas defesas. Minhas mãos, em vez de afastá-lo, agarraram o tecido da camisa dele, puxando-o para mais perto.
O beijo era exatamente como o homem: impetuoso, sem pedir licença, exigindo uma rendição que eu jurava que jamais entregaria. Quando ele finalmente se afastou devagar, mantendo a testa colada na minha, ambos estávamos com a respiração descontrolada.
— Eu disse que você não conseguiria manter a resistência por muito tempo — sussurrou ele contra os meus lábios, um sorriso vitorioso e perigoso surgindo no seu rosto.
Abri os olhos, o pânico e a paixão guerreando dentro do meu peito ao perceber o limite que havíamos acabado de cruzar.
— Isso foi um erro — consegui dizer, dando um passo para trás e me soltando do braço dele.
— Pode chamar do que quiser, Pietra — respondeu ele, a voz carregada de uma certeza absoluta. — Mas agora o jogo mudou de vez. E você sabe disso.
Apanhei a pasta de papéis com as mãos trêmulas e saí apressada do galpão, com o sabor dele ainda queimando nos meus lábios e a assustadora certeza de que eu estava perdendo a batalha contra o dono do morro.