Ponto de Vista: Pietra
O sabor de Greco nos meus lábios continuava a me perseguir dias após aquele beijo no galpão comunitário. Eu tentava me concentrar nas planilhas de custos e na organização dos eventos da comunidade, mas a minha mente insistia em voltar para o momento em que minhas mãos agarraram a camisa dele em vez de empurrá-lo.
Eu estava brava comigo mesma. Passei a vida inteira mantendo o controle, construindo barreiras para proteger a mim e ao meu irmão, e agora bastava uma aproximação daquele homem para que todo o meu autocontrole desmoronasse.
Sexta-feira chegou acompanhada de uma vibração diferente no ar. O som grave dos graves das caixas de som já ecoava pela montanha desde o final da tarde. Era noite de baile funk na quadra principal do morro, o evento mais esperado da semana.
Eu estava no meu quarto quando Dona Rosa entrou sem bater, trazendo nas mãos um vestido justo de tom verde-esmeralda e um par de saltos altos.
— O chefe mandou entregar — disse ela, deixando as peças sobre a cama com um sorriso cúmplice. — Ele disse que espera você na quadra às dez horas.
— Eu não vou a baile nenhum — respondi imediatamente, sem tirar os olhos do notebook onde finalizava um balanço financeiro. — Não sou atração da festa dele.
— Menina Pietra, um conselho de quem conhece o Greco desde garoto... — Dona Rosa se aproximou, a voz suave. — Ele não mandou o vestido para te humilhar. No morro, quando o líder aparece com alguém ao seu lado no baile, ele está dizendo para todo mundo que aquela pessoa está sob a proteção absoluta dele. Depois do ataque da semana passada, isso é uma garantia para a sua própria segurança.
Encarei o tecido do vestido sobre a cama. A explicação de Dona Rosa fazia sentido do ponto de vista pragmático, mas o meu orgulho gritava contra a ideia de aparecer em público como "a acompanhante do chefe". No entanto, permanecer trancada naquele quarto me fazia sentir cada vez mais vulnerável.
Exatamente às dez da noite, desci as escadas vestindo o modelo verde. O corte ajustava-se perfeitamente às minhas curvas, destacando o tom da minha pele, e o salto alto me dava alguns centímetros a mais de imponência.
Greco já me esperava no átrio da casa, cercado por Breno e mais três homens armados. Ele vestia uma camisa preta com os primeiros botões abertos, revelando a curva do pescoço e a margem das suas tatuagens, além de uma corrente grossa de prata. Quando me viu descer os últimos degraus, o olhar dele percorreu meu corpo devagar, com uma intensidade que fez meu pulso acelerar no mesmo instante.
Ele deu um passo à frente, sem esconder o brilho de satisfação nos olhos.
— Você demorou — comentou ele, a voz baixa e aveludada.
— Eu quase não vim — respondi, sustentando o olhar dele enquanto ajustava a alça do vestido. — Não estou aqui para dar espetáculo.
— Você não precisa dar espetáculo, Pietra. Sua presença por si só já é suficiente para parar este morro — retrucou ele, oferecendo o braço dobrado para mim. — Vamos. A noite é longa.
Hesitei por um segundo antes de deslizar minha mão pelo braço firme dele. O toque da sua pele contra a minha disparou o costumeiro alerta de perigo, mas caminhei ao seu lado com a cabeça erguida.
Ponto de Vista: Greco
A entrada na quadra do baile foi exatamente como eu planejei. A iluminação de néon cortava a fumaça e a multidão dançava ao som do grave pesado que fazia o chão de concreto tremer. No entanto, à medida que avançávamos em direção ao camarote VIP no andar superior, uma onda de sussurros abriu caminho entre as pessoas.
Ver Pietra ao meu lado, vestida em verde-esmeralda e caminhando com a postura de uma rainha que não se curva a ninguém, causou o impacto exato que eu desejava. Todos sabiam quem ela era, mas vê-la sob o meu braço reescrevia a história: ela não era uma refém fragilizada; era a mulher que mantinha o equilíbrio do meu território.
Subimos para a área reservada, de onde era possível ter uma visão privilegiada de toda a festa. Breno posicionou os homens nas saídas estratégicas do camarote, garantindo a nossa segurança.
— Aceita uma bebida? — perguntei, aproximando-me do seu ouvido para me fazer ouvir por cima do som alto da música.
— Apenas água — respondeu ela, olhando ao redor com curiosidade e uma ponta de desconfiança. — Você traz todas as suas "garantias de dívida" para festas assim?
Soltei uma risada baixa, servindo um copo de água e entregando a ela, enquanto pegava um copo de uísque com gelo para mim.
— Nenhuma garantia de dívida durou mais de vinte e quatro horas na minha casa, Pietra. Você é a única exceção.
Ela tomou um gole da água, a expressão mudando para algo mais analítico enquanto observava a multidão lá embaixo.
— As pessoas aqui realmente respeitam você. Não é só medo — comentou ela, surpresa.
— O medo mantém os inimigos afastados, mas o respeito mantém a comunidade de pé — respondi, apoiando as costas na barra de proteção do camarote e ficando de frente para ela. — Eu dou a este lugar a ordem que o Estado nunca trouxe. Em troca, eles me dão lealdade.
— É um sistema perigoso, Greco. Uma hora, a conta dessa violência chega.
— E quando chegar, estarei pronto para pagar — disse, dando um passo para mais perto dela, reduzindo o espaço entre nós. — Mas hoje a noite não é sobre negócios. É sobre nós dois.
Ponto de Vista: Pietra
A proximidade de Greco no camarote tornava a atmosfera ainda mais sufocante do que o calor do baile lá embaixo. O cheiro do uísque misturado ao perfume amadeirado dele criava uma combinação embriagante.
De repente, a figura de Vanessa apareceu na subida da escada do camarote. Ela usava um vestido vermelho extremamente curto e trazia no rosto uma expressão de fúria m*l disfarçada ao nos ver juntos. Ela caminhou diretamente até nós, ignorando os olhares de advertência de Breno.
— Boa noite, Greco — disse ela, mantendo a voz doce, embora seus olhos estivessem cravados em mim como lâminas. — Não sabia que o baile virou reunião de negócios com a funcionária nova.
Greco nem se deu ao trabalho de se virar completamente para ela, mantendo seu olhar focado no meu rosto.
— Você está no lugar errado, Vanessa — disse ele, a voz fria e desprovida de qualquer cortesia. — O camarote reservado hoje é privado.
— Ah, entendi... privado para você e a garotinha do asfalto que acha que manda em alguma coisa — provocou ela, dando um passo na minha direção. — Você realmente acha que é diferente de todas as outras que passaram por aqui, Pietra? Ele só está te usando para mostrar poder depois do ataque da semana passada.
Senti o sangue subir para as minhas bochechas, mas recusei-me a perder o controle na frente daquela mulher e de todos os homens ao redor. Dando um passo à frente, enfrentei Vanessa de cabeça erguida.
— A diferença entre mim e você, Vanessa, é que eu não preciso me humilhar buscando a atenção de ninguém nesta casa — respondi, a voz impecavelmente calma e afiada. — Se a minha presença incomoda você, sugiro que encontre outro lugar para passar a sua noite.
A reação de Vanessa foi instantânea: o rosto dela ficou vermelho de raiva e ela ergueu a mão para avançar na minha direção. Mas antes que ela pudesse dar mais um passo, a mão de Greco segurou o pulso dela com um aperto de ferro.
Ponto de Vista: Greco
A frieza e a classe com que Pietra respondeu à provocação de Vanessa só confirmaram o quanto essa garota era extraordinária. Ela não precisava da minha proteção para se impor; ela tinha a sua própria força.
Puxei o pulso de Vanessa devagar, obrigando-a a dar um passo para trás.
— Chega — declarei, o tom de voz tão baixo e perigoso que até a música alta ao fundo pareceu perder a força. — Se você desrespeitar a Pietra mais uma vez, sob o meu teto ou no meu morro, você não pisa mais nesta comunidade, Vanessa. Entendeu bem?
Vanessa olhou para mim em choque, percebendo que a minha ameaça era cem por cento real. Soltei o pulso dela com desdém.
— Breno, tire a Vanessa daqui — ordenei sem olhar para trás.
Breno aproximou-se rapidamente e conduziu a mulher para fora do camarote. Vanessa saiu lançando-me um último olhar de raiva e humilhação, sumindo no meio da multidão da pista de dança.
Voltei minha atenção para Pietra. Ela mantinha a postura ereta, mas o ritmo acelerado da sua respiração entregava a adrenalina que corria nas suas veias.
— Você não precisava ter feito isso — disse ela, cruzando os braços. — Eu sei me defender sozinha.
— Eu sei que sabe — respondi, dando o último passo que nos separava e segurando-a pela cintura, puxando seu corpo suavemente contra o meu. — E é exatamente por isso que estou cada vez mais fascinado por você, Pietra.
Ponto de Vista: Pietra
O contato direto do seu corpo contra o meu no meio do camarote me deixou sem reação. A mão dele na minha cintura era quente e possessiva, mas não havia força bruta ali — havia apenas uma atração magnética e avassaladora à qual eu já não conseguia resistir.
— Greco... as pessoas estão olhando — murmurei, tentando manter uma última linha de defesa mental, embora minhas mãos tenham pousado involuntariamente nos ombros largos dele.
— Deixe que olhem — sussurrou ele perto do meu ouvido, a voz grave ressoando dentro do meu peito. — Que vejam exatamente de quem você é.
Aquelas palavras deveriam ter me irritado. Deveriam ter despertado o meu desejo de combater a sua arrogância. Mas o modo como o olhar dele queimava sobre o meu rosto e a tensão acumulada de dias de convivência forçada explodiram de uma só vez.
Inclinei a cabeça para cima e, desta vez, não esperei que ele tomasse a iniciativa. Selecionei o momento e selei nossos lábios em um beijo profundo e faminto.
Greco soltou um rosnado baixo contra a minha boca, intensificando o aperto na minha cintura e puxando-me para ainda mais perto, colando nossos corpos de forma absoluta. O beijo no baile era quente, rápido e carregado de uma paixão perigosa que desafiava todas as regras que eu tinha estabelecido para mim mesma.
O som do baile lá embaixo sumiu completamente. Existia apenas o calor do toque dele, o sabor do uísque e a certeza aterrorizante de que eu tinha entregado o meu coração e a minha liberdade ao homem mais perigoso do morro — e que, a partir daquela noite, não haveria mais volta.