Capítulo 1

1975 Words
Ponto de Vista: Greco ​O morro não dorme; ele apenas respira fundo antes do próximo estalo. Da varanda do meu quartel-general, no ponto mais alto da comunidade, controlo cada luz que pisca no vale lá embaixo. O frio da noite do Rio de Janeiro bate no meu peito, mas a sensação de poder mantém o meu sangue quente. Aqui, a minha palavra não é apenas uma ordem. É a única lei existente. ​— Chefe — a voz de Breno corta o silêncio da noite, passos firmes ecoando no piso de concreto. — O garoto está lá embaixo. O irmão da garota do tribunal. ​Volto-me devagar, ajustando o relógio de metal no meu pulso. Breno é meu braço direito há anos, o homem que resolve os problemas antes mesmo que eles cheguem até mim. Se ele trouxe o garoto até o topo, significa que o limite do prazo expirou. ​— Ele conseguiu o dinheiro? — pergunto, com a voz pausada, sem dar qualquer margem para dúvida. ​— Nem metade, Greco. Ficou devendo mais de trinta mil na mesa de apostas e tentou sumir com o lote da semana passada. A molecada do portão pegou ele tentando meter o pé da comunidade. ​Um sorriso amargo desponta no meu rosto. As pessoas tendem a esquecer que a paciência é um luxo que não me dou ao luxo de ter. Quando alguém desafia a minha autoridade no morro, a resposta precisa ser rápida e exemplar. A supremacia não se mantém com boas intenções; mantém-se com respeito e medo. ​— Traga o infeliz — ordeno, caminhando até a mesa de madeira massiça no centro da sala. ​Segundos depois, o garoto é empurrado para dentro. Ele está pálido, a respiração descontrolada, os joelhos tremendo visivelmente. Olho para ele sem pressa. Não preciso levantar a voz para que o ambiente fique pesado. ​— Greco... por favor, me dá mais dois dias — ele implora, com as mãos juntas em desespero. — Eu vou arrumar o dinheiro! Eu juro pela minha vida! ​— Sua vida não vale trinta mil, garoto — respondo, apoiando as mãos na mesa e me inclinando na direção dele. — Você sabia as regras quando pegou o que não era seu. No meu morro, quem erra, paga. Se não tem em nota, paga em sangue. ​Antes que Breno possa fazer qualquer movimento para tirá-lo da minha frente, o barulho de passos apressados ecoa pelo corredor externo. Um dos meus homens tenta segurar alguém na porta, mas a barreira é quebrada. ​— Me solta! Eu preciso falar com o dono dessa casa agora! ​A porta se abre com força. Uma mulher passa pelo bloqueio dos meus homens, com os olhos queimando de raiva e a respiração entrecortada. Ela não parece assustada com as armas apontadas na sua direção. Pelo contrário: ela caminha direto para o centro da sala, colocando-se entre mim e o irmão. ​Pela primeira vez em muito tempo, algo consegue prender a minha atenção de verdade. ​Ponto de Vista: Pietra ​Meu coração parece que vai rasgar o meu peito a qualquer momento. Subi as escadarias deste morro correndo como se a minha própria vida dependesse disso — e a do meu irmão realmente dependia. ​O ar da noite é frio, mas sinto o suor escorrer pelo meu pescoço enquanto me coloco na frente de Enzo. Ele está encolhido, trêmulo, um trapo humano. Olho para o homem parado atrás da grande mesa de madeira e sinto uma onda instantânea de perigo cortar o meu corpo. ​Então, este é o Greco. ​Ele é mais alto e imposto do que as pessoas comentam nas ruas lá embaixo. Postura firme, ombros largos sob uma jaqueta escura, tatuagens subindo pelo pescoço e um olhar tão frio que parece capaz de congelar a sala inteira. A cicatriz leve no rosto só reforça a ideia de que ele não é um homem que aceita ouvir a palavra "não". ​— Quem deixou essa garota subir? — a voz dele ecoa grave, quase num rosnado calmo, sem tirar os olhos de mim. ​— Ela passou pelos moleques da entrada, chefe... disse que era família do garoto — o segurança se justifica, tenso. ​— Pietra... vai embora, por favor... — Enzo murmura atrás de mim, a voz embargada pelo choro. — Você não devia estar aqui. ​— Cala a boca, Enzo! — respondo sem desviar o olhar do homem à minha frente. ​Respiro fundo, tentando disfarçar o tremor nas minhas mãos. Passei a minha vida inteira tentando manter a minha família longe das sombras do crime que cercam este lugar. Trabalhei em dois empregos, paguei contas, tentei construir um futuro limpo. Mas meu irmão jogou tudo no lixo em uma única noite. ​— Ele não tem o dinheiro — digo, encarando Greco nos olhos. Recuso-me a abaixar a cabeça. Se eu demonstrar fraqueza agora, ele esmaga o meu irmão. — E você sabe que matar ele não vai fazer as suas trinta mil pratas aparecerem no seu bolso. ​Um silêncio absoluto toma conta da sala. Os seguranças ao redor parecem chocados com o meu tom. Greco dá um passo lento para fora da mesa, caminhando na minha direção. Cada passo dele é calculado, como o de um predador avaliando uma presa que cometeu o erro de não correr. ​Ele para a poucos centímetros de mim. Consigo sentir a energia pesada que emana dele, o cheiro de perfume amadeirado misturado com fumaça. ​— Você tem muita coragem para vir até a minha casa e me dizer o que faz sentido ou não, garota — ele diz, a voz baixa, perigosamente próxima do meu ouvido. — Mas coragem não paga dívida. ​— Eu pago — afirmo, engolindo em seco, mantendo o queixo erguido. — Eu assumo a dívida dele. Trabalhando, pagando aos poucos, do jeito que for preciso. Mas você solta o meu irmão hoje. ​Greco deixa escapar uma risada curta, sem um pingo de humor. Ele me olha de cima a baixo, demorando-se em cada detalhe, como se estivesse decidindo o meu valor. ​— Você acha que isso aqui é um banco? Não faço parcelamento de traição — ele responde, o tom voltando a ser frio. — O garoto errou comigo. A cobrança é imediata. ​Ponto de Vista: Greco ​A garota está apavorada, consigo ver pelo ritmo descontrolado do pulso na curva do pescoço dela. Mas o olhar... o olhar dela não se curva. Ela está encarando a morte de frente para proteger um irmão irresponsável que não vale metade do esforço que ela está fazendo. ​Há algo no desafio de Pietra que me perturba e me atrai ao mesmo tempo. No morro, todos abaixam a cabeça. Ninguém me encara nos olhos. Ninguém exige termos de negociação. ​— Você diz que assume a dívida dele? — pergunto, dando mais um passo, encurralando-a contra a minha presença. ​— Eu assumo — ela responde, sem hesitar, embora a respiração entregue o seu nervosismo. — O que você quiser. Só deixa ele ir embora. ​Olho para o garoto trêmulo no chão e depois de volta para a mulher que se colocou como escudo na frente dele. Uma ideia começa a se formar na minha mente. Uma dívida de dinheiro é simples demais. Mas ter alguém que me desafia exatamente sob o meu domínio, sob as minhas regras... isso sim é interessante. ​— Tudo bem — digo, e vejo um alívio momentâneo cruzar os olhos dela. Um erro ingênuo. — O garoto está livre. A dívida de dinheiro está cancelada. ​— Obrigado, chefe! Meu Deus, obrigado! — o irmão começa a chorar no chão. ​— Calado — corto o garoto imediatamente, sem tirar os olhos de Pietra. — O dinheiro não importa mais. A partir de hoje, a garantia da dívida é você, Pietra. ​A expressão dela muda instantaneamente. A cor escorre do seu rosto. ​— O que você quer dizer com isso? — ela questiona, dando um passo involuntário para trás, mas minhas mãos são mais rápidas, segurando o braço dela com firmeza, apenas o suficiente para que ela sinta o peso do meu domínio. ​— Quer dizer que seu irmão vai embora agora e não pisa mais no topo deste morro — respondo, encarando-a bem no fundo dos olhos. — E você fica. Vai morar nesta casa, sob as minhas ordens, até eu decidir que a sua dívida está paga. ​— Eu não sou sua propriedade! — ela dispara, tentando puxar o braço, mas meu aperto permanece inabalável. ​— No meu morro, você é o que eu decidir que você é — declaro, com a voz baixa e definitiva. — Você quis salvar a pele dele? Agora pague o preço. ​Ponto de Vista: Pietra ​As palavras dele caem sobre mim como uma sentença de prisão. Olho para a mão dele segurando o meu braço — o aperto é firme, mas não para me machucar, e sim para me mostrar que ele está no controle absoluto da situação. ​— Pietra, não... — Enzo murmura, tentando se levantar. ​— Vai embora, Enzo! — grito para o meu irmão, sabendo que se ele hesitar, este homem muda de ideia e atira nele bem na minha frente. — Vai para casa e não volta mais aqui! Suma! ​Breno puxa Enzo pelo colarinho e o arrasta para fora da sala. Os gritos do meu irmão vão sumindo pelos corredores até que a porta principal se fecha com um baque pesado. ​Ficamos apenas nós dois no meio daquela sala enorme. A luz fraca do ambiente deixa as feições de Greco ainda mais sombrias. Ele finalmente solta o meu braço, dando um passo para trás e cruzando os braços sobre o peito. ​— Você fez a escolha certa — ele comenta, com a voz impecavelmente calma. — Salvou a vida dele. ​— Você é um monstro — cuspo as palavras com todo o ódio que consigo reunir. — Acha que pode manter alguém preso aqui só porque tem homens armados na porta? ​Greco dá um sorriso lento, quase divertido com a minha reação. Ele se aproxima novamente, obrigando-me a recuar até que minhas costas batem contra a parede fria de concreto. Ele apoia uma das mãos na parede, ao lado da minha cabeça, cercado todo o meu espaço. ​— Eu não preciso de armas na porta para manter você aqui, Pietra — ele murmura, o hálito quente tocando a minha pele, enviando um arrepio involuntário por toda a minha espinha. — Você vai ficar porque sabe o que acontece com o seu irmão se você tentar fugir. ​Engulo o seco, sentindo uma mistura de raiva e uma tensão estranha e sufocante que não consigo explicar. A proximidade dele é perturbadora. O olhar escuro de Greco parece enxergar através de todas as minhas defesas. ​— Essa casa é o meu domínio — ele continua, o tom de voz calmo e dominador. — Aqui dentro, a minha palavra é a única coisa que importa. Você vai aprender a respeitar a supremacia deste morro, goste ou não. ​— Você pode me prender aqui — respondo, sustentando o olhar dele, recusando-me a demonstrar o medo que devora a minha alma por dentro. — Mas nunca vai conseguir me quebrar. ​Greco se inclina um pouco mais, os lábios quase roçando a minha orelha antes de sussurrar: ​— Vamos ver quanto tempo essa sua resistência dura, garota. O jogo só está começando. ​ele se afasta devagar, deixando-me sozinha encostada naquela parede fria, percebendo que entrei diretamente no teto do próprio d***o — e que sair daqui será muito mais difícil do que entrar.
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