CAPÍTULO 10 :
SALVAR A MINHA MÃE NÃO ERA UMA OPÇÃO. ERA PRIORIDADE.
"ISABEL MARQUES"
Eu já tinha decidido.
Aceitaria a proposta do senhor André Gouveia.
Não foi um impulso.
Foi uma escolha calculada.
A decisão não trouxe alívio. Não houve sensação de vitória. Apenas peso. Um peso sólido, inevitável que mudaria tudo — com a assinatura de um contrato que não admite arrependimentos.
Mas, junto com esse peso, veio algo inesperado.
Direção.
Pela primeira vez em meses, eu não estava reagindo. Eu estava agindo. Não estava encurralado. Estava escolhendo o caminho — mesmo que ele me custasse mais do que eu estava disposto a admitir.
Salvar a minha mãe não era uma opção.
Era prioridade.
E se para isso eu tivesse que me prender a um acordo frio, a um casamento estratégico, a uma aliança que mais parecia uma sentença…
Então que fosse.
Eu não estava entrando nisso por ambição.
Estava entrando por necessidade.
E quando a necessidade fala mais alto, sentimentos se tornam detalhes dispensáveis.
Foi pensando nisso que me deitei naquela noite.
O cansaço era absurdo. Trabalhar o dia inteiro e ainda encarar a faculdade não era fácil.
Principalmente quando se passa horas em pé, sorrindo, sendo eficiente, fingindo que está tudo sob controle.
Meus pés latejava.
Como sempre, meu pai percebeu.
— Vem cá, Bel — ele disse, puxando uma cadeira. — Senta aqui.
E lá estava ele, ajoelhado na minha frente, massageando meus pés com cuidado, como se eu ainda tivesse cinco anos.
Ele via minha correria. Via meu esforço. E, mesmo sem poder resolver os grandes problemas, tentava aliviar os pequenos.
— Você vai acabar ficando doente nesse ritmo — ele murmurou.
— Eu aguento, pai.
Ele me olhou como quem sabe que eu estava aguentando mais do que devia.
Quando finalmente fui para o quarto, tentei dormir.
Mas a minha mente não desligava.
O contrato. O casamento. Quatro anos.
O que exatamente eu estaria entregando?
Eu virava de um lado para o outro, tentando afastar as dúvidas. Em algum momento, o corpo venceu a mente. O cansaço me apagou sem aviso.
Acordei assustada. Quase atrasada.
— Droga… — murmurei, pulando da cama.
Fiz minha higiene às pressas. O rosto ainda marcado pelo sono m*l dormido. O cabelo preso de qualquer jeito. Não tive tempo para tomar café da manhã.
Quando saí do quarto, meu pai já estava pronto, com as chaves do carro na mão.
Ele sempre me levava ao trabalho antes de seguir para o dele.
— Bom dia, filha. Não vai tomar café?
— Não vai dar tempo, pai — respondi, apressada, procurando minha bolsa.
Ele franziu levemente a testa, mas não insistiu.
— Então vamos.
Minha mãe estava na cozinha, apoiada na bancada, mais pálida do que gostaria de admitir. Mesmo assim, tentou manter o sorriso.
Fui até ela primeiro.
Inclinei-me e deixei um beijo demorado em seu rosto.
— Tchau, mãe. Se cuida, tá?
— Vou sim, filha… — a voz dela era suave, cansada. — Se cuida você também, Bel.
Ela segurou minha mão por um segundo a mais.
— A mãe te ama.
Engoli o nó que subiu pela garganta.
— Eu também te amo.
Joguei outro beijo no ar antes de sair, tentando manter a leveza.
Mas, enquanto fechava a porta atrás de mim, uma certeza se firmava ainda mais dentro do meu peito:
Eu estava fazendo aquilo por ela.
E perder minha mãe não era uma opção.
Nunca seria.
*****
No trabalho, o dia foi estranhamente tranquilo.
Nenhum cliente arrogante se achando dono do mundo. Nenhum olhar atravessado tentando me diminuir como se eu fosse invisível atrás de um uniforme. Nenhuma daquelas situações humilhantes que, em dias comuns, eu era obrigada a engolir com um sorriso profissional.
Silêncio. Eficiência. Rotina.
E, pela primeira vez em semanas, eu não estava exausta — mesmo tendo dormido pouco. Talvez fosse o efeito de uma decisão tomada. Quando a gente para de lutar contra o inevitável, o corpo simplesmente aceita.Eu já tinha escolhido.
Aceitaria o acordo.
O senhor André já havia me enviado o endereço. Tudo organizado. Tudo calculado. Ele disse que mandaria o motorista me buscar no horário combinado.
Como se eu já fizesse parte da rotina deles.
Como se eu já pertencesse àquele mundo.
E eu concordei. Sem hesitar.
Sem pedir mais tempo.
Sem fingir que ainda tinha alternativa.
Quando terminei o expediente, peguei um táxi e fui direto para casa.
Minha casa não ficava em um bairro nobre. Não havia portões automáticos, câmeras sofisticadas ou jardins impecáveis. Mas era limpa. Simples.
Honesta. Ficava em uma rua tranquila, não muito longe do centro, onde eu trabalhava.
Era pequena — mas era o que eu podia oferecer à minha mãe.
Enquanto o táxi atravessava as ruas da cidade, eu observava as luzes refletindo no vidro e pensei no contraste absurdo entre os dois mundos que estavam prestes a colidir.
De um lado, a minha realidade: esforço, contas atrasadas, medo constante de perder tudo.
Do outro, o mundo de André Gouveia: luxo, poder, influência… e um contrato que me colocaria no meio disso tudo.
Eu estava atravessando a cidade.
Mas, na verdade, estava atravessando uma linha.
E depois daquela noite… não haveria volta.
Quando cheguei em casa, fui direto ao quarto da minha mãe.
A porta estava entreaberta. A luz era baixa. Ela parecia menor deitada naquela cama — frágil de um jeito que me partia por dentro.
— Mãe… eu não vou à faculdade hoje. Preciso sair para resolver umas coisas.
Ela me olhou com aquele sorriso cansado que tentava esconder preocupação.
— Tá bem, filha. Qualquer coisa, liga.
Engoli o nó na garganta.
— Não se preocupe. Eu não vou demorar.
Mas eu sabia que aquela frase era uma mentira confortável. Não para ela. Para mim.
Saí do quarto dela com o coração pesado. Cada passo pelo corredor parecia mais difícil do que deveria ser. Entrei no meu quarto e fechei a porta devagar, como se estivesse isolando ali dentro tudo o que eu estava prestes a sacrificar.
Tomei um banho demorado. Não por vaidade — mas porque precisava que a água levasse embora o medo que começava a subir pela minha pele.
Quando saí, escolhi uma roupa apresentável.
Elegante, mas discreta. Eu não poderia ir de qualquer jeito. Não naquela noite. Não para aquele encontro.
Fiz uma maquiagem leve, bem feita. Nada extravagante. Eu não queria parecer alguém tentando impressionar. Queria parecer alguém segura.
Mesmo que por dentro eu estivesse tudo, menos isso.
Quando olhei meu reflexo no espelho, por um segundo eu não me reconheci. Não era mais apenas a estudante cansada, nem a filha preocupada.
Era uma mulher prestes a negociar o próprio destino.
Saí do quarto exatamente na hora combinada.
E quando abri a porta da frente, o carro já estava lá.
Preto. Impecável. Silencioso demais para aquela rua simples.
Ele destoava do cenário como se fosse um aviso.
Ao me aproximar, um senhor muito bem vestido saiu do banco do motorista e abriu a porta traseira para mim, com um gesto educado e ensaiado.
— Obrigada — eu disse, tentando manter a voz firme.
— Não tem de quê, senhorita.
Antes de entrar, lancei um último olhar para a fachada simples da minha casa.
Ali estava tudo o que eu era.
Tudo o que eu estava tentando proteger.
Respirei fundo.
E entrei no carro como quem entra em um acordo que pode salvar… ou destruir tudo.