UM CASAMENTO ESTRATÉGICO.

1009 Words
CAPÍTULO 9: UMA MISTURA DE EXPECTATIVA E TENSÃO. ARIEL GOUVEIA Eu saí do escritório tentando parecer forte, mas por dentro eu estava desmoronando. As palavras do meu pai não ficaram apenas na minha mente. Elas se alojaram no meu peito… como um aviso de que nada voltaria a ser como antes. Não era apenas sobre a empresa. Não era apenas sobre poder. Era sobre o rumo da minha vida dali em diante. E se eu tivesse controle sobre ele… ou não. Nos dias que se seguiram, eu me entreguei ainda mais à fisioterapia. Pedi ao Caio para aumentar o tempo dos exercícios. Queria mais intensidade. Mais repetição. Mais esforço. — Você tem certeza? — ele perguntou na primeira vez que insisti. — Seu corpo ainda está em adaptação. — Eu não tenho tempo pra adaptação, Caio. Eu preciso de resultado. E ele entendeu. As sessões ficaram mais longas. Mais doloridas também. Havia dias em que minhas pernas tremiam tanto que eu achava que iam ceder. O suor escorria pelas têmporas. A respiração ficava pesada. A dor queimava. Mas eu não parava. Mesmo com o incômodo. Mesmo com a frustração. Eu continuava até o último minuto da sessão. E, aos poucos, os resultados começaram a aparecer. Eu já conseguia me manter mais tempo em pé. Alguns segundos a mais. Depois um minuto. Depois dois. Parecia pouco para qualquer pessoa. Para mim… era tudo. Cada segundo em pé era uma vitória silenciosa. Cada passo ensaiado era uma promessa de que eu não ficaria preso àquela cadeira para sempre. Aquilo me motivava. Me dava propósito. Porque, enquanto mais eu me fortalecia fisicamente, também me preparava para a guerra que vinha pela frente. Até que o dia chegou. O dia de conhecer a minha futura esposa. A mulher que meu pai havia escolhido — ou melhor, contratado — para ser minha esposa pelos próximos quatro anos. – Um acordo. Um contrato. Um casamento estratégico. Dentro de poucas horas, tudo seria formalizado. E eu também estaria presente. Isso foi algo que deixei claro ao meu pai antes de sair do escritório naquela noite. — Se o maior beneficiado nesse acordo sou eu, então eu faço questão de participar da conversa. Ele me olhou por alguns segundos, avaliando. Talvez esteja testando se eu estiver realmente pronto. — Muito bem, Ariel — ele disse, por fim. — É assim que um homem assume a própria vida. E agora ali estava eu. Arrumado. Postura firme, mesmo sentado. O olhar treinado para não demonstrar insegurança. Por dentro, tudo era uma mistura de expectativa e tensão. Quem era essa mulher? Ela sabia exatamente no que estava se metendo? Estaria ali por dinheiro? Por necessidade? Por ambição? Ou por algo maior? Eu não sabia. Mas uma coisa era certa: Se aquele casamento ia acontecer, eu não seria um espectador da minha própria história. Eu seria parte ativa dela. E, dessa vez, ninguém decidiria tudo por mim. Eu tomaria a frente agora. Meu pai chegou antes do horário combinado. Pontual demais para quem nunca faz nada por acaso. Ficamos nós dois na sala, lado a lado, falando baixo como se as paredes tivessem ouvidos. Não era uma visita comum de pai para filho. Era negócio. Estratégia. Poder. Falamos sobre cláusulas. Ajustes. Pontos que, oficialmente, seriam irrelevantes naquele acordo — mas que, na prática, poderiam definir quem sairia por cima no final. Ele falava com aquela calma calculada de sempre. Cada palavra medida. Cada pausa estudada. — Você precisa entender que isso não é só um casamento — ele disse, girando lentamente o copo entre os dedos. — É posicionamento. Eu sabia. Não era sobre amor. Era sobre alianças. Expansão. Blindagem. Então a campainha tocou. O som ecoou pela casa como um anúncio. Meu pai levantou primeiro. O olhar dele mudou. Não era mais o homem que me orientava. Era o estrategista que estava prestes a apresentar sua peça mais valiosa no tabuleiro. Quando a porta foi aberta pela Dona Marta, nossa empregada, ela entrou. Não tímida.Não hesitante. Ela entrou como quem sabe que está sendo observada — e avaliada. O salto dela marcava o chão com firmeza. O olhar, direto. Frio o bastante para me fazer perceber que talvez eu não fosse o único ali obrigado a cumprir um contrato. Minha futura esposa. Minha futura aliada. Ou meu maior risco. E naquele instante eu entendi: o acordo tinha acabado de ganhar um rosto… e ele era muito mais perigoso do que qualquer cláusula que tínhamos discutido. Mesmo com o impacto da presença dela — calculada, quase arrebatadora — eu não demonstrei nada. Aprendi cedo que controle é poder. E eu nunca entrego poder de graça. Ela era bonita. E muito. O tipo de mulher que causa efeito, que despertar olhares quando entra em um ambiente. O tipo que usa silêncio como arma e postura como estratégia. Mas eu não era um garoto impressionável. Eu já tinha estado com outras mulheres antes dela. Mulheres experientes. Ambiciosas. Sedutoras. Belas de todas as formas possíveis. Eu conhecia o jogo. Conhecia os olhares demorados, os sorrisos calculados, as aproximações sutis. E, acima de tudo, sabia me manter impenetrável. Desejo nunca foi problema. Controle sempre foi prioridade. Não me permito perder a compostura diante de um rosto bonito ou de um corpo bem desenhado. Não me permito agir como um jovem imaturo, dominado por impulso. Emoção é falha. Impulso é fraqueza. E fraqueza, no meu mundo, custa caro. Se aquele casamento fosse um contrato, então eu entraria nele como entro em qualquer negociação: lúcido. Frio. Estratégico. Ela podia ser deslumbrante. Mas eu não me deslumbro. Eu observo. Analiso. E eu não estava ali para me deslumbrar. Eu estava ali para calcular. Para avaliar cada gesto, cada palavra, cada respiração contida naquele ambiente. Não era sobre beleza. Não era sobre química. Era sobre vantagem. Enquanto muitos homens se perdem no brilho, eu aprendi a enxergar além dele. Eu não estava ali para admirar-la. Estava ali para decidir qual seria o meu próximo movimento — e garantir que, nesse jogo, ninguém movesse peça alguma sem que eu permitisse.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD