O INICIO

1249 Words
CAPÍTULO 1 : MAIS UMA CRISE "Isabel Marques" A loja pulsava com uma movimentação refinada naquele dia, onde o vai e vem de clientes compunha um cenário de elegância e expectativa. Na verdade, era sempre assim. Trabalhar na D’Cavan significava conviver diariamente com o excesso: luxo, pressa, vozes baixas misturadas ao tilintar de cartões infinitos. Um lugar frequentado apenas por magnatas e pessoas com dinheiro suficiente para nunca perguntar o preço. E consegui trabalhar em um estabelecimento tão requintado como esse, só me foi concedido graças ao meu currículo e a todo o esforço que coloquei na minha formação e alguns cursos preparatórios e em também a minha boa desenvoltura. Minha mãe sempre me ensinou a ser apresentável desde muito cedo. — E somando isso ao meu curriculum sólido, bem construído, fruto de escolhas difíceis e muito esforço, eu consegui esse trabalho. E estando ainda finalizando o mestrado em Administração e empreendedorismo, isso me ajudou ainda mais. O difícil era ter que conciliar estudos e trabalho.isso sim ,era uma disciplina quase obsessiva. Mas antes disso, eu havia começado Medicina. Um sonho antigo, intenso… mas caro demais para quem precisava escolher entre pagar mensalidades ou sobreviver. Não consegui ir até o fim, mas cheguei bem perto. Porem o dinheiro acabou antes da vocação. Foi então que migrei para a Administração. Não por falta de ambição, mas por estratégia. Consegui uma bolsa, agarrei a oportunidade e transformei a frustração em foco. Se não pudesse salvar vidas num hospital, aprenderia a comandar decisões que mudassem destinos de outra forma. Às vezes, me pergunto se a mudança de carreira vai me trazer alguma solução futura…?! Ou apenas uma forma elegante de adiar o caos. Em algumas vezes ,o dia era bastante cansativo, e naquele dia ,foi um deles. Não era apenas meu corpo que estava cansado, era algo mais fundo, era algo acumulado. Na noite anterior, eu tinha passado horas acordada, observando a respiração da minha mãe no escuro do quarto, contando intervalos, temendo silêncios longos demais. Mais uma crise. Era quase sempre assim. As crises vinham à noite, quando o mundo dormia e o medo ficava maior. Meu pai revezava comigo. Tentávamos dividir o cansaço para que ambos conseguissem descansar um pouco, mesmo sabendo que nenhum de nós realmente dormia. E só consegui descansar um pouco, já o dia clareando. Minha mãe precisava de uma cirurgia o mais rápido possível . Ou de um equipamento adequado para sobreviver com dignidade. Mas não tínhamos condições suficientes para isso. O dinheiro nunca alcançava o que era urgente. Então fazíamos o que podíamos. Adapta vamos. Improvisamos. Resistiamos. E eu seguia trabalhando, sorrindo para clientes que compravam o que custava mais do que meses da nossa vida, enquanto eu carregava no peito a culpa silenciosa de não conseguir poder salvar quem mais precisava de mim. Olhei pro relogio e já chegava a hora do meu almoço . Eu precisava parar. Nem que fosse por alguns minutos. Aproveitei o horário de almoço para uma refeição rápida, quase automática, e me permiti descansar. Não foi exatamente sono. — foi mais um silêncio. Um intervalo breve em que tentei desligar a mente, mesmo sabendo que ela nunca obedecia. Quando retornei ao trabalho, estava um pouco melhor. O cansaço ainda existia, mas tinha sido empurrado para um canto distante. O rosto recomposto, a postura profissional impecável. A máscara que eu aprendera a usar tão bem. Foi então que um dos clientes mais requisitados da loja entrou. Eu já tinha o atendido outras vezes. Na verdade, quase sempre ele pedia que fosse eu a atendê-lo. Nunca soube exatamente o motivo. Não era apenas eficiência — outros vendedores eram tão bons quanto eu. Ainda assim, ele preferia meu atendimento. Eu não tinha a menor noção do porquê. Mas, no fim, pouco importava. Eu estava ali para fazer o meu melhor. E, sendo honesta comigo mesma, atendê-lo era sempre vantajoso. Com ele, eu quase sempre conseguia bater — ou ultrapassar — a meta do mês. Compras grandes, decisões rápidas, nenhum apego ao valor final. Clientes assim eram raros… e perigosamente confortáveis. Respirei fundo, ajustei o sorriso e caminhei na direção dele, já me preparando profissionalmente para aquele atendimento, que com certeza eu me garantiria que não force apenas mais um. Algumas situações às vezes parecem rotina… até se tornarem o início de algo impossível que você possa controlar ou fugir. Olá Senhor Gouveia, em que posso ajudá-lo? Aproximei-me daquele homem cuja presença impunha respeito antes mesmo que ele dissesse uma única palavra. André Gouveia não era apenas alguém com aparência de poder — ele era o próprio retrato da autoridade. A postura ereta, o terno impecavelmente alinhado ao corpo, o olhar firme e calculista de quem está acostumado a decidir destinos com poucas palavras. Havia algo nele que dominava o ambiente sem esforço, como se o espaço naturalmente se ajustasse à sua presença. Cada gesto era contido. Preciso. Seguro. E com o sorriso profissional que já vinha quase automático. Falei — Posso ajudá-lo em algo específico hoje? Ele levantou os olhos devagar, olhando para mim, Havia sempre aquela calma nele, controlada demais para ser casual. — Sim, pode— respondeu. — Estava à sua espera. A frase ficou suspensa entre nós por um segundo a mais do que o normal. — Fico feliz em saber — repliquei, mantendo o tom neutro. — Temos algumas novidades desde a última vez que esteve aqui. — Imagino. — Ele percorreu a loja com o olhar, mas voltou para mim rápido demais. — Mas prefiro ver o que você recomenda. Assenti, indicando o caminho até a vitrine principal. — Depende do que procura — disse. — Algo clássico ou… diferente? Ele sorriu de lado, quase imperceptível. — Algo que resolva problemas — respondeu. — Ou que os crie. Ainda não decidi. Engoli em seco, sem saber por quê daquela resposta. — Temos peças que fazem as duas coisas — falei, abrindo a vitrine. — Tudo depende de quem as usa. Ele se aproximou um pouco mais. Não o suficiente para ser invasivo. O suficiente para ser notado. — Você fala como alguém que entende de escolhas difíceis. Hesitei por meio segundo. Depois, voltei ao jogo. — Trabalho com elas todos os dias. Ele observou minhas mãos enquanto eu apresentava a peça. Não o objeto — mais as minhas mãos em si. — Sempre tão precisa — murmurou. — Mesmo quando parece cansada. O comentário me pegou desprevenida. — Faz parte do trabalho — respondi rápido demais. — Nem tudo deveria fazer parte dele — disse, em tom baixo. — Às vezes, as pessoas carregam mais do que deviam. Fechei a vitrine com cuidado, sentindo o coração bater fora do ritmo. — O senhor gostaria de experimentar? — perguntei, retomando a formalidade como um escudo. Ele sustentou meu olhar por alguns segundos. — Claro — respondeu. — Desde que seja você a acompanhar todo o processo, mas hoje eu não vou levar só pra mim , também vou levar pro meu filho. Certo. como você quiser. Quais a preferência dele ? o que ele gosta mais? perguntei a ele. Meu filho é muito exigente, mas eu acredito que você consiga agradar ele com a sua decisão e escolha – ele falou e olhou pra mim. Assenti, mesmo sem entender por que aquele simples atendimento começava a parecer um risco, pois algumas pessoas entram numa loja para comprar. Outras entram para observar. Mas isso não me parecia o caso de André Gouveia. E algo ali me deixou em alerta.
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