CAPÍTULO 2 :
MAS TENHO UMA PROPOSTA A LHE FAZER.
"Isabel Marques"
Atender um cliente no porte de Andre Gouveia era fabuloso, para qualquer um nessa boutique, mas eu confesso ,que foi um tanto estranho.
Mas o que me importava mesmo era a minha excelente comissão no final do mês .
E depois dele fornecer todas as informações necessárias para que eu selecionasse peças que realmente combinassem com o gosto do filho, tudo se tornou ainda mais fácil pra mim.
— cortes precisos, tecidos discretos, elegância sem excessos. Tudo muito específico. Muito controlado , mas tudo com muito estilo.
E enquanto separava as opções.
Cheguei a me perguntar, em silêncio – por que o próprio filho não escolhia as próprias roupas?
Mas quem era eu para questionar qualquer coisa no meio de um figurão como André Gouveia?
Pessoas daquele nível não explicavam decisões. Apenas as executavam.
De uma coisa eu tinha certeza: eu estava ali para trabalhar. Não importava o motivo da compra, nem para quem fosse.
O meu papel era cumprir o que me cabia. E eu cumpri perfeitamente.
******
Uma semana depois da última venda, ele estava de volta. Dessa vez mais cedo do que de costume.
Esperou que eu terminasse o atendimento de outro cliente e só então se aproximou.
Não havia pressa no gesto dele. E aquele homem me parecia não saber o que era isso.
Ele carregava uma autoridade dominante, quase palpável. E sempre que eu o atendia, eu tinha a estranha sensação de estar a ser observada além do necessário.
Não era exatamente um olhar invasivo — era avaliador. Como se medisse pessoas da mesma forma que avaliava negócios.
Eu, no entanto, mantinha a postura firme e composta. Ombros alinhados, coluna ereta, cada gesto de acordo com as normas e etiquetas da empresa. Não deixei transparecer nada — nem o cansaço, nem a tensão de estar diante de um homem tão influente.
— Bom dia — disse ele, com a voz controlada e sempre com aquele ar de autoridade.
— Bom dia, senhor André — respondi, na mesma formalidade de sempre.
Esperei enquanto ele observava a vitrine dos relógios
de uma edições carima.
— Posso ajudá-lo em alguma coisa? Em alguma escolha que deseje fazer hoje? — perguntei, repetindo a frase que já me era tão familiar.
Ele permaneceu com o olhar por tempo demais em um dos relógios antes de me responder.
— Hoje eu não vim comprar nada — disse, por fim
— Mas tenho uma proposta a lhe fazer.
O mundo pareceu dar um pequeno desvio.
Fiquei a olhar para ele, sem entender. Um homem como André Gouveia a fazer-me uma proposta?
Aquilo soava… fora do lugar.
Por um segundo, pensei que já soubesse onde aquilo ia dar. Cantadas m*l disfarçadas, convites inconvenientes, propostas indecentes
— eu já tinha ouvido de tudo naquele trabalho.
Instintivamente, preparei-me para reagir como sempre fazia: com educação fria, distância calculada e limites claros.
Mas havia algo no tom dele que não combinava com esse tipo de abordagem, até mesmo sua postura para comigo era diferente.
E isso, de alguma forma, me deixou ainda mais alerta.
Ele percebeu a minha hesitação. Não tentou suavizar. André Gouveia não era homem de rodeios.
— Não se preocupe — disse, com calma calculada.
— Não é nada do que está a pensar...
Fez um gesto discreto para que nos afastássemos um pouco do fluxo da loja. Paramos perto de uma área mais reservada, ainda visível o suficiente para manter a formalidade — mas distante o bastante para que as palavras ganhassem outro peso. E como uma conversa normal entre vendedora e cliente ele começou a falar.
— Tenho um filho — começou. — E ele é meu único herdeiro.
Assenti. Já sabia. As roupas, o cuidado excessivo com cada detalhe, tudo fazia sentido agora.
— Ele não está bem — continuou. — Não como deveria estar para assumir as responsabilidades que carrega. Empresa, nome, decisões.
— Houve uma pausa curta. — Mas minha Família.
Senti um leve aperto no estômago, mas mantive o rosto neutro.
— E o que isso tem a ver comigo? — perguntei, com cuidado.
Ele sustentou o meu olhar. — Tudo.
– Tudo? Respirei fundo. Tudo como?
— Preciso de alguém ao lado dele — disse André, em tom firme. — Alguém com estrutura, disciplina, inteligência emocional. Alguém que não se intimide… e que saiba se cuidar.
A palavra cuidar ficou suspensa no ar.
— O senhor está a falar de quê, exatamente?
— perguntei, já pressentindo que a resposta mudaria tudo.
Ele não desviou os olhos quando disse:
— Quero que se case com o meu filho.
O chão pareceu fugir por um segundo.
Então ele continuou.
Sei que aqui não é um lugar adequado pra essa conversar um tanto complicada , mais eu não encontrei outra solução de abordagem.
— E um casamento formal — acrescentou, como se falasse de algo simples.– Um contrato. — Com prazo definido.– Quatro anos.
Senti o coração bater forte demais para um ambiente tão silencioso.
— Durante esse período, o seu papel será estabilizador. Ajudá-lo a se recuperar, a amadurecer, a assumir por completo as obrigações que lhe cabem. — A voz dele não vacilou.
— Ao final do acordo, ambos estarão livres.
— Livres… — repeti, quase sem voz.
— Financeiramente você serrar bem compensada — continuou. — O suficiente para resolver qualquer problema que a sua família enfrente. Tratamentos. Cirurgias. Equipamentos. Tudo.
Ele sabia?!
Não disse como. Não precisou.
— Isto não é um favor — concluiu. — É um acordo. Claro, limpo. Com cláusulas. Proteção para ambos.
Eu estava imóvel, tentando processar.
Casar-me com um desconhecido.
Viver ao lado de alguém quebrado para que ele pudesse ser reconstruído.
Trocar quatro anos da minha vida… pela chance de salvar a minha mãe.
— Não espero uma resposta agora — disse André, finalmente. — Mas pense com cuidado. Algumas oportunidades não voltam. E algumas recusas cobram um preço alto demais. Quero manter isso em sigilo, mas espero você me ligar.
Ele deu um passo para trás, devolvendo-me o espaço.
— Quando decidir, saberá como me encontrar. Me entregou um cartão pessoal e foi embora.
Saiu da loja como sempre entrava: deixando o ar carregador de imponência depois da sua passagem.
Fiquei ali, com a postura perfeita exigida pela empresa, enquanto por dentro tudo desmoronava.
Aquilo não era apenas uma proposta.
Era uma escolha entre a minha liberdade…
e a sobrevivência de quem eu mais amava.
E pela primeira vez, não sabia distinguir onde terminava a solução
e onde começava o caos.
Mas as palavras dele ficaram ecoando na minha cabeça , como se ele ainda estivesse ao meu lado – E pra completar o dia parecia não passar ,ele se arrastava – Cheguei em casa ,tomei um banho rápido ,e fui pra faculdade, mas aquelas palavras ficaram na minha cabeça como um eco, que ficava sempre voltando.
Eu queria saber como aquele homem sabia da minha vida e da minha família?!
Eu precisava me concentrar, nas minhas aulas e manter as minhas notas. Era isso que eu tinha que fazer e esquecer aquela conversa.