CAPÍTULO 4:
LEMBRETE CONSTANTE DAQUILO QUE PERDI
ARIEL GOUVEIA
Reabilitação.
O chão da sala de fisioterapia é frio demais.
Ou talvez seja só o meu corpo que já não consegue distinguir sensações direito.
— Mais uma vez — diz meu amigo Caio que também é meu fisioterapeuta, firme, sem crueldade, mas sem piedade.
Minhas mãos agarram as barras paralelas com força excessiva. Os nós dos dedos ficam brancos. O suor escorre pela testa antes mesmo de eu tentar mover as pernas. Meu cérebro envia o comando — claro, urgente — e o corpo responde com silêncio.
Nada.
Respiro fundo. O ar entra aos solavancos. Tento outra vez.
A perna direita tremeu. Não é um passo. Não chega nem perto disso. É um espasmo ridículo, humilhante. O músculo contrai como se estivesse a zombar de mim, lembrando quem manda agora.
— Concentra — ele diz. — Não força. Sente.
Sente.
Como se houvesse algo ali para sentir.
A dor vem depois. Não das pernas, mas dos ombros, dos braços, da coluna arqueada num esforço que não deveria existir. Cada tentativa falha pesa mais do que a anterior. O corpo cansa. A mente grita.
— De novo.
E eu vou. Porque parar dói mais.
O espelho à frente reflete um homem que eu m*l reconheço: mandíbula tensa, olhar febril, o tronco inclinado para a frente como quem tenta fugir do próprio reflexo. Um segundo de distração — e as pernas cedem.
Caio.
O impacto é seco. Humilhante. O ar foge dos meus pulmões. Por um instante, tudo fica quieto demais.
— Está tudo bem — ele diz, já ao meu lado.
– Sim. Eu aguento. Respondi
O chão está perto demais. Próximo o suficiente para me lembrar, outra vez, da minha limitação.
Agora é sempre assim.
Uma fração de segundo de descuido… e meu corpo não responde como antes. As pernas vacilam. A força falha. A cadeira de rodas me espera como um lembrete constante daquilo que perdi.
E é nesse momento, com o rosto colado ao protetor no chão, que a minha memória me trai.
Ela vem sem pedir licença.
E eu lembro dela. – Bianca.
Lembro do cheiro da pele dela. Do calor do corpo encaixado ao meu. Das noites em que o mundo parecia pequeno demais para conter o que sentíamos. Lembro das mãos dela percorrendo minhas costas, do jeito que ela sussurrava meu nome como se fosse segredo e promessa ao mesmo tempo.
Lembro de quando eu era inteiro.
Mas a lembrança não vem sozinha.
Ela vem acompanhada da imagem do que sou agora.
Preso a uma cadeira.
Dependendo de ajuda para me erguer.
Um homem que sempre foi viril, confiante, amante do prazer e do controle… reduzido a sessões de fisioterapia, barras paralelas e suor misturado à frustração.
A cada tentativa de me levantar, meu corpo treme. A dor lateja. O orgulho grita mais alto.
Mas eu me levanto.
Mesmo que por segundos. Mesmo que caia depois.
Eu me levanto. Eu vou conseguir.
É por isso que, mesmo com dores que me atravessam como lâminas, eu me esforço nas reabilitações. Insisto. Repito. Caio. Levanto de novo.
Pois quando eu me recuperar totalmente…
Eu terei ela de volta. Meu grande amor.
Minha grande paixão. Bianca Romão.
O nome ecoa dentro de mim como uma oração proibida.
Eu nunca soube mais nada dela.
E nunca procurei saber.
E Nunca mas permiti que falassem o nome dela na minha frente. Na casa inteira, todos sabem: é proibido mencionar Bianca Romão.
Não porque eu a odeie. Mas porque eu a amo.
E amar, sem poder tocar, sem poder ser o homem que fui… dói mais do que qualquer osso quebrado.
Falar dela seria rasgar uma ferida que eu tento manter fechada à força. Então eu escolhi o silêncio.
Um silêncio que me protege. Um silêncio que me tortura.
Mas um dia… quando eu voltar a andar sem apoio, quando meu corpo voltar a responder como antes…
Eu não vou me esconder atrás da dor.
Eu vou atrás dela.
E, dessa vez, não haverá cadeira, nem orgulho ferido, nem medo, e o nosso passado m*l resolvido não será capaz de me impedir.
****
– Como estar se sentindo filho?
A voz do meu pai ecoa pela sala de fisioterapia antes mesmo que eu termine a última repetição.
Ele entra devagar, mas sua presença preenche o ambiente. Foi ele quem mandou montar aquele espaço na ala leste da mansão — barras paralelas, aparelhos modernos, colchonetes, tudo pensado para que eu tivesse a melhor recuperação possível.
Eu apoio o peso do corpo nos braços, forçando as pernas a sustentarem mais alguns segundos.
— Estou cada vez melhor — respondo, respirando com esforço. — Só preciso recuperar a força nas pernas. E com as fisio… eu vou conseguir.
Pra quem já passou por tanto, isso aqui não é nada.
Ele se aproxima, atento a cada movimento meu, como se ainda visse o menino que corria pelos corredores da casa.
— É desse jeito que se fala — disse firme. — Eu quero te ver como antes. Forte. Destemido. Pronto pra qualquer coisa.
A minha postura permaneceu firme . E eu assentir — E o senhor vai ver, Eu prometo.
Por um instante, o silêncio entre nós não foi pesado. Mais tinha muita expectativa. Então ele muda a conversa, mas a postura continuava a mesma, e seus os olhos ficam mais duros. Mais sérios.
— Ariel…
— ele chama meu nome com aquela entonação que eu conheço bem. — Depois que você tomar banho, eu preciso falar com você no escritório. É muito importante, filho.
Meu estômago aperta.
Ele não desvia o olhar. E pela expressão dele, a conversa não será fácil.
— Certo. Eu estarei lá. — Respiro fundo. — Só vou precisar que o Caio me dê uma ajuda até o banheiro.
Como se tivesse sido chamado pelo pensamento, Caio se aproxima, retirando as luvas médicas com calma.
— Sempre à disposição — diz ele, com um meio sorriso.
Meu pai observa a cena satisfeito.
— Fico feliz que vocês sejam amigos, meu filho. Isso facilita muito na sua reabilitação. Além de ser seu médico particular, ele é seu amigo de longa data… isso me tranquiliza.
Caio apoia a mão no meu ombro com firmeza.
— Eu também fico feliz, senhor André. Quero ver logo meu amigo de pé. E não só de pé… quero ver ele correndo por aí, dando trabalho de novo.
Eu solto um riso baixo.
— Cuidado com o que deseja, Caio Bertone.
Mas, por dentro, minha mente já não está mais na fisioterapia.
Está no escritório. No tom da voz do meu pai. No olhar fixo demais. Algo está para mudar.
E, seja o que for, eu sinto que não tem nada a ver com minhas pernas. Tem a ver com o passado.
E talvez… com um nome que eu passei anos proibindo dentro dessas paredes.