CAPITULO 5 :
COMO VOCÊ VAI CONSEGUIR
ISABEL MARQUES
Quando cheguei em casa depois da faculdade, eu estava exausta. A cabeça latejava de tanto conteúdo, trabalhos acumulados, provas chegando. Tudo o que eu queria naquele momento era um banho quente e alguns minutos de silêncio para conseguir respirar direito.
Assim que fechei a porta do apartamento, ouvi a voz do meu pai vindo da cozinha.
— Então, filha, como foi lá na faculdade?
Ele apareceu na sala enxugando as mãos em um pano de prato, com aquele olhar atento que sempre me examinava como se quisesse ter certeza de que eu estava realmente bem.
Suspirei, largando a bolsa no sofá.
— Um pouco cansativo, pai… eu estou muito cansada.
Ele se aproximou sem dizer mais nada e me puxou para um abraço apertado. O tipo de abraço que faz o mundo desacelerar por alguns segundos.
— Eu imagino. Você anda se esforçando demais.
Fiquei ali, sentindo o cheiro familiar da casa, o calor dele, a segurança que só aquele abraço me dava.
— Faz assim — ele disse, afastando-se só o suficiente para olhar meu rosto. — Vai tomar um banho. Eu vou esquentar sua comida. E depois faço uma massagem nos pés da minha princesinha.
Levantei a cabeça e encarei aquele sorriso orgulhoso.
— Pai… você é o melhor. Mas eu já sou bem adulta pra você me chamar de princesinha.
Ele riu, aquele riso leve que sempre iluminava o rosto cansado dele.
— Você pode ter vinte, trinta ou cinquenta anos. Vai continuar sendo minha princesinha, minha querida.
Balancei a cabeça, fingindo indignação.
— Assim você vai me deixar m*l-acostumada.
— Esse é exatamente o meu plano — respondeu, piscando para mim.
Sorri.
Saí do abraço dele com o coração mais leve e segui pelo pequeno corredor até o meu quarto.
Nosso apartamento era simples. Nada luxuoso.
Móveis modestos, paredes claras, alguns quadros antigos que minha mãe tinha escolhido com muito cuidado. Mas era aconchegante. Cada canto tinha história. Cada detalhe carregava esforço, renúncia e amor.
Era ali que eu me sentia protegida do mundo.
Fechei a porta do quarto, encostei as costas nela por alguns segundos e respirei fundo.
O dia tinha sido pesado.
Mas estar em casa… tornava tudo suportável.
Quando saí do banho, ainda com os cabelos úmidos caindo pelos ombros, não fui direto para a cozinha como meu pai tinha sugerido.
Meus passos seguiram automaticamente pelo corredor estreito até o quarto da minha mãe.
A porta estava entreaberta.
Empurrei devagar.
O cheiro leve de remédio e lavanda sempre me atingia primeiro. A janela estava parcialmente aberta, para deixar entrar o ar suave daquela noite. sobre a cama um controle ajustável e o aparelho ao lado — aquele que a ajudava a respirar melhor nas noites mais difíceis.
— Olá… como você está se sentindo, mamãe?
Ela virou o rosto lentamente na minha direção. O sorriso veio, mas cansado. — Estou melhor, filha.
A voz saiu baixa, frágil demais para alguém que sempre foi tão forte.
Eu me aproximei da cama e me sentei ao lado dela. Conhecia aquele “estou melhor”. Era a resposta padrão. A resposta que ela usava para não me preocupar. Mas eu via.
Via no jeito como os dedos estavam mais finos. Na palidez da pele. No esforço que fazia até para mudar de posição e até mesmo pra se levantar da cama.
— Mamãe… não mente pra mim.
Ela suspirou, fechando os olhos por um instante.
— Você tem que me dizer a verdade. Eu fico preocupada.
Ela abriu os olhos de novo e segurou minha mão.
— Eu sei, filha… mas eu não quero te preocupar. Eu vou ficar bem. Eu engoli em seco.
— Você não está bem. E eu não sou criança. Eu preciso saber.
O silêncio se espalhou pelo quarto.
O aparelho ao lado da cama fez um ruído baixo e contínuo.
— Os médicos disseram que se você fizer a cirurgia você fica boa — falei, tentando manter a voz firme. — Como Bel?
Ela me olhou com aquela expressão que misturava amor e resignação.
— Filha, isso é muito caro. Como você vai conseguir uma quantia dessas? Eu não quero que você carregue esse peso. Você já estuda, já ajuda em casa… nós vamos nos virar com o que temos.
“Nos virar.”
Aquelas palavras me atravessaram.
Porque eu sabia que “nos virando” significava mais remédios paliativos. Mais noites difíceis. Mais dor disfarçada.
Meus pensamentos, inevitavelmente, voltaram para a proposta do senhor André Couber.
Eu tinha tentado não pensar naquilo.
Tinha repetido para mim mesma que existiria outra saída.
Mas cada vez que eu entrava naquele quarto e via minha mãe definhando naquela cama… a proposta deixava de parecer absurda e começava a parecer necessária. Eu não tinha outro recurso.
Não tinha dinheiro – Não tinha contato – Não tinha tempo.
E o tempo era justamente o que ela estava perdendo.
Olhei para minha mãe — aquela mulher que sempre foi linda, cheia de vida, que cantava enquanto cozinhava, que dançava na sala aos domingos à tarde.
Ela ainda tinha tantos anos pela frente.
E eu não suportaria perder-la.
— Mamãe — falei, inclinando-me e beijando sua testa — eu prometo que vou dar um jeito. Você vai fazer essa operação. E não vai mais precisar de remédios… nem desse aparelho.
Ela tentou protestar.
— Filha….
Mas eu já tinha tomado minha decisão.
Por mais que doesse. Por mais que me assustasse.
Eu aceitaria a proposta do senhor André.
Seria por um tempo. Apenas um acordo.Três ou Quatro anos seria o suficiente para ajudar a minha mãe.
Eu suportaria. Eu me sujeitaria.
Mas minha mãe não ficaria presa naquela cama esperando a sua morte chegar. E perder-la não seria uma opção pra mim.
Nunca seria.
E as palavras de André Couber ecoavam na minha cabeça com uma clareza c***l: “Eu não vou esperar por muito tempo.” –O tempo.
Sempre ele.
Apertei a mão da minha mãe com mais força.
— Mãe… amanhã eu vou resolver esse assunto.
Ela franziu levemente a testa.
— Que assunto, filha?
Respirei fundo antes de responder.
— Eu recebi uma proposta. E amanhã… se tudo der certo… eu vou conseguir o dinheiro para o seu tratamento. No melhor hospital. Com os melhores médicos.
Os olhos dela se arregalaram, não de esperança — mas de preocupação.
— Proposta? — a voz dela saiu mais tensa do que fraca dessa vez. — Que proposta é essa?
Eu desviei o olhar por um segundo. Não podia contar os detalhes. Não agora.
— Uma oportunidade de trabalho — menti, com suavidade. — Algo que pode resolver tudo de uma vez.
Ela segurou meu rosto entre as mãos, mesmo com a pouca força que tinha.
— Filha… não faça nada que possa te prejudicar. Eu prefiro morrer a ver você sofrendo.
Aquelas palavras me atingiram como um golpe.
— Não fala isso! — sussurrei, com a voz embargada. — Eu não vou fazer nada errado. Vai correr tudo bem, eu prometo.
Ela me estudava como se tentasse enxergar além do que eu dizia.
— Dinheiro fácil sempre cobra um preço alto — murmurou.
Meu coração acelerou. Se ela soubesse.
Se soubesse que o “preço” envolvia um acordo com um homem poderoso… um casamento por interesse… uma vida que não seria realmente minha…
Talvez nunca me perdoasse.
Mas o que era pior?
Viver com um acordo pesado na consciência…
Ou viver com o vazio da ausência dela?
Aproximei minha testa ,da dela.
— Confia em mim, mãe. Só isso. Confia.
Ela fechou os olhos por um instante, como se estivesse rezando em silêncio.
— Eu confio em você… eu só tenho medo do mundo, minha filha.
Eu sorri, mesmo com o peito apertado.
— Então deixa que eu enfrento ele.
Fiquei ali mais alguns minutos, ouvindo a respiração dela se estabilizar aos poucos. Quando saí do quarto, o peso da decisão parecia ainda maior.
Mas a escolha já estava feita.
Amanhã, eu daria minha resposta a André Couber.
E não importava o que isso custasse.
Minha mãe não ficaria esperando a morte chegar.
Não enquanto eu ainda pudesse lutar por ela.