Erguendo os braços para o céu distante
E apostrofando os deuses invisíveis,
Os homens clamam: — "Deuses impassíveis,
A quem serve o destino triunfante,
Por que é que nos criastes?! Incessante
Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,
Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,
Num turbilhão c***l e delirante...
Pois não era melhor na paz clemente
Do nada e do que ainda não existe,
Ter ficado a dormir eternamente?
Por que é que para a dor nos evocastes?"
Mas os deuses, com voz inda mais triste,
Dizem: — "Homens! Por que é que nos criastes?"
- Antero de Quental
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Dante
O Inferno descrito por Dante em A Divina Comédia está em forma de um funil, que segue em direção ao centro da terra, onde Lúcifer está à espera.
Em cada círculo são punidos pecados distintos, de acordo com o seu grau de gravidade. Os pecados menos graves são punidos nos primeiros círculos e os mais graves nos últimos, chegando a Lúcifer. E eu peguei-me a imaginar em quais desses eu estaria quando morresse, meio bêbado e desnorteado enquanto as luzes coloridas da ‘boate’ pareciam-me deixar fora de mim.
Balancei o corpo mesmo que a música estivesse abafada nos meus ouvidos e olhando para cima onde o vidro que servia de cobertura do lugar deixava-me ver as estrelas, mesmo que eu nunca tivesse parado para realmente olhá-las até aquele momento. Sempre estavam ali e eu não via um motivo exato para apreciar algo que nunca sentia falta.
O som que só um osso se quebrando fazia foi o que me trouxe de volta a realidade, bem a tempo de mover os meus pés para trás e desviar de um cara que caiu no chão, sendo coberto por outro logo em seguida. Eu adorava uma boa briga, o cheiro de sangue deixava-me chapado de um jeito gostoso, mas no momento em que senti à mão pesada do meu soldado no meu braço, soube que teria que voltar para casa. A minha liberdade era contada, cronometrada e regulada de um jeito que eu não sabia mais se deveria ser.
A garrafinha de água fria veio parar nas minhas mãos no segundo em que me sentei nos bancos de trás da SUV escura e fechando os olhos, tentei cochilar pelo caminho, sem sucesso. O bagunçado e agitado sono dos bêbados — que eu fingia embalar-me- era um pouco mais difícil com tantos buracos para passar por cima nas ruas da cidade.
Minha mãe estava sentada na sala quando entrei, e enquanto ela não levantava os olhos para mim, passei a mão sobre a testa para tirar o suor da testa mesmo sabendo que não iria adiantar muito. E como eu disse, no momento em que pôs os olhos sobre mim, ela levantou-se e veio na minha direção, como em todas as noites que eu ficava um pouco fora de casa.
Eu odiava ser a decepção da sua vida quando tinha que competir com uma irmã morta, que seria sempre perfeita mesmo que não tenha sobrevivido a meia hora fora do útero. Não era uma briga muito justa para mim e quando minha mãe me cheirou, puxou os meus olhos para ver se estavam dilatados e bateu de leve sobre o meu peito, me dando meio sorriso, eu respirei um pouco mais aliviado e a puxei para um abraço meio sem jeito.
Ela odiava suor, eu sabia, mas não reclamou.
- Não precise se preocupar... Juro que estou limpo. — Prometi, baixinho no seu ouvido e mirei os olhos no topo da escada onde o meu progenitor nos olhava, a expressão fechada se sempre. A decepção vibrando entre nós todas as vezes que botava os seus olhos sobre mim.
Eu conseguia ser o seu reflexo. Todas as manhãs, quando me olhava no espelho e via meu pai em mim, me perguntava se fazia mesmo sentido estar sóbrio, sendo que o ** branco que me trazia tanta felicidade era dominado pela minha família e sempre estava a minha disposição.
Ficar chapado era gostoso no começo. Me fazia flutuar. Foi só quando passou de diversão para necessidade que foi a hora de dar um basta, até porque não foi muito legal pegar minha mãe chorando sobre mim, após uma overdose.
Eu era seu único filho e não daria a ela o desgosto de me enterrar. E além disso, eu era o futuro dono dessa p***a toda e eu não deixaria que nenhum outro verme tomasse aquilo que era meu.
Minha mãe passou a mão sobre meu rosto, levou meus cabelos grudados na testa para trás e sorriu leve, os olhos marejados que me doíam o peito.
— Eu acredito em você, Dante. Confio em você. — tocou minha testa na sua de maneira rápida, se afastando em seguida e me largando. — Seu pai está te esperando. — Ela se virou brevemente, como se fosse apontar para algum lugar, mas o enxergou lá em cima nos olhando. Ele se virou e saiu, indo pelo corredor que levava ao seu escritório.- Quer falar com você, vá logo antes que ele comece com o mau humor de sempre.
Confirmei com um movimento de cabeça, me sentindo um pouco tenso enquanto subia as escadas de dois em dois degraus. Dei duas batidas leves antes de entrar — ele me xingaria se não o fizesse-, e empurrei a porta, o encontrando sentado na cadeira, um vidro branco em suas mãos.
Como o caralh0 do viciado de merd4 que eu era, salivei porque sabia exatamente o que era e sabia que cada célula do meu corpo começava a se agitar por isso.
Arranjando controle de onde eu não tinha, eu caminhei até a cadeira a frente e me sentei, mantendo os olhos nos seus para não fraquejar a sua frente. Eu sabia bem o peso da sua mão: descobri no dia que fui iniciado como homem para a Família e uma segunda vez logo após sair do hospital. Um incentivo para me manter na linha, ele disse. Um castigo por fazer minha mãe chorar.
— Achei que fosse chegar mais cedo. Sua mãe te esperou para o jantar. - Seu tom era neutro, mas eu vi ali a advertência. Baixei os ombros, respirando devagar enquanto minha pele parecia pegar fogo e inconscientemente me peguei pensando em maneiras de invadir o escritório pela madrugada.
Eu odiava ser assim, tão sem controle e dependente. Tão fraco. Odiava ter experimentado aquela primeira vez por mais que tenha me dado a sensação deliciosa de estar vivo. Se fechar os olhos ainda consigo me lembrar de como é.
— Eu mandei mensagens, mas não tenho certeza se viram a tempo. Fui nessa boate que inaugurou. Bebi uma água com gás e apenas isso.
— Eu acredito em você. - As mesmas palavras de minha mãe. Comecei a sentir uma leve confiança tomar meu corpo e consegui curvar os lábios em um quase sorriso — se é que eu poderia fazer isso perto do meu pai. - Só não acredito no seu autocontrole, Dante. E eu te quero de volta nos negócios, mas preciso saber se você está cem por cento nisso, se está recuperado.
Eu fui afastado logo após ser pego roubando de uma das cargas quando já sabiam do meu problema, mas me deixavam trabalhar com a papelada. Se esqueceram de trancar os caminhões e uma tranca simples não era um problema para alguém como eu. Agora, eu precisava desesperadamente preencher a cabeça com alguma coisa que não fosse apenas meus pensamentos.
Mas ser testado... Eu não sei se tinha muita força. Precisava estar preparado.
— E quando podemos fazer isso? — Usei uma autoconfiança que eu não tinha, tentando me mostrar pró ativo para que meu pai pudesse ter esperanças em mim. Eu iria voltar aos eixos, tinha certeza que sim.
A sombra em seu rosto, no entanto, dizia o contrário para mim. Os olhos escuros não pareciam ter tanta certeza e quando ele desenroscou a tampa do pequeno vidro, estendeu-o e despejou em grande quantidade a minha frente, comecei a sentir as mãos suadas. Me agarrei forte a cadeira.
Com um cartão, o maldito ajeitou em uma fileira fina para mim, perfeita. E pronta para ser usada.
O desafio estava em seus olhos quando o encarei. Aquilo era água e eu estava a tanto tempo no deserto...
Meu pai cruzou os braços em frente ao peito enquanto se encostava em sua cadeira, e esperou, paciente pela minha queda que não tardou.
Meus batimentos estavam nos meus ouvidos quando a febre veio, a ansiedade desenfreada, o correr rápido do meu sangue nas artérias.
Minha boca estava seca quando olhei para meu pai e superior a frente, e ignorando a decepção que eu sabia que iria se formar em seus olhos, fui afoito para o paraíso. Tampando um lado do nariz, cheirei a linha completa com ânsia e senti a calmaria me tomar quando joguei a cabeça para trás.
A euforia veio rápida. E em seguida, o poder. Eu me sentia no céu. Me sentia um rei, maior que meu pai jamais seria. E ele não demorou a aparecer no meu campo de visão, parecendo gigante, mas eu não tinha medo de mais nada.
Sorri em sua direção antes de sentir o primeiro soco bater forte no meu maxilar. E ri alto, feito um louco antes dele me jogar no chão e me bater para caralh0.
Não me importava. Eu estava saciado. E pelos céus, eu amava ficar chapado.
*
Me encarei no espelho do pequeno banheiro sem parar. O olho roxo e inchado estava dolorido, assim como as costelas onde as marcas da sola do sapato de meu pai estavam marcadas como um lembrete do meu erro.
Eu estava magro para um caralh0. Minha clavícula era evidente, assim como meu maxilar que apesar de desenhado, parecia fundo. Minhas costelas marcavam minha pele e eu estava satisfeito de ao menos não ter quebrado nada.
Era um começo. Eu só precisava de mais um pouco e então, eu nunca mais usaria na minha vida. Seria a última vez.
Desci as escadas com os cabelos molhados. Passavam das duas da tarde e pelo silêncio, a casa estava vazia. Eu teria sorte de não encontrar ninguém ao sair, mas precisava encontrar primeiro algum dinheiro. A senha do cofre era constantemente trocada, mas ainda era uma opção e eu fui até ele, escondido num dos fundos da casa.
No momento em que abri a porta, meu pai estava lá, sentado e os seus olhos vieram até mim, nenhum pouco surpresos.
Eu abri a boca, indignado e ri.
— Você não tem nenhuma fé em mim! — Berrei irritado, puto por ter sido pego. Bravo pela minha estupidez.
— E eu tenho que acreditar em uma pessoa que está vindo aqui para tentar me roubar e ir se dr0gar? O próximo passo é o que en? — Irritado, ele se levantou da cadeira com um impulso e veio até mim, me pegando pela nuca com uma das mãos e me puxando em sua direção. Eu não tinha muita força e quando senti, já estava batendo o rosto contra seu ombro. — Vai se enfiar uma agulha com h*****a? Vai morrer sozinho sufocado com o próprio vômito? c*****o! Eu não vou enterrar meu filho, Dante. Eu não vou perder você, entendeu? - Puxou meu rosto e se abaixando, bateu sua testa na minha de leve.
Eu nunca havia visto meu pai chorar, mas seus olhos estavam vermelhos. Me senti um pouco sufocado.
— Eu vou parar. Não vou usar de novo, eu te prometo pai.
Sua mão me deu dois tapas fortes e ele piscou, afastando qualquer sentimentalismo de sua expressão de uma vez, como se nunca nem estivessem ali. Ele era inabalável.
— Você não vai mesmo. Te quero na fazenda com Luigi por um tempo. Vão te vigiar de perto e te dar um pouco de trabalho pesado para te por nos eixos, garoto.
Quis rir, mas ele estava sério. Aquilo deveria ser uma maldita brincadeira de m*l gosto.
Dei um passo para trás, rindo nervoso enquanto passava uma das mãos nos fios de cabelo, os penteando para trás.
A irritação que eu sentia agora não era só pela falta que a cocaína me trazia. Não. Eu não queria ir para aquele lugar.
— Vai me mandar para aquele fim de mundo? Vai me abandonar quando eu mais preciso de você, Fabrizio?
Ele nem se moveu.
— Não sou sua mãe para cair nessa baboseira de culpa, Dante. Nem gaste saliva. — Seus olhos já estavam no seu celular, focados em alguma coisa que deveria ser mais importante que eu, seu filho. — Vá arrumar as suas . Aquele seria meu inferno.