II. Até no Lixão, Nasce Flor

1916 Words
— Os caras ‘tavam falando de uma operação. — Ângelo disse. Ao fim do expediente, ele levou Dara a um bar, ainda na avenida principal, onde fica a DP. Era um pequeno bar de esquina. A extensa encruzilhada cortava a avenida e um valão passava exatamente no centro da rua. Além do bar, o único lugar aberto era um motel, que funcionava o dia inteiro diariamente. A placa Caravellas, defeituosa, piscava inconstantemente. — Aonde!? — Dara perguntou, servindo-se. — Batan. Nem tão perto, nem tão longe. Tinham um conchavo forte, nem sei qual é a da treta. Alguma competição por poder esquisita. — Ângelo deu de ombros. Realmente estava habituado. Um desentendimento iniciava uma operação, visando derramar sangue para avisar que os cabeças não gostavam de ficar sem dinheiro. — Levam novatos!? — Dara riu, tomando o primeiro gole. — Levam qualquer um. Quando o negócio é mais sério entra GAT, BOPE, CORE, a putä que pariu de gente… aí fodëu. — Ângelo gargalhou. — Todo mundo apavora… mas, só viram a Civil, ‘tá tranquilo… é realmente disputa de poder. — ‘Cê é entendidinho demais dessas porräs, não acha, não!? — A moça olha o parceiro de canto de olho, muito desconfiada. — Apesar de só três anos de corporação, cresci acostumado. Meu pai era PM. Éramos nós dois, então… nunca omitiu os rolos. — Se botassem no cu dele, sobrava ‘pra tu. — Pois é… Mudando o assunto de trabalho. — Ângelo sorriu de canto de boca, medindo a colega de cima a baixo. — Casada!? Dara riu do pouco esforço do colega para disfarçar. — Não… mas, sua esposa não briga, não!? — Ela disse, em negativa, olhando na direção da aliança do colega. — Não, se não souber. — O sorriso ladino aumentou. — Claro… — Suspirou, rindo. — Nunca consegui namorar, noivar… sempre fui focada, então, as vontades do corpo ficam ‘pra quando dá vontade — disse, com olhar um pouco distante. A moça parou para pensar e realmente concluiu serem poucos os homens com quem ficou. Sempre pareceu perda de tempo. Apenas perdeu a virgindade porque numa festa com bebida, teve a animação e a coceirinha necessárias para tal. Nem sequer lembra do rosto ou do nome… só aconteceu! “Perfeitinha e apertadinha!”, Ângelo sorriu, mordiscando o lábio em negativa, “Putä que pariu!”, pensou, safado. — Quase posso ouvir seus pensamentos! — Desculpa. Foi inevitável! — O parceiro arfou. — Imagino que nem tenha filhos, ou irmãos, sei lá… — Tentou mudar o assunto para controlar o volume entre as pernas. — Agora, sou só. Tenho alguns colegas, alguém relevante ‘pra mim, religiosamente, mas não acredito que ninguém choraria, caso eu morresse de hoje ‘pra amanhã! E você? Além da esposa, claro. — Tenho meu velho, minha velha… um menino de cinco anos… dois irmãos… uma irmã… — Porrä, a família é grande! — A moça riu. — Bastante. O círculo de amigos é tão grande quanto, nem vale a pena mencionar… ‘Cê não parece do tipo antissocial. — Não sou. Gosto de conversar e socializar… mas, pensando que me tornaria PM, nenhum morador de favela continuaria só convivendo comigo… seria impossível criar vínculos! — Porrä, isso que é vontade de ser cana… putä que pariu! Ambos gargalharam. Era impossível para Ângelo entender como alguém abdicaria do mundo e seus prazeres por qualquer motivo. — O bar costuma receber gente da corporação. Fica ligada com o dono, é reformado, chefia umas tretas. — Ângelo aconselhou, aproveitando-se que não há ninguém. — Se não comentar com ele, dificilmente ele comentará com você! — Até alguém pensar que sou PM, o rostinho bonito já atirou! — Ela sorriu de canto de boca, realmente funcionaria. — Caralhö! — Arfou, coçando a cabeça. — Quase morri. Beberam duas cervejas e racharam a conta no final. Após despedirem-se, Dara foi à DP tomar seu carro e dirigiu para casa, sem enfrentar nenhum problema durante a viagem. Morava numa casa de um único andar, relativamente grande para uma única pessoa, porém, a menor que encontrou na época. Após trancar a porta, Dara tirou sua farda e jogou a mochila no sofá. Levou a farda ao varal suspenso da área de serviço, entre a cozinha e a garagem fechada, para estendê-la. Pegou um noodles no armário, colocou água e levou ao micro-ondas para tomar seu banho e ter algo para comer ao sair da água. Nessa casa, Dara não usufruía do conforto de uma banheira, mas o banho após o serviço ainda era igualmente relaxante. Deixando o banho, o macarrão instantâneo já estava pronto. Ela tomou seu jantar e seguiu ao quarto, sentando-se virada para uma parede, onde as poucas informações sobre o sumiço de Yuri estão penduradas, acumuladas junto a algumas fotos. *** — Preciso sair. Se a primeira-dama for ‘pro baile, guarda ela. — Tito pediu para Yuri, enquanto ambos observavam os cinco corpos queimando numa extensa fogueira. — Se ela perguntar do cuzäo, qual é a resposta? — questionou, incapaz de tirar o largo sorriso do rosto. — Fala qualquer merdä. — De boa. Posso deixar na responsa do Naval? Assumo na boca. Sempre fora muito tortuoso lidar com Dalila, esposa de Tito. Ela sempre se oferecia e ai de quem ousasse negar! Não que fosse fácil negar a branquinha, cheia de fogo, que ela era. Todo mundo já conhecia seu sabor, mas ninguém que se viu refém da loira de olhos claros e cintura fina, se atreveu a falar uma palavra sequer sobre o que fez ou não fez. Tito sabia dos pulos, mas também dava os próprios. Se nenhum dos dois escandalizasse, todo mundo gozava no final. Houve uma única vez que pegou Dalila e um soldado na sala de estar, agarrados no sofá. Chegou cedo em casa nesse dia. A casa recebeu uma pintura nova para compensar a sujeira que ele fez, mas Tito nem sequer tocou na mulher. Odeia ver e não quer descobrir, mas, enquanto acontece na maciota, é apenas mais um dia de poder. O chefe gargalhou vendo o desconforto de Yuri. — Qual foi, Tito!? — Yuri riu, abaixando a cabeça, acanhado. — Se for ‘pra botar a cara é melhor ser o Naval. Pela primeira vez, negado! Se aceitasse assumir a gerência, até pensaria no seu caso, mas ‘cê nem gosta de pensar, né!? Yuri suspirou, em negativa. A ostentação e o poder eram tentadores, mas só queria sobreviver. Vendo tudo que todo gerente sempre fazia, o tipo que todo gerente sempre se tornava, de longe, não era o que queria para si. — Já chego na tua casa… ela ‘tá lá? — Rendeu-se. — Sim, saiu ‘pra visitar uns parentes, mas já voltou. — Tito deu uns tapinhas no ombro de Yuri. — Valeu pela consideração! — O chefe virou e o deixou só. De alma lavada, Yuri ainda observou o matagal por um tempo. Alimentou o fogo com gasolina e seguiu para seu barraco. Nada muito luxuoso, afinal, raramente usava. Trabalhava com o Tribunal e era muito cotado por Tito para sua segurança, logo, quando não estava na casa do chefe, com certeza, estava trabalhando… ou ambos. Yuri se banhou, pôs fogo na roupa ensanguentada e vestiu algo mais arrumado — pensando, ou rezando, que Dalila preferiria ir ao baile a ficar em casa. Enquanto se arrumava, ouviu um bate-boca fora de casa. Pegou a pistola e frestou a porta para observar. O vizinho de baixo, cinquentão m*l-humorado, discutia com a vizinha da frente, segurando o filho de oito anos da mulher. — Qual foi!? — Yuri perguntou, abrindo a porta. — O filho da putä me roubou! Era só o que faltava… ladrão nessa merdä! — O homem disse, transtornado. — Larga meu filho! — A mulher gritou. O menino apenas reclamava da dor, afinal, o homem o agitava bastante. Bem magro, seu corpo apenas se movia sem parar. — Larga! — Yuri mandou, saindo de casa. — Se correr, eu atiro! — ameaçou, olhando para o garoto. O homem largou. — Roubou ele? — Yuri perguntou. — Minha mãe ‘tá com fome! — O garoto chorou. — Perdeu o emprego… não come há quatro dias… só queria comida ‘pra ela! — Quanto ‘cê roubou? — Vinte reais. — Abaixou a cabeça, envergonhado. — ‘Tá sem comer!? — Yuri perguntou à mulher. Ela é jovem, deve ter trinta. É parda e tem cabelos que já foram lisos, mas estão maltratados. A pobreza deixa o cansaço muito mais evidente através das olheiras e traços de expressão mais velhos. — Não mata meu filho. — A mulher implorou por entre soluços, aproximando-se de Yuri. — Fala baixo. Os três! Verdade ou não, porrä!? Ela parou de andar e assentiu com a cabeça. Yuri mexeu nos bolsos, tirou uma nota e estendeu ao homem. — Toma essa porrä — disse. — Fica quieto, senão, bum! — Ameaçou, fingindo um tiro na cabeça, gesticulando com o dedo. O homem estremeceu, pegou a nota, extremamente receoso. — Ele só pegou vinte… — disse ao ver a nota de cinquenta. — Fodä-se. Rala! — Impaciente, voltou a olhar mãe e filho. — ‘Cês vem comigo… — disse, virando para ir à casa de Tito. — Não faz nada com meu filho. A mulher voltou a pedir, com o tom de voz mais baixo, porém, ainda muito nervosa. — Se fosse ‘pra atirar, ‘cê já ‘tava chorando sobre o corpo. — Yuri olhou sobre os ombros. — Há quanto tempo não come? Se mentir, talvez eu mude de ideia e atire. — Uma semana. — Confessa por entre soluços. Yuri apenas assentiu com a cabeça e seguiu. — Vou te dar uma cesta básica — disse, ao chegar, parando à porta. — Se souber que roubou de novo, ‘cê vai tomar muita porräda, entendeu!? — Olhou o menino. O menino assentiu, abaixando a cabeça. Yuri entrou e foi a um dos quartos, que tem sempre muitas cestas, confeccionadas para distribuição na favela. Geralmente, são entregues no primeiro dia do mês, mas era a segunda semana. Ele desceu com o amarrado de alimentos e bolsas plásticas. Abriu o grande amarrado e entregou as bolsas na mão do garoto. — Enquanto leva ‘pra sua casa, vou comprar gás com sua mãe. — O-obrigado — O menino disse, assustado, porém aliviado. — Se precisar, sei que moram logo embaixo… bate na minha porta, vem aqui e eu prometo que ajudo! A gente nunca negou. — Desculpa, tio! O menino tirou a nota do bolso e entregou para Yuri. Ele a tomou e seguiu, com a moça vindo atrás, quieta. No caminho, viu as caixas de som e a iluminação terminando de serem esquematizadas para darem palco ao baile. Yuri comprou o botijão e carregou até a casa da mulher. — Onde ‘tá o pai? — perguntou enquanto ela abria a porta. — Nunca mais vi. Obrigada. O jovem assentiu, tomou o botijão e entrou na casa, sem muita cerimônia. Foi à cozinha para instalar o gás novo. O botijão antigo estava realmente vazio, as bocas nem sequer emitiam quaisquer odores. — Se tiver problemas com o garoto, fala. — Yuri beijou a testa da mulher. — Tenha fé… é só uma fase r**m… passa… Ouviu os soluços da mulher, porém, antes de receber resposta, simplesmente saiu para terminar de se arrumar e voltar ao trabalho.
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