Capítulo 11 – Ecos de Luz e Ruína

670 Words
A madrugada caiu com um silêncio anormal sobre o Colégio Lunaris. O vento, antes brincalhão, agora sussurrava presságios. As árvores inclinavam-se em direção ao prédio, como se quisessem ouvir os segredos que estavam sendo desenterrados lá dentro. Nos corredores, os reflexos de Liora e Saphira caminhavam entre os alunos como espectros vivos, semeando dúvidas e rompendo laços com uma simples troca de palavras. Eles sabiam exatamente o que dizer, quais feridas tocar. Afinal, nasceram das próprias irmãs — conheciam suas dores, desejos, falhas e segredos. — Na sala da Rosa de Obsidiana, Selene mantinha um mapa astral antigo aberto. Ele vibrava em tons escuros, como se fosse feito de poeira estelar corrompida. — Os reflexos tomaram forma completa. — disse ela a Zephyr. — E agora eles não apenas existem... eles têm vontade própria. Zephyr, com as mãos marcadas por runas recentes, soltou um suspiro grave. — E o Véu... não está mais entre mundos. Ele está aqui. Ele estendeu o braço, e onde antes havia pele, agora via-se a superfície levemente cristalizada — como se seu corpo estivesse sendo lentamente transformado em espelho. — Enquanto isso, Saphira e Liora tentavam entender como se proteger do inimigo mais difícil que já enfrentaram: elas mesmas. — Eu senti minha cópia me observando quando abracei a Charlotte. — confessou Saphira. — Como se ela esperasse... eu errar. — E eu... me vi questionando tudo que acredito. — murmurou Liora. — Como se ela me puxasse para dentro de mim mesma. Não com ódio. Com... resignação. Ambas sabiam que lutar contra os reflexos não exigia força física, nem feitiços. Exigia verdade. Exigia encarar o que escondiam até de si mesmas. — Ao mesmo tempo, no Salão dos Espelhos — uma sala outrora vedada, localizada no subterrâneo do colégio — as cópias se encontraram com a entidade que as alimentava: O Reflexo das Sombras. Ele tinha forma líquida e sólida ao mesmo tempo. Como um corpo feito de espelho quebrado e fumaça. Sua voz era um coro de versões alternativas, todas recitando as mesmas palavras: — Eles esqueceram que cada escolha gera um universo. E agora... todos os universos vêm cobrar. — No colégio, os primeiros sintomas começaram. Alguns alunos passaram a perder a memória de si mesmos. Esqueciam quem eram. Esqueciam os próprios nomes. Atravessavam os corredores como ecos vivos, murmurando frases desconexas como: — Eu fui. Mas nunca serei de novo... — Saphira e Liora sabiam que havia apenas uma saída: voltar ao Véu. Mas não por onde entraram. — Há um espelho no alto da Torre do Relógio. — lembrou Liora. — O único feito com prata lunar verdadeira. Ele nunca quebrou. Nunca refletiu ninguém. Só... o que poderia ter sido. Selene, ao ouvir isso, concordou. — É lá que a batalha começa. E é lá que... talvez, uma de vocês fique. — Na subida para a torre, os corredores começaram a se distorcer. Cada degrau parecia levá-las a versões alternativas de suas histórias. Num momento, Saphira viu a si mesma com cabelos brancos, sozinha em um mundo de gelo. No outro, Liora se viu como rainha de um mundo onde todos viviam sob um céu escuro e controlavam sombras com as mãos. — Não são visões. São possibilidades. — disse Selene. — E elas querem distraí-las. Ao alcançar o topo, o espelho prateado aguardava. Era imenso, oval, suspenso por correntes encantadas. Sua superfície era lisa como a água, mas não refletia luz alguma. Nele, apenas as verdades ocultas podiam ser vistas. E, naquele instante, os reflexos verdadeiros apareceram. Lado a lado. As cópias de Saphira e Liora. Mesmas feições. Olhares diferentes. — Viemos completar o que começou. — disse o reflexo de Liora. — Libertar vocês... do peso de serem quem são. — O mundo não precisa de esperança. Precisa de ordem. — completou a cópia de Saphira. E assim, o espelho se acendeu. — As quatro foram puxadas para dentro dele. O colégio inteiro estremeceu. E, por um segundo, ninguém soube mais quem estava dentro e quem estava fora.
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