Tudo ao redor era silêncio líquido.
Saphira e Liora não estavam mais no colégio. Nem no mundo real. Tampouco no Véu. Estavam… entre. Um lugar que não era feito de espaço ou tempo, mas de escolhas. De versões. De tudo aquilo que poderia ter sido — e ainda pode ser, se alguém ousar desejar o suficiente.
O espelho prateado da Torre do Relógio agora estava diante delas, como uma porta aberta, uma passagem viva. Elas tinham sido tragadas por ele — junto com suas cópias.
Mas não havia chão, nem céu. Apenas flutuação. Apenas sensações. Uma névoa prateada envolvia cada pensamento, tornando-os visíveis e vivos.
—
As cópias se separaram delas como sombras desprendidas. Cada uma agora caminhava por uma ponte formada por memórias distorcidas.
A cópia de Liora parou diante de um momento do passado: sua mãe partindo. Mas, nesta versão, ela não chorava. Ela sorria. E Liora, ao ver aquilo, sentiu o chão de suas convicções estremecer.
— Se eu tivesse escolhido esquecer… teria sido mais fácil. — disse sua cópia.
Liora não respondeu. Apenas observou.
—
Saphira foi confrontada com a imagem de si mesma no palco, sendo ovacionada por multidões — mas sozinha. Sem Liora. Sem Charlotte. Sem a si mesma.
— Fama não preenche silêncio. — sussurrou sua cópia, com os olhos molhados. — Você persegue sonhos, mas foge de quem é.
E, pela primeira vez, Saphira viu sua cópia não como inimiga.
Mas como um reflexo legítimo.
—
De repente, as vozes da névoa começaram a se multiplicar.
“Cada versão quer existir.”
“Cada escolha custa um universo.”
“O espelho não cria... ele revela.”
—
Selene, do lado de fora, no colégio, havia se conectado ao espelho com um feitiço ancestral. O ritual custava sua energia vital — mas ela sabia que era a única ponte.
— Se as meninas não enfrentarem a si mesmas agora… o Véu se fundirá para sempre com o real. — disse, com os olhos brilhando em prata.
—
Dentro do espelho, uma nova figura emergiu.
Não uma cópia.
Não uma guardiã.
Mas a personificação do Reflexo das Sombras. Um ser feito de versões sobrepostas, com olhos que continham bilhões de finais. Ele flutuava diante das meninas e de suas cópias, como o árbitro final.
— Este é o ponto de ruptura. — disse a criatura, com voz de ecos.
— Se desejam sair... escolham.
E então, ele fez a pergunta:
— Qual versão de vocês merece continuar?
O coração de Liora parou por um segundo. Como decidir isso? Como escolher entre si mesma… e si mesma?
Saphira apertou sua mão. E, pela primeira vez desde que tudo começou, disse:
— Nenhuma versão é perfeita. Mas a nossa… aprendeu a amar, a perder, a cair, a levantar. Não porque foi fácil. Mas porque escolheu seguir mesmo assim.
Liora assentiu, os olhos marejados.
— Não viemos para ser perfeitas. Viemos para existir com imperfeição e coragem.
—
As cópias hesitaram.
E, naquele momento de vulnerabilidade, a névoa começou a se desfazer.
O espelho pulsou uma última vez.
E fez sua escolha.
—
As cópias se desmancharam em poeira prateada. Sem dor. Sem rancor. Apenas… compreensão. Como se soubessem que não eram inimigas, mas partes que precisavam ser vistas para que as verdadeiras Saphira e Liora se tornassem inteiras.
A entidade desapareceu com elas.
E a passagem se fechou.
—
De volta à torre, Saphira e Liora caíram de joelhos. Selene os esperava, exausta, mas viva.
Zephyr correu até elas, envolvendo-as num campo de proteção.
E, por um segundo, o mundo pareceu inteiro de novo.
—
Mas antes que pudessem descer da torre, Liora sentiu algo no bolso de seu casaco.
Era um fragmento do espelho.
Negro. Intenso. E ainda… vivo.
Ela olhou para Saphira.
— A história ainda não acabou, não é?
Saphira sorriu, cansada.
— Ainda estamos no meio do livro.