O colégio, antes um refúgio entre mundos, agora tremia com uma energia diferente. Os espelhos que adornavam os corredores começaram a rachar silenciosamente, como se sentissem o impacto da travessia de Liora e Saphira pelo Véu. As linhas do real e do ilusório se diluíam, e cada reflexo parecia guardar um segredo prestes a ser revelado.
Na enfermaria, Zephyr observava as irmãs desacordadas. Seus corpos estavam envoltos por um fio tênue de energia — azul para Liora, n***a com reflexos dourados para Saphira. Selene estava ao lado, olhos fixos nos rostos jovens, mas agora marcados pelo poder antigo que haviam despertado.
— Elas não são mais as mesmas. — murmurou Selene.
— Ninguém que atravessa o Núcleo do Véu volta sendo. — respondeu Zephyr. — Mas algo me diz que... elas nem chegaram até o fim. O Véu só mostrou o que quis mostrar.
Selene franziu o cenho. — Um aviso?
— Ou uma escolha.
—
No plano espiritual, dentro de um espelho antigo que sobrevivia no saguão principal, o Reflexo das Sombras começou a se mover.
Ele era um ser que nascia da soma de todas as escolhas não feitas. Um espectro do que Liora e Saphira poderiam ter sido, mas recusaram se tornar. Alimentava-se de dúvidas, de ressentimentos, de palavras não ditas e de verdades não enfrentadas.
E agora ele despertava.
—
Na noite seguinte, as irmãs acordaram.
Saphira abriu os olhos primeiro. Sentiu o coração desacelerado, como se estivesse sendo controlado por algo além dela. Liora acordou logo em seguida, com os olhos ardendo — ela agora enxergava a aura de cada ser, como se a verdade estivesse estampada em cada pessoa.
— Você sente? — perguntou Saphira.
— Tudo. — respondeu Liora. — Como se o mundo inteiro estivesse cantando... e chorando... ao mesmo tempo.
Selene entrou na sala. Trazia consigo um grimório antigo.
— As runas do Véu começaram a aparecer em toda a cidade. Não só aqui no colégio. Há inscrições no asfalto, nas janelas, nas sombras... e até em sonhos de gente comum.
— Isso significa que o Véu está vazando? — perguntou Liora.
— Significa que alguém do outro lado está forçando a ruptura. — respondeu Selene, sombria. — E precisamos saber quem.
—
Enquanto isso, Stark, o bibliotecário e Guardião da Primeira Porta, foi visto pela última vez entrando na Torre do Relógio. Desde então, só o som de engrenagens distorcidas ecoava de dentro dela.
No meio da madrugada, Liora ouviu sua própria voz vindo de dentro do espelho de seu quarto. Ela se aproximou e viu algo impossível: uma versão dela mesma... mais velha, cansada, e de olhos vazios, como no labirinto.
— Ainda dá tempo. — sussurrou a versão sombria. — Mas só se você escolher sua irmã ou o mundo. Nunca os dois.
Liora tocou o espelho. O vidro estava quente. Atrás dela, Saphira surgiu, sentindo a mesma inquietação.
— Eles estão nos testando. — disse Saphira. — Ou... tentando nos separar.
— Talvez as duas coisas.
—
Na manhã seguinte, as runas começaram a queimar nos corpos dos estudantes do colégio. Não causavam dor física — mas faziam com que cada um revivesse o momento mais sombrio de sua vida. Choros ecoavam pelos corredores. Gritos abafados por medos antigos.
Thorne reapareceu... com os olhos cinzentos.
— Eu os vi. Vi o outro lado. Vi o que vocês trouxeram com vocês. — disse, apontando para as irmãs.
— O quê? — perguntou Saphira, alarmada.
— O Reflexo. Ele ganhou forma. Ele existe agora. E está se alimentando... de tudo o que vocês tentam esconder.
—
Enquanto isso, Selene reuniu os professores mais antigos e revelou o que temia há semanas:
— O Véu não está apenas se rasgando. Ele está sendo reescrito. E alguém... está escrevendo uma nova história com base nas sombras de todos nós.
—
Ao cair da noite, o reflexo de Liora se libertou.
Mas não estava sozinha.
Atrás dela, o reflexo de Saphira... com um sorriso c***l.
Eram os dois lados ocultos das irmãs.
E agora, livres, caminhavam pelo colégio como cópias perfeitas.
Só havia um problema.
Ninguém mais podia distinguir quem era quem.
—
E o Véu apenas começava a mostrar suas cartas.