Claire só acordou ao meio-dia, a cabeça ainda pesada pelo fuso horário. Sentada de pernas cruzadas no carpete, encarava o vazio quando o telefone vibrou. "Elena Thompson" brilhava na tela. Ela hesitou um instante antes de atender.
A voz de Elena soava exageradamente alegre. "Claire, querida! Como é estar de volta ao lar?"
Claire recostou-se levemente. "Até agora, tudo tranquilo."
"Que bom ouvir isso!" Elena deu uma risada curta, mudando rapidamente o tom. "O Nelson já passou aí? Vocês se viram, não é?"
Claire baixou os olhos. "Vi."
"Maravilha! Vocês são um casal, afinal de contas. Três anos é muito tempo. Mais do que hora de se reaproximarem. O Nelson só tem estado terrivelmente ocupado, só isso."
"Eu voltei para oficializar o divórcio," Claire declarou, sem rodeios. "É a única razão pela qual estou aqui."
Silêncio. Então, a voz surpresa de Elena: "Claire… tem certeza?"
"Total. Não era esse o motivo da sua ligação?"
Elena titubeou, desconcertada pela frontalidade. Antes que se recuperasse, Claire falou de novo, o tom frio e final: "Se era só isso, vou desligar."
"Espera!" Elena interceptou rápido. "Já que está de volta, precisa comparecer ao jantar de aniversário da Serena hoje à noite."
Claire ergueu uma sobrancelha, em silêncio.
Elena prosseguiu: "Claire, você ainda é a Sra. Cooper, e a irmã mais velha da Serena. Todos os convidados desta noite são pessoas importantes. Se você faltar, que imagem isso passa da nossa família?"
Ela fez uma pausa, e a voz ganhou um fio afiado por trás da polidez forçada.
"Além do mais, é uma boa oportunidade para você ver como as coisas realmente funcionam no nosso círculo."
Claire soltou uma risadinha baixa—suficiente para deixar Elena desconfortável do outro lado.
"Tem razão," disse ela, lentamente. "Realmente, nunca nasci para ser o centro das atenções. Só uma filha adotiva que quase morreu lá fora. Não dá para comparar com a legítima herdeira dos Thompson, não é?"
Elena engasgou com as próprias palavras.
"Mas já que me convida com tanta 'sinceridade', estarei lá pontualmente."
Antes que Elena pudesse acrescentar qualquer coisa, Claire terminou a chamada.
A tela escureceu em sua mão. Ela olhou pela janela, segurando o telefone com despreocupação.
Algum tempo depois, algumas buzinadas curtas ecoaram do portão.
Claire conferiu o relógio de parede.
16:55 — cinco minutos antes do combinado por Nelson no dia anterior.
Ela não se moveu.
O telefone vibrou novamente. Claire atendeu com indolência.
"Desce", ordenou a voz de Nelson.
"Tô indo," ela respondeu, mas não se apressou.
Em vez disso, foi até o closet e parou diante do espelho de corpo inteiro.
Camiseta branca de algodão. Jeans desbotados. Tênis de lona gastos.
Cabelo preso, rosto limpo, leves olheiras por causa do sono r**m.
Perfeito. Exatamente a imagem que ela desejava projetar.
O telefone tocou de novo — era Nelson.
Sem pressa, Claire saiu do quarto, atravessou a sala e abriu a porta da frente.
Um Cooper preto aguardava na entrada.
Nelson estava apoiado na porta do motorista, celular na mão, os olhos fixos na tela.
Ao ouvir a porta abrir, ele ergueu o olhar.
Claire fingiu não notar o lampejo de irritação em seus olhos.
Até esboçou um leve sorriso de desculpas. "Perdão, me distraí procurando uma coisa."
Nelson não respondeu. Apenas abriu a porta do carro e voltou ao banco do motorista.
Claire caminhou até a porta traseira e estendeu a mão para a maçaneta. Quando estava prestes a entrar, a voz clara de Nelson veio da frente: "Sente na frente."
Ela congelou por uma fração de segundo, então respondeu com calma: "O espaço é maior atrás." Com isso, entrou e fechou a porta.
Nelson franziu a testa e a observou pelo retrovisor. Ela olhava pela janela, seu perfil sereno e distante. Suas roupas casuais pareciam completamente deslocadas.
"Você realmente pretende ir ao jantar vestida assim?" Ele finalmente falou, a voz contida e carregada de frustração.
Claire olhou para si mesma como se só então percebesse. "O que há de errado? É um evento familiar — não precisa ser tão formal, precisa?"
"Claire, não serão apenas familiares. Você ainda é minha esposa, lembra-se?"
"E daí?" ela retrucou, casual. Essa atitude desprendida e fria só aumentou a irritação de Nelson. Ele pegou uma caixa de presente do banco do passageiro e a empurrou em seus braços. "Troque de roupa," ordenou. "Não me faça repetir."
A caixa era pesada, embrulhada com perfeição impecável.
A tampa ostentava um logo elegante em dourado — Sprince. Sinônimo de alta-costura, um nome cobiçado por todas as socialites.
Claire ergueu os olhos. "Isso não era para a Serena? Parece um pouco exagerado para mim."
A expressão de Nelson escureceu. "Não é da Serena. É um modelo novo da última coleção. Ninguém o usou ainda."
"Claire, até que o divórcio seja oficial, você ainda representa os Cooper. Não quero que apareça de qualquer jeito e nos envergonhe."
Ele a avaliou de cima a baixo, o olhar duro. "Você tem vinte minutos. Vá se vestir."
Claire estudou seu perfil tenso enquanto a mesma sensação de resignação cansada a invadia novamente. Nada havia mudado em três anos. Ele nunca perguntou o que ela queria. Nunca se importou com seus gostos.
Ela havia tentado tanto conquistar sua aprovação no passado, e agora tudo aquilo parecia uma piada c***l.
O que ela pensava nunca importara para ele — nunca.
Ficou em silêncio por alguns momentos, então empurrou a porta lentamente.
"Tá bom," disse, simplesmente.
Segurando a caixa, saiu sem olhar para trás e retornou à villa.
Nelson permaneceu no carro, puxando a gola da camisa, visivelmente agitado.
A mudança de atitude de Claire o desnorteava, e ele não gostava nada daquela sensação.