Capítulo 3

969 Words
  A porta da frente abriu-se lentamente, e Claire surgiu.   O vestido descia de um branco-azulado pálido e translúcido nos ombros até um azul-profundo de lago na barra. Era belo — elegante, até — mas visivelmente m*l ajustado. A cintura estava larga demais, e o corpice ameaçava escorregar a menos que ela o segurasse com firmeza. Foi o que fez, uma mão junto ao corpo, com passos curtos e deliberados.   O olhar de Nelson deteve-se nela.   Não era o visual que ele imaginara. Mas, de algum modo, mesmo com o caimento imperfeito, o vestido parecia certo nela — afiado, frio, distante. Tão diferente da garota quieta e insegura que ele conhecia.   "Entre," disse ele, desviando os olhos. "Desta vez, no banco da frente."   Claire franziu levemente a testa. "Não é o lugar da Serena?"   A mão de Nelson apertou o volante. "A Serena não se importará. Só entre — já estamos atrasados."   Ela o encarou, o tom equilibrado. "Talvez ela não se importe. Mas eu sim."   Fez uma pausa. "Na verdade, estive pensando… talvez eu nem devesse ir. Tenho quase certeza de que ela não me quer lá. E numa reunião daquelas, uma pessoa a menos não fará falta."   Então, com serenidade, virou-se como se fosse retornar.   "Claire!" O tom de Nelson tornou-se mais agudo — a frustração, agora evidente. Ele inclinou-se e buzinou. O som estridente fez com que ela congelasse no meio do caminho.   "Tudo bem," ele murmurou, contido. "Sente atrás, se preferir."   Claire soltou um suspiro cansado, manteve as costas voltadas para ele por um instante e então virou-se com calma. Abriu a porta traseira sem dizer mais nada e entrou, um tanto desajeitada por causa do vestido solto. Ajeitou cuidadosamente a saia antes de fechar a porta.   Nelson partiu em silêncio.   Algum tempo depois, Claire quebrou o silêncio. "Nelson, como andam as coisas… com a Serena?"   O carro freou bruscamente.   Claire soltou um pequeno grito quando seu corpo foi lançado para frente, a testa atingindo o encosto do banco dianteiro.   Nelson recuperou o controle e olhou pelo retrovisor.   Ela já se recompunha, uma das mãos sobre a testa.   "Desculpe," ele disse primeiro, retomando a direção com mais suavidade. "Está bem?"   "Estou," Claire afastou a mão — a testa estava levemente avermelhada. Não olhou para ele novamente, apenas ajeitou o cinto sobre o ombro. Depois, voltou os olhos para a paisagem que desfilava pela janela.   Seguiram adiante, o silêncio reinstalando-se.   Então Claire perguntou, suavemente: "A condição dela… está controlada agora? Quer dizer — ver-me não vai desencadear nada, vai?"   "Ela está bem," Nelson respondeu após uma pausa, a voz um tanto cortante. "Não precisa se preocupar."   "Que bom," Claire murmurou.   Claro que não estava preocupada com Serena. Só precisava ter certeza.   Esta noite… poderia ser o fim de tudo.   Cerca de meia hora depois, o carro parou diante de uma mansão iluminada.   A residência dos Thompson — o lugar onde Claire vivera por vinte anos — agora parecia tão estranha quanto a casa de um estranho.   Ela soltou o cinto e saiu do carro sem hesitar.   Nelson já estava à frente, caminhando em direção ao gramado onde uma multidão se reunia. Alto, sereno, com o olhar fixo no destino — atraía os olhares sem esforço. Claire ergueu cuidadosamente as pontas do vestido azul-claro e largo e seguiu-o. Respirou fundo e tentou manter um ritmo constante. Mas, quando estava prestes a alcançá-lo, Nelson parou e voltou-se.   De frente para ela, à vista de todos, anunciou em voz clara: "Claire, vem aqui."   No mesmo instante, as conversas e risadas no gramado diminuíram sensivelmente. Cabeças viraram-se. Olhares curiosos seguiram-na. Então começaram os sussurros — baixos, cortantes, impregnados de veneno.   "Então é essa a que os Thompsons criaram por engano."   "Não disseram que a mandaram para o exterior? Por que voltou agora?"   "Nossa, olha só esse vestido… claramente não serve nela. Quem será que deu isso?"   "Roubou a vida de outra por vinte anos — depois tentou roubar o noivo também. E ainda tem coragem de aparecer?"   "O Nelson parece que foi obrigado a trazê-la. Que vexame."   Cada palavra, carregada de desprezo e satisfação maldosa, penetrava diretamente nos ouvidos de Claire.   Ela apertou a barra do vestido com um pouco mais de força, mas manteve a expressão serena.   De cabeça erguida, caminhou em direção a Nelson.   Quando estava quase ao seu lado, a música do piano de cauda branco, no centro do gramado, cessou.   Serena levantou-se do banco, vestindo um elegante vestido branco longo.   Sua maquiagem estava impecável, o cabelo longo e sedoso, e um colar de diamantes cintilava perfeitamente sob a luz.   Foi só então que ela pareceu notar Claire. Seu rosto iluminou-se com a dose exata de surpresa.   Então, caminhou graciosamente em sua direção.   "Claire?" A voz de Serena era suave, calorosa. "É você? Quando voltou? Nem nos avisou. A mamãe e o papai ficaram tão preocupados!"   Ela estendeu a mão para tomar a de Claire em um gesto amistoso.   Mas Claire deu um passo atrás, suavemente, recusando o contato, embora um sorriso gentil pairasse em seus lábios. "Voltei ontem à noite. Já falei com a tia Elena hoje de manhã — talvez ela tenha esquecido de mencionar."   Serena agiu como se não percebesse a sutil distância e continuou sorrindo, ainda mais animada, como uma criança feliz. "Que bom que você voltou! Estes anos sem você foram tão solitários. Senti tanto a sua falta!"   Antes que Claire pudesse responder, Serena envolveu-a em um abraço apertado.   Claire congelou.   A doçura enjoativa do perfume de Serena envolveu-a como uma fumaça espessa.   Para quem observava, o abraço parecia caloroso e afetuoso.   Mas seus braços estavam firmes — demasiado firmes. Claire m*l conseguia respirar.   Então, bem junto ao seu ouvido, Serena sussurrou, a voz fria e carregada de sarcasmo, apenas para ela ouvir:   "Esse vestido… não parece te servir muito bem, não é?"
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD