Lilian: parte 7

1739 Words
- Eu juro Lilian, que vou fazê-los pagar por isso. Ele notou que eu ainda estava trêmula em choque com a faca escondida na mão direita atrás de mim. - A faca.. - eu disse mostrando a ele com a mão ainda tremendo. - Conseguiu pegar? - perguntou com um olhar orgulhoso. - Sim e eu me escondi também mas ele me achou. - Ele é um filho da p**a. Vou resolver isso, e não vai ficar assim. De nenhuma maneira. Aos poucos fui me acalmando, e normalizando a respiração. - Me deixe ver seu pé. Assenti e estiquei um pouco os pés para que ele pudesse ver. - Ele me empurrou e eu cai, mas acho que não deve ter machucado. - Empurrou? Tá vendo? por mim eu bateria nele até ele precisar pedir implorar para parar. - Nicholas... - disse seu nome baixo. - Já jantou? - Ainda não, mas não quero comer nada. - Você está se recuperando agora Lilian. Tem que se alimentar para poder melhorar. - Mas eu perdi a fome. - Vou trazer um prato para você, se não sentir vontade não come. Mas por ordens médicas o ideal é se alimentar o melhor possível. E saiu indo para a cozinha, não queria comer lembrando das últimas cenas daquele homem nojento falando coisas horríveis. Mas quando ele chegou o cheiro da comida estava incrível, tão incrível que fechei os olhos sentindo o cheiro. - Vai querer? - falou estendendo o prato. - Deixa eu ver... Levantei a cabeça para ver e ele tinha preparado uma canja rápida. Peguei o prato e comecei a comer enquanto ele partia para a cozinha também. Voltou com um prato de canja para ele também, comemos em um silêncio confortável. Nicholas ainda limpou uma parte que tinha sangue do homem. E ele estava ainda muito bravo. Murmurava xingamentos baixo. Quando acordei no outro dia, me espreguicei dando uma olhada nos meus pés que pareciam ter tido uma melhora significativa. Olhei em volta da cama e vi um bilhete com letras bonitas e corridas. PARA: Lilian Quando acordar provalmente estarei conversando com o xerife sobre ontem. Como te disse, isso não ficará impune e eles não vão sair livre dessa. Vou para casa depois, voltar para o almoço, pois pelo que parece contrataram mais um médico para a região e ele estará sendo supervisionado pela enfermeira Elisabeth, tenho pena dele. Essa senhora é o cão! E não se preocupe, o almoço eu levarei. Apenas fique de repouso e nem pense em fazer caretas... Fique bem. Não sei se consegui ler tudo certo, pois não sabia ler direito, mas guardei o pequeno bilhete em cima da mobília amadeirada e caminhei com um sorriso bobo para o banheiro. Logo após me vestir, fui para a sala levando tudo que precisaria para costurar o vestido creme. Passei boa parte da manhã costurando, quando minhas mãos começaram a doer parei e caminhei para pegar um pouco de água para beber. Sei que o combinado com Nicholas era não fazer esforço e ficar em repouso mas eu não podia e não conseguia ficar o dia todo parada. Ouvi o barulho de passos e assisti da janela ele chegando. Estava com um embrulho nas mãos e debaixo do braço um livro com papeis. - Achei que não viria agora. Está cedo. - Leu meu bilhete? - Sim mas ainda assim, pensei que chegaria mais tarde. Que bom que está aqui. Ele se aproximou de onde eu estava e depositou o embrulho e o livro em cima da mesa. - O que a senhorita está fazendo de pé hein? - Eu só vim beber água, Nicholas. - A sim, ir ao banheiro e beber água pode sim. Olhei para ele com a sobrancelha arqueada e ele se sentou na cadeira fazendo menção para que eu fizesse o mesmo. - Estive na casa dos seus pais, para buscar alguns de seus pertences. Sua mãe fez questão de que eu almoçasse lá e mandou para ti também. - Pertences? - Sim, sua mãe mandou avisar que você amaria ter de volta algumas de suas bonecas de pano. Coloquei a mão no rosto, sentindo que corava com cada palavra pronunciada por ele. Não acredito que ela tinha mandado elas com ele. - Ela disse que eram importantes para você. Ele se levantou e em um minuto voltou com as três bonecas de pano minhas. Minha mãe se certificou de mandar as minhas favoritas, quando éramos pequenas, as quatro gostávamos de montar uma cabaninha para cada e ter um boneca para cada. Era o nosso passa tempo favorito, meus pais não eram estudados e o pouco que aprendemos foi com uma amiga de minha mãe que passou uma semana na minha casa. Minhas irmãs nunca me trataram com diferença, e sempre se metiam em confusão por minha causa. Ele me entregou as bonecas e as peguei olhando para cada uma delas, ainda com certo constrangimento. - Deve me achar uma tola. - Não. Sua mãe me contou uma parte de sua infância. E até me contou também que você gostava de dançar. Eu realmente não fiquei surpreso. - Até eu finalmente enxergar que era ridículo. Torci o nariz enquanto pegava nas tranças da boneca e arrumava delicadamente de cada lado. - Quando ficar boa, vou te pedir novamente uma dança comigo naquele baile de fim de ano. E dessa vez não vai negar. - E por que acha isso? - Você vai saber. - De qualquer modo, isso está fora da minha realidade. Eu nem gosto de bailes... - Sei. Vou buscar alguma bacia com água gelada para colocar em seu pés, enquanto você mata a saudade de comer algo preparado pela sua mãe. Assenti e ele saiu para o quarto com os papeis do trabalho. Quando voltou eu já havia terminado, Nicholas colocou a bacia próxima a mim e eu prendi a respiração quando enfiei meus pés dentro da água gelada. - Está muito gelada? - Sim, mas dá para suportar. Como está o tempo lá fora? - Piorando... os ventos estão cada vez mais gelados. E acho que em breve teremos neve pelo terreno. - Sério? - dei um suspiro desanimado. - Vou dar uma olhada na sua horta. Ver o que dá para salvar desse frio intenso que está chegando. - Quanto tempo devo ficar aqui? - Deixa de ser apressada. Eu vou lá ver e quando voltar, pode tirar. - Tá. Ele saiu colocando o casaco pesado com que ele tinha chegado. E fiquei ali sozinha com os pés de molho, esperando ansiosamente que fosse possível de tirar pelo menos alguma salsinha de lá. Sorri com o pensamento, e comecei a questionar o porquê da minha mãe ter mandado esse aviso ao Nicholas. Eu nem era assim mais tão apegada as bonecas, tá que eu vivia grudada quando pequenas com elas. Mas porque me enviou elas agora? Eu estava casada e... Será que ela pensou que eu poderia estar grávida? Assim como Cecília me questionou? Não, mas... Não deve ter sido isso, ela apenas quis me mandar por ser algo importante da minha infância. E eu aqui imaginando coisas. Quanta imaginação hein Lilian? Puftt. Nicholas entrou com uma bacia com algumas das coisas que plantei na horta, tirou o casaco pesado e veio na minha direção. Deixou a bacia em um canto e se abaixou para ver os meus pés. - Pode tirar, parece que está melhorando a cada dia. Sem inchaço ou vermelhidão. Fiz o que ele disse e ele me estendeu uma toalha. - Obrigada Nick. - Não precisa agradecer, deu para salvar algumas coisas da sua horta. - Fico feliz com isso, você sabe se a minha irmã Gabriela está bem com o casamento dela para daqui alguns dias? Você esteve por lá, deve ter visto uma das duas. - Ela parecia contente juntamente com a Cecília, escutei falarem baixo sobre lua de mel. Parecem estar bem. Sorri com o que ele disse e corei levemente me lembrando de algumas poucas conversas que Kayla, eu, Gabriela e Cecília tivemos sobre o assunto. - Acredito que sim. - E o novo médico? Ele pareceu surpreso com a minha pergunta, arrastou uma cadeira se sentando de frente pra mim e me olhou de canto. - O que tem ele? - Você escreveu algo assim no bilhete, só estou curiosa sobre o que anda acontecendo no centro. - Ele chegou na semana passada, veio de outra cidade assim como eu. - E está solteiro? Ele se levantou da cadeira, irritado de repente com o meu súbito interesse no rapaz. Mas eu não estava interessada, nenhum pouco, mas disso ele não precisava saber. E aquilo poderia ficar divertido. - Por que quer saber? Está casada comigo, esqueceu? - Eu sei, mas não posso saber? - Tanto faz. - Se é tanto faz, me diz. Ele estava incrivelmente incomodado com a minha pergunta. Parece que eu estava conseguindo tirá-lo do sério. - Ele é bonito? - Por que está tão curiosa? Por acaso, está pensando em ir se consultar com ele? Um médico não é o suficiente? - Ora, Nick! Você é um t**o! Ignorante e t**o. Eu queria saber, estou curiosa porque se você for amigo dele poderá apresentá-lo a Cecília. Lógico que somente se ele for solteiro, honesto e um bom rapaz. Ele ficou me olhando por alguns instantes e passou a mão pela camisa a ajeitando no cotovelo, como sempre, sua mania. - Se ele é bonito não sei, mas está solteiro ao que parece. Tem moças aparecendo por lá fingindo doença agora. Não que antes isso não acontecia comigo também, mas casei e agora elas ressurgiram para ele. Ele parece ter se acalmado e pegou a jarra de água com um copo para beber. - Então ele é mulherengo? Porque se for, esquece o que eu disse sobre apresentá-lo a Cecília, ela é sonhadora demais, não quero que se machuque. - Pelo que eu vi hoje antes de vir embora, ele parecia assustado com o tanto de mulheres em cima dele. - Elas não vão parar não é? - Creio que não. Você ficaria impressionada do que uma mulher é capaz de fazer quando está com aquele fogo. - disse e riu. - Uma vez uma... - Não quero saber não. - e saí para o quarto antes que quem ficasse enciumada agora fosse eu. É o feitiço pode se virar contra o feiticeiro...
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