Naquela noite, Nicholas ficou encarregado de fazer o jantar. E eu só esperava para não comer nada queimado ou cru vindo da parte dele.
Enquanto eu estava deitada, pensava no que eu tinha questionado para ele. Não conseguia tirar da cabeça aquela mulher o beijando. Estava confusa, pois ele dissera que não tinha feito nada e que foi ela quem foi que o agarrou. Ele teria mesmo a coragem de me trair na própria casa do pai?
Nicholas abriu a porta do quarto e me carregou no colo para me levar a mesa do jantar.
- O que você fez?
- Veja você mesma.
E destampou a comida, era arroz com frango e ele tinha cortado algumas verduras e legumes. Parecia apetitoso, porém estava com receio de comer e estar r**m. Vai que ele trocou o sal por açucar?
Bem, nunca se sabe.
Comi a primeira garfada e sim não estava r**m, onde é que ele tinha aprendido? Não era comum naquele tempo homens saber fazer algo na cozinha. Mas imaginei que Nicholas deve ter aprendido sozinho depois de a mãe ter sumido para não sei aonde.
- Estava bom Hall, muito bom.
- Obrigado. Por que ainda teima em me chamar pelo sobrenome? Sou seu marido me chame por Nicholas ou Nick.
Devo ter corado diante de sua firmeza, ele estava sendo gentil e diria até amigável. E era surpreendente, quer dizer, ele nunca foi muito de se importar com coisas assim.
- Tudo bem, vou chamá-lo de Nicholas somente. Nick para quando estiver brava ou feliz.
- Brava ou feliz?
- Sim.
E ele sorriu, o sorriso lindo de dentes perfeitos e covinhas, meu coração se aqueceu deu um salto e acelerou de repente. E pude senti as famosas borboletas no estômago.
Fiquei zonza por um instante, estava cada vez mais quente minha temperatura corporal. Embora lá fora o tempo estivesse mudando para o frio com fortes rajadas de vento.
Nicholas percebeu o meu m*l estar repentino e instantâneamente pôs a mão sobre a minha testa.
- O inchaço e a dor nos pés está provocando a febre alta. Vou te colocar na banheira para equilibrar sua temperatura.
- Não.. não quero não Nicholas.
- É só para a sua temperatura abaixar. Eu vou estar lá com você.
- Mas não não quero que me veja... nua. E acho que não precisa.
Ele me encarou por uns segundos e me carregou novamente para o quarto, enquanto eu colocava a mão me apoiando na sua nuca.
- Não vai precisar tirar a roupa se não quiser. Tem que me deixar cuidar de você.
- Então..tudo bem.
Agradeci mentalmente por estar com um vestido azul com mais pano na frente e suspirei vendo a água da banheira sendo enchida enquanto esperava sentada no banco para ele me colocar.
- Vem, não está tão gelado.
E me carregou novamente me colocando na água um pouco gelada, estremeci quando meus pés tocaram o fundo da banheira e me acomodei lá dentro.
Nicholas pegou o banco que eu estava sentada antes e o puxou para perto para se sentar.
- Desculpe estar causando problemas. Se essa minha perna...
- Pare de se culpar, Lilian. A medicina estuda casos como o seu, essa parte da sua perna apenas não se desenvolveu corretamente e ficou a sequela. Já ouvi até casos de melhora pelo mundo a fora.
- Melhora?
Meus olhos se iluminaram com a esperança que senti me invadir rapidamente. Foi uma das melhores coisas que já ouvi de alguém.
- Sim, com movimentos e alguns exercícios de repetição.
- Acha que eu possa melhorar, ao menos um pouco?
- Tenho certeza, Lilian. Vi que tem muita força de vontade, e isso poucos tem.
- Você vai me ajudar, Nick?
- Se ficar de repouso, claro que sim.
Ele notou que eu o chamei de Nick e sorriu, isso o deve ter lembrado que eu só poderia estar feliz. E estava. Mais do que feliz.
Pela primeira vez em anos, tinha um sinal de esperança em minha condição.
Nicholas pegou uma toalha e um vestido, antes de me entregar me tirou da banheira e me colocou sentada no banco.
- Consegue se trocar sozinha?
- Eu consigo sim, pode sair. - disse com queixo um pouco tremendo.
- Quando terminar, me avise.
Tirei o vestido molhado e me sequei para depois colocar o vestido que ele trouxe.
- Nicholas, já estou vestida. Você pode vir aqui me buscar?
- Estou indo.
E assim ele o fez, me carregou e me depositou na cama. Colocou sua mão na minha testa novamente e me cobriu com a coberta.
- Boa noite, teimosa.
- Boa noite, Nick.
De manhã me espreguicei e olhei para o lado vendo que Nicholas já tinha saído para o trabalho. O que eu faria o dia todo deitada em uma cama? Levantei ainda sentindo dores no pé e fui ao banheiro, depois sai e peguei o embrulho de tecidos e as coisas de costura que tinha ganhado da minha mãe.
A manhã passou rápida enquanto eu costurava sentada na cama. Estava fazendo um vestido de cor creme, quando vi da janela que Nicholas se aproximava.
Não demorou muito até ele entrar no quarto e me entregou o almoço como prometido. Era sopa, e estava até bom se o da minha mãe não fosse melhor. Ele deveria ter comprado do restaurante da Martha.
- Você já almoçou?
- Sim, estou no meu horário para poder almoçar. Infelizmente terei que voltar logo, estou com um paciente que não está nada bem.
Disse e antes de sair ergueu meu rosto e me deu um beijo na testa de despedida. Ora! Aquilo era novo, ele estava agindo muito diferente comigo. Um beijo... e eu suspirei depois que ele saiu porta afora.
A tarde passou, e logo ouvi barulho de conversas e risadas, que me assustaram. Eram homens.
Olhei da janela afastando as cortinas, com certa cautela, avistei dois caras que eu já tinha visto na cidade, gelei e tive medo.
Me virei para a outra parte da cama e abri a segunda gaveta como Nicholas havia me dito. Peguei a faca afiada e a segurei firmemente. Eles não pareciam nenhum pouco boa gente e que vinha com intenções boas.
Como eu correria estando assim? Meus pés estavam doloridos demais. Pensei em me esconder e mancando muito fui parar atrás de uma cômoda, respirando fundo e tremendo quando ouvi o barulho de porta se abrir.
Pude ouvir claramente a conversa dos dois enquanto entravam em casa.
- Mas já ouvi falar que ela fica sozinha aqui.
- Cara, vamos embora. Vamos pegar o dinheiro deles e roubar os cavalos.
- E a manca?
- Amarramos ela e a deixamos aqui.
- Não ...
Ouvi o barulho de portas abrindo, eles estavam me procurando. Enquanto eu pedia baixinho para que não me achassem e fossem para bem longe daqui.
- Você procura ali.
Ouvi barulhos próximos a mim, prendi a respiração mas ele logo veio para a direção em que eu estava e ele descobre aonde eu estava abrindo um sorriso perverso.
- Aí está ela...toda encolhida. Não precisa ter medo.
- Cara, vamos embora. Já pegamos a prataria, vamos roubar os cavalos. Deixa a manquinha em paz.
- Não! Já disse vai na frente, ela é manca mas ainda é uma mulher linda.
- Isso é ... e se o xerife descobrir..
- f**a-se o xerife!
Ele disse com os olhos exalando maldade e me jogou na cama. Os dois pareciam ter corrido muito, pois estavam suados e sujos.
- Abre as pernas.
Ele ordenou e eu tremi arregalando os olhos e tentei me mover para fugir. A faca estava na minha mão direita escondida atrás de mim.
Ele me puxou pelas pernas e eu tentei o chutar, e em um desses chutes que dei ele me empurrou e eu cai no chão. Dei um grito alto de dor pelos pés ainda machucados, meus olhos marejaram e as lágrimas desceram rapidamente, quando ele me puxou do chão e me colocou de volta na cama sentada.
- Eu vou embora. Se o marido dela descobrir estamos ferrados. Ele é médico da cidade e rico, deve ser amigo próximo do xerife.
- Não me importo. Abre as pernas garota.
Ele estava desabotoando a calça quando ouvi um barulho estrondar o chão. Nicholas havia socado tão forte o outro que ele caiu no chão, desacordado. Me olhou e em seguida encarou o cara que estava na minha frente tentando abrir a calça.
Com os olhos faíscando raiva e ódio, como era mais alto que o cara, o pegou pela gola da camisa e o jogou para a parede dando um soco em seu rosto.
- Qual é? Essa sua esposa é uma delícia mesmo. Por que não dividir?
- Dividir? - e socou a cara do cara de novo com muita raiva. - Vai se arrepender por pensar assim dela, seu desgraçado, Filho da p**a!
- O que vai fazer ham?
- Vou te bater tanto que vai precisar implorar amanhã para eu te atender na p***a da clínica da cidade.
- Dane-se!
E foi o estalo que faltava, Nicholas o socou cada vez mais no rosto e depois em sua barriga. Nem mesmo o outro que estava meio desmaiado levantou para pará-lo.
Ele derrubou o cara que foi ao chão com o soco certeiro em seu olho. Nicholas começou a chutá-lo enquanto ele o xingava de vários nomes.
Quando Nicholas virou e tirou do cós da calça uma arma eu arregalei os olhos, ele apontou para o cara mas antes o chutou novamente.
- Sabe que eu sei cada ponto de onde posso te matar ?
- Vai se ferrar você e essa manca!
Nicholas mirou na perna do cara e atirou. O barulho foi tão alto que tampei os ouvidos rapidamente. O homem urrou de dor e continou o xingando sem parar.
- Não deveriam ter entrado aqui. Espero que tenham entendido isso. - e continuou olhando para o cara estendido no chão.
- Nicholas! - e ele olhou imediatamente para mim. - Chega, não vai estragar a sua vida por causa desses ...
- Eu vou parar. - disse próximo ao ouvido do cara. - Mas é só porque ela pediu.
O outro cara que estava melhor se levantou e puxou o outro para irem embora. Nicholas seguiu os dois para ter a certeza que iriam embora mesmo. Mas ainda ouvi eles falarem mais alguma coisa.
- Vou me certificar com o xerife para fazer a vida de ambos um inferno.
- Vai se ferrar!
- Não vão arrumar um emprego tão cedo nessa cidade, terras ou até mesmo esposas. - disse Nicholas.
Olhei pela janela e os dois foram se apoiando um no outro para irem embora rumo a estrada para a vila da cidade. Finalmente pude respirar tranquilamente e me ajeitei indo para o canto da cama.
Nicholas entrou no quarto e veio em minha direção, eu ainda limpava as malditas lágrimas que caiam.
- Você está bem?
- Acho.. que sim.