Capítulo 17 – Verdades Sem Proteção

847 Words
Rayca estava inquieta. Já passava da meia-noite e, embora a casa estivesse silenciosa, sua mente fervilhava de pensamentos. Sentada no sofá com um cobertor fino cobrindo as pernas, ela segurava uma foto antiga de Paloma nos braços, tirada poucos dias antes da internação final. Nico desceu as escadas de camiseta e calça de moletom, os cabelos bagunçados e os olhos sonolentos. Assim que viu a luz da sala acesa, caminhou até ela. — Não consegue dormir? Rayca fez que não com a cabeça, ainda olhando para a foto. — Tem noites que o passado grita tão alto que não dá pra fingir que ele não existe. Ele se sentou ao lado dela, devagar, respeitando o silêncio. — Quer falar sobre isso? Ela hesitou por um segundo, depois soltou um suspiro pesado e colocou a foto sobre a mesa de centro. — Nico… eu preciso te contar algo. Sobre a Nina. Ele ficou atento. Apenas balançou a cabeça, incentivando. — Ela não é minha filha biológica. — A confissão saiu como uma lâmina, cortando a garganta antes mesmo de atingir os ouvidos de Nicolas. O lutador franziu o cenho, mas não disse nada. Apenas a ouviu. — Paloma… a mãe dela… era minha melhor amiga desde a infância. A gente cresceu juntas na mesma rua, dividiu brinquedos, sonhos, até o medo da guerra. Ela tinha uma doença rara, degenerativa, que os médicos disseram que não deixaria viver muito. Mas Paloma era teimosa. Forte. Rayca sorriu com tristeza. — Mesmo doente, ela se apaixonou. Por um homem errado. Gustavo. Ele era charmoso, encantador... mas perigoso. Aquelas pessoas que parecem boas até você descobrir que é tarde demais. — Ele é o pai biológico da Nina? Rayca assentiu. — Sim. E ele sumiu quando soube da gravidez. Paloma decidiu tê-la mesmo assim. Queria deixar algo no mundo. Uma parte dela. Eu ajudei com tudo. Levei aos exames, cuidei dela quando ela m*l conseguia se levantar da cama… e quando chegou o dia do parto, ela estava fraca demais. Ela engoliu em seco. — Paloma morreu naquela madrugada. Mas antes… antes de morrer, me fez prometer que cuidaria de Nina. Que a criaria como minha. E eu prometi. Prometi olhando nos olhos dela. Nico esticou a mão e segurou a dela, firme. — E você cumpriu. Todo mundo vê isso. Rayca balançou a cabeça, com os olhos cheios de lágrimas. — Eu a registrei antes da morte de Paloma. Usamos um esquema simples, como se ela fosse minha filha. Tudo parecia resolvido. Mas agora, com Gustavo aparecendo de novo, tenho medo. — Medo de quê? — De que ele queira a menina de volta. Que diga que é o pai biológico e tente tirá-la de mim. Eu não tenho nenhum papel oficial, Nico. Nenhuma adoção legal. Só o amor. Só a promessa. Nicolas se mexeu no sofá, visivelmente impactado. — E Gustavo tem como provar alguma coisa? — Não sei. Mas se ele tiver… se for atrás da justiça… eu posso perder a minha filha, Nico. Um silêncio pesado caiu entre os dois. Depois de alguns segundos, Nicolas falou com voz grave: — Isso não vai acontecer. Rayca o encarou. — Você não pode prometer isso. — Posso, sim. E vou. Porque se ele tentar alguma coisa, ele vai ter que passar por mim. — Isso não se resolve com socos. É lei. É papel, justiça. — E o que ele tem? Nome numa certidão? Enquanto você tem tudo? O colo, o amor, o cuidado? Isso vale muito mais. E se a justiça for cega o suficiente pra não ver isso… então a gente vai achar outro jeito. Mas eu não vou deixar ninguém tirar Nina de você. De nós. Rayca mordeu o lábio inferior, emocionada. — De “nós”? — Sim. Porque ela também é minha agora. Você não vê? Ela me chama de tio, me abraça quando chego, conta as coisas da escola como se eu fosse parte da rotina dela. E eu sou. Ela é minha família também, Rayca. Ela se jogou nos braços dele, sem conseguir segurar o choro. — Eu tenho tanto medo, Nico… — Eu sei. Mas você não tá mais sozinha. Eu tô aqui. E vou continuar. Ficaram assim por longos minutos, abraçados, com o coração acelerado e as palavras suspensas no ar. Ali, naquela madrugada silenciosa, uma nova camada da relação deles se firmava. Não era mais apenas atração, desejo ou cumplicidade. Era amor. Do tipo que enfrenta o passado, desafia o presente e protege o futuro. Enquanto isso, na escuridão de um porão em Caracas, Gustavo observava algumas fotos impressas sobre uma mesa de madeira desgastada. Numa delas, Rayca sorria ao lado de Nina. Em outra, Nicolas carregava a menina nos ombros, rindo. — Então… foi com ele que você me trocou, Rayca? Ele apertou os punhos. — Acha mesmo que pode me apagar da história? Acha que vai me tirar da vida da minha filha? Gustavo levantou o celular e começou a digitar uma mensagem enigmática, destinada a alguém que estava mais perto de Rayca do que ela imaginava.
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