Louise caminhava tranquilamente pela rua que a levaria diretamente para o dormitório, segurando com firmeza o casaco enrolado que tinha nos braços. Era uma surpresa para a melhor amiga, por mais que já tivessem conversado sobre isso algumas vezes.
Tinha acabado de sair do pet shop onde o amigo trabalhava, tendo sua ajuda para adotar aquele gato que mais se conectasse consigo, sabendo que eram eles quem escolhiam os donos. Ela nunca tinha conhecido a clínica, ficando surpresa com o local — bem maior do que a pequena recepção mostrava. A quantidade de filhotes, tanto de gato quanto de cachorro, que estavam esperando alguém que os levassem para casa era absurda e a ruiva desejou que pudesse ter cada um no minúsculo quarto que dividia com Charlotte.
A decisão não foi fácil, no entanto, não teve dúvidas de qual seria quando uma gata de seis meses pintada de laranja e marrom, exatamente nos tons de cabelo das duas amigas, pulou em seu colo em busca de carinho. Era a representação perfeita das duas em um só ser, sentindo-se ansiosa para ver a reação da morena quando chegasse em casa. Por fora, parecia bem plena, a felina incrivelmente calma, encarando-a com os olhos verdes arregalados, mas por dentro, queria correr até o prédio.
Já tinha passado das três da tarde quando finalmente abriu a porta de entrada com certa dificuldade, chamando a amiga algumas vezes até que ela aparecesse na sala e a encontrasse com o pacotinho embrulhado com um casaco. A primeira reação dela foi confusão, não entendendo o que, de fato, era aquilo nos braços da ruiva. No entanto, ver as orelhas em pé que a gatinha mostrou ao levantar levemente seu rosto, foi o suficiente para arregalar os olhos, colocando as mãos na boca quando assimilou o que acontecia.
Charlotte andou rapidamente até a nova morada daquele dormitório, esticando os dedos para fazer carinho na cabeça colorida da gata, trocando um sorriso imenso com a melhor amiga. Louise afrouxou o aperto dos seus braços em volta da felina, oferecendo-a para a morena, que não hesitou em pegá-la.
— Por que não me disse? — indagou a mais nova, imaginando como teria sido divertido estar entre tantos outros filhotes. Ela sabia que conseguiria dizer não para aqueles olhinhos cheios de carência, insistindo para pegarem todos.
Contudo, ficaria extremamente triste em saber que muitos não teriam tanta sorte para serem adotados, chegando a conclusão que foi melhor não ter ido.
— Queria fazer uma surpresa. Sei que falamos sobre isso alguns dias atrás e, bom, cá estamos nós.
— Você vem me acostumando muito m*l, Izzie. Quero ver depois o que vai fazer com o estrago final.
Louise riu, revirando os olhos para o drama da mais nova. Era inevitável que não minasse a melhor amiga, ela fazia por si, que nada mais justo do que retribuir. Charlotte trocou um olhar com a ruiva, sentando-se na ponta do sofá enquanto o carinho continuava. No entanto, a gata não queria mais ficar no colo, achando que tinha feito o suficiente enquanto não chegavam ao destino, por isso tentou sair dos braços da morena, muito mais interessada em explorar seu novo lar.
As duas observaram em silêncio a gata cheirar a sala por inteiro, o sorriso estampado no rosto de cada uma.
— Pierre daqui a pouco vai trazer algumas coisas que iremos precisar, principalmente, comida.
— Ela não está com fome agora?
— Antes de sair do veterinário, enchi a barriga dela exatamente por isso ou não conseguiria trazê-la com as mãos cheias de sacolas.
Charlotte riu soprado, lembrando de algo muito importante.
— Temos um nome em mente?
— Você pode escolher.
— Que tal Bichette? — Trocou um sorriso cúmplice com Louise, que corou por recordar bem mais do que só aquele momento onde deu a ideia de como poderiam chamar os dois gatos que planejaram adotar. — Ela tem tudo o que nos representa, nada melhor do que usar a sugestão que você deu.
A ruiva se jogou na melhor amiga, as duas rindo por nada em específico. E a nova moradora e m****o da família, andou calmamente até subir pelas pernas da mais velha, acomodando-se em suas costas — ela já se sentia em casa e rodeada de amor.
Com o desafio daquela semana, a dupla não sabia exatamente como realizar. Precisavam dançar com Pierre e para isso, precisariam de uma festa. No entanto, não estavam prontas para outra rodada em um bar cheio de bebidas, uma pista lotada de gente e seus corpos se encostando como se tivesse um imã em cada uma pedindo por mais contato.
Sem contar que sabiam o quão r**m eram mexendo os membros, sendo muito melhor ignorar aquele fato quando não tinham consciência do que faziam. Alguns meses atrás, brincaram com a possibilidade de que poderiam se inscrever em um curso de dança e agora, bom, talvez realmente deviam.
— E se for um festinha caseira? — Charlotte perguntou, tentando alcançar todas as opções que tinham. — Não seria tão arriscado e a vergonha seria muito menor.
Elas trocaram um olhar com a segunda parte da fala da morena, um entendimento mútuo sobre o que estariam colocando em risco se tivesse uma segunda chance daquilo acontecer novamente. Louise pensou por alguns minutos, avaliando os pontos daquela sugestão, não conseguindo achar nada que pudesse ser r**m.
Então a dupla preparou o dormitório para a pequena festinha que planejaram. Pierre e Thomas chegariam às sete da noite, após o mais novo sair do trabalho. Por mais que elas só precisassem do Renaud, era impossível não convidá-lo para tudo o que faziam em conjunto — já era parte do grupo, como se estivesse desde sempre. E ainda que ele não soubesse do realmente motivo de tantas saídas com seu melhor amigo, os três não sentiam que o incentivo era o mesmo de quando começaram com aquilo.
Bichette dormia tranquilamente em cima de uma almofada no sofá, tinha reivindicado aquele espaço como seu, assim como os travesseiros da Louise e Charlotte. E não era como se ela não tivesse ganhado uma cama especialmente para que descansasse na presença das donas, porque a morena comprou três — uma para cada cômodo.
Quando os morenos chegaram, trazendo salgadinhos para passarem a noite e dois refrigerantes — uma garrafa de vodka seria o suficiente para dividirem e não passarem m*l. Thomas foi direto para a felina, que se espreguiçava para dar atenção aos visitantes. E Pierre ficou para abraçar as amigas, sentindo saudade delas pelos dias em que não se viram. Estava tão acostumado com a frequência de suas saídas, que ao perceber que o desafio estava acabando, um leve desespero subia pelo seu peito toda vez que lembrava.
A outra coisa que os amigos trouxeram foi o videogame do mais novo, dançariam pelo famoso Just Dance. Charlotte foi sagaz ao pensar nessa solução, poupando o quarteto inteiro de ter que se envergonhar na frente de muitos de seus colegas da universidade. Pierre e Thomas arrumaram o espaço na sala pequena das meninas, colocando a mesa de centro do quarto delas para que tivessem como se movimentar perfeitamente com o sensor.
As músicas eram boas, no entanto, os passos eram, em sua maioria, complicados. O mais novo era o único que estava em vantagem, por ter usado o jogo por quase sua infância e adolescência inteira — Renaud também estaria nesse grupo, mas ele não se lembrava muito das coreografias. Por mais difícil que fosse no início, Louise pegou o jeito depois de quatro partidas em que dançou, conseguindo ganhar duas vezes e Charlotte passava mais tempo rindo do que focada em acertar os movimentos.
No final, a garrafa de vodka foi totalmente esquecida em cima da bancada que dividia a cozinha da sala, os refrigerantes não durando muito tempo com toda a agitação que faziam. No fundo, eles se sentiam adolescentes de novo, tendo a experiência que nunca tiveram quando realmente tinham essa idade. O clima leve e divertido fez com que eles não reparassem o tempo passando, a madrugada chegando em um piscar de olhos e dois vizinhos batendo na porta para que o volume fosse abaixado ou chamariam o responsável pelo dormitório inteiro.
Sem alternativa, Charlotte desligou a televisão e o videogame, intercalando o olhar para os amigos como se perguntasse o que fariam dali em diante. Pierre tinha Bichette no colo, acariciando o queixo da gata, que se deleitava toda, o ronronar característico alcançando a audição de todos.
— Podíamos assistir um filme — Thomas sugeriu, levantando os braços e fazendo um movimento com as mãos para ocultar a luz forte da lâmpada que machucava seus olhos.
— Pela nossa experiência, dormiríamos com meia hora — Louise argumentou, não estava muito afim de ficar parada na frente da televisão. Passou horas dançando e ainda estava com o corpo cheio de energia.
O mais novo concordou desanimado, virando de lado no chão, cansado de ficar com as mãos para cima. Pierre não parecia estar ouvindo o que eles diziam, olhando fixamente a felina em seu colo. E Charlotte pensava em nada, as safiras fixas em um ponto invisível na parede. A verdade era que ela estava cansada, a barriga doendo pelo tanto que riu, chorando involuntariamente no processo — estava tentando recuperar o fôlego.
— Vocês deviam dormir aqui hoje — a morena disse do nada, quebrando o silêncio que tinha se formado. — Está tarde para voltar para o apartamento.
— Festa do pijama no dormitório das amigas pela primeira vez na vida? — Thomas levantou o torso, a expressão de que iria fazer uma bagunça completa.
— Só se prometer não mexer em nada — Louise o olhou com os olhos semicerrados. Ele assentiu, segurando a risada. — Estou de olho em você, Leroy.
O mais novo correu para o quarto, gritando que iria escolher a melhor cama para deitar e a ruiva foi atrás dele, com a intenção de evitar qualquer dano que ele pudesse causar. No entanto, foi tarde demais, Thomas já estava todo esparramado sobre o seu lençol, o sorriso arteiro de voltar.
— Não fica ofendida, Lou, mas sua cama fede.
E essa foi a chance perfeita para a vingança que ele vinha esperando ter, a expressão de que foi insultada com sucesso sendo o prêmio que esperava. Contudo, a mais velha não deixou barato, pegou o primeiro travesseiro que viu — o da melhor amiga — e atacou o mais alto várias vezes. Pierre e Charlotte nem se mexeram para os pedidos de ajuda que o amigo soltava, deixando que se resolvessem sozinhos, enquanto ligavam a televisão para assistir um filme qualquer — com todos cansados, era a melhor opção que tinham.