A previsão era de que elas conseguiriam informações úteis sobre a máfia em poucas semanas. Nos primeiros dias, talvez. Afinal estavam em locais onde a fofoca rolava solta. E pegavam os homens em seus momentos mais vulneráveis, quando estavam bêbados e sedentos por uma mulher. Mas nada funcionou durante quase dois meses de investigação. Frustrada, Kate não sabia mais o que fazer pra mudar a situação.
— Precisamos de uma estratégia.
Comentou Jude, baixo, enquanto ambas limpavam a lanchonete vazia. Ela tinha mudado o nome para Jana Wade. As pressas, fora necessário montar uma personagem convincente. Kate continuou com o nome, já que não era seu nome verdadeiro e sim um apelido. O órgão federal de segurança do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, conhecido como DEA, organizou toda uma história pra Kate, pro caso dela conseguir uma brecha pra entrar na máfia.
— Eu sei. Estou pensando.
Elas ainda estavam limpando o local, quando ouviram uma discussão na cozinha.
— Aquele maldito Don! Não aguento mais! Toda semana é essa extorsão! Quase não temos lucro desse jeito!
— Fale baixo, homem. Quer que as funcionárias escutem?
— A família Cardenas que se lasque! Eu não aguento mais!
A mulher tapou a boca do homem. Depois ela saiu da cozinha, dando uma olhada rápida. Kate e Jude fingiram estarem conversando sobre a suposta faculdade em que elas estudavam todas as noites. Sem desconfiar, a dona da lanchonete voltou para a cozinha, onde sussurrou o resto da conversa com o marido.
Kate e Jude sentaram em uma das mesas.
— Então eles pegam o dinheiro daqui também.
Comentou Jude, baixinho.
— É óbvio. Faz parte do território deles.
— Agora que temos a confirmação que a família Cardenas comanda a máfia, qual o próximo passo?
— Precisamos dar um jeito de entrar.
— Na máfia? É loucura.
Jude elevou um pouco a voz. Ela colocou a mão na boca e ambas ficaram em silêncio durante alguns segundos, quando ninguém apareceu e nada aconteceu na cozinha, Kate respondeu.
— Esse é o plano.
— E como acha que faremos isso? Somos mulheres, só conheço um jeito de entrarmos.
— Não acho que será necessário chegar a tanto. Só precisaria de acesso a um local onde eles se reúnem. Posso colocar escutas lá e ouviremos tudo.
— Não seria mais fácil conseguir um mandado pra grampear os celulares?
— O problema é saber qual juiz não é comprado ou associado a eles. Não podemos arriscar de forma alguma. Além do mais, fiquei sabendo que para os negócios, eles não usam celular. Só aqueles telefones antigos.
Jude pensou que eles deviam ser muito cautelosos e engenhosos. Usar tecnologia antiga não os impedia de serem pegos, mas com tantos recursos atualmente, era difícil manter uma organização intacta por tanto tempo. Pelo menos, uma que não tenha tanta influência como algumas mundialmente conhecidas.
— Tá, e depois?
— Eles certamente vão falar alguma coisa que nos interesse. Esse vai ser o foco da nossa investigação.
— Espero que isso dê certo. Não aguento mais limpar mesa de dia e rebolar a b***a a noite.
Kate deu risada e se levantou, jogando o pano no ombro.
— Você quem escolheu estar aqui. E não pode reclamar, ganha muito bem pelas gorjetas.
— É, não posso mesmo.
Elas estavam voltando para o balcão quando alguns clientes entraram. Kate arrumou a postura e pegou o bloquinho de notas. Aguardou apenas eles se sentarem e olharem o cardápio por alguns minutos.
— Bom dia, o que vão querer hoje?
— Sabe, as vezes eu só queria um pouco de espaço. O que custa esperar alguém chamar?
O homem olhou para Kate. Sua voz estava raivosa, mas não tinha necessariamente a ver com ela.
Kate reconheceu os olhos azuis e a barba e bigode de imediato. Sua pele branca ficou ainda mais pálida, e ela quase perdeu a voz. Ela não era uma mulher acostumada a levar desaforo pra casa, mas paralisou, diante de Andrew Cardenas, um dos seus alvos principais. Ela não esperava encontrá-lo ali, mesmo trabalhando tão próximo da área de atuação dos mafiosos. Os lábios pequenos se moveram em silêncio. Por dentro, ela estava suando frio.
Kate engoliu em seco e balançou a cabeça suavemente, olhando para o bloco de notas.
Seu nervosismo não tinha a ver apenas com o encontro inesperado, mas também com a surpresa pela tamanha beleza. Obviamente que ela já tinha visto fotos, mas nem se comparava. Andrew ainda tinha os cabelos grandes, louros escuros. Os olhos azuis eram suaves, como o mar de águas tranquilas. Nem parecia que ele participava ativamente e com crueldade em muitas operações, como alguns diziam. A barba cobria toda a região da mandíbula, indo até onde começava seu cabelo. Ela soltou um suspiro baixo, tentando não parecer trêmula.
— Andrew, isso é jeito de falar com a moça?
Perguntou Kayla, olhando pra ele com reprovação.
— Arg, mas é que...
— Peça desculpas a ela. Agora.
Andrew segurou o cardápio e bufou.
— Não precisa, senhora. Já estou acostumado com pessoas...
— Pessoas o quê? m*l educadas? Estressadas?
Ele insinuou, olhando pra ela, com os olhos azuis tão frios quanto de seu pai eram.
— Se a carapuça serviu, senhor.
Respondeu Kate, com a voz baixa. Do outro lado da mesa, Karen Hawkins deu uma pequena risada.
Andrew arqueou as sobrancelhas, olhou pra Karen furioso, que se aquietou, e depois pra garçonete, começando a se levantar.
— Escuta aqui...
— Andrew, para. Senta essa b***a aí.
Ele rangeu os dentes, parando no meio do caminho e voltando a se sentar.
— Desculpa pelo meu menino, ele está passando por um processo difícil.
— Mamãe e eu é quem temos mais motivos pra estar estressadas aqui, Andrew. E nem por isso saímos falando assim com as pessoas.
Ele ficou de cabeça baixa, como um menino mimado que tinha acabado de levar uma bronca.
— Está tudo bem senhora. O que desejam pedir?
Kayla pediu panquecas, ovos com bacon e suco de laranja pra ela e pra Karen. Andrew murmurou apenas que queria um suco de abacaxi com hortelã.
Kate anotou e se retirou, pedindo licença e indo em passos rápidos. Ela deixou os pedidos na cozinha e puxou Jude para um canto.
— Aquele é Andrew Cardenas. Ele é o subchefe da máfia!
Jude abriu os lábios olhando para os três na mesa. Parecia que o destino estava dando uma luz a elas.
— Inacreditável! E quem está com ele?
— A esposa do Don, Kayla Hawkins. E aquela do lado é a filha dela, de outro casamento, Karen Hawkins. Tem dois homens do lado de fora, reparou? Provavelmente são os seguranças.
Kate apontou com a cabeça. Tinham dois homens do lado de fora, com uma postura rígida, olhando para todos os lados. Um casal foi parado e revistado antes de entrar na lanchonete. Jude ficou chocada que eles não tinham qualquer vergonha ou medo em simplesmente mostrar que estavam armados e revistar as pessoas.
— O que fazemos? Eu sinceramente não sei se podemos conseguir alguma coisa aqui.
— Eu também não sei. Mas vamos tentar ouvir tudo o que eles falarem. Pode ser que a gente consiga alguma coisa útil.
Elas voltaram a circular, indo atender outros clientes que entraram. A todo momento, ambas tentavam se dividir, passando de um lado a outro da mesa, limpando uma sujeira, fingindo estar caminhando ou falando com clientes.
— Não acredito que vocês estão separados! Papai podia ter cedido dessa vez.
— Seu pai é muito cabeça dura pra fazer isso. E se preocupa mais com a reputação dele do que com o casamento.
— O que acha que ele vai fazer?
Indagou Karen, com o olhar distante. Sua mente estava mais preocupada em quais as consequências sofreria.
— Eu não sei. Só espero que...
Andrew pegou o telefone. Era uma mensagem de seu pai dizendo para encontrá-lo no clube. E que levasse Karen e Kayla com ele.
Ele mostrou o telefone a Karen, que sentiu todo o corpo tremer. Kayla ficou em silêncio, apenas trocou olhares de preocupação com a filha.
Os pedidos foram entregues por Jude, que ficou em silêncio todo o tempo e tentou não tremer tanto.
Eles estavam tão absortos em seus próprios pensamentos e preocupados com o que aconteceria, que não notariam o nervosismo da agente mesmo que ela derramasse todo o suco na roupa deles.
Todos ficaram alguns minutos em silêncio, bebendo e comendo, sem coragem de dizer qualquer coisa, pensando em mil possibilidades. Por fim, pagaram a conta e saíram, murchos e inquietos.
Andrew sabia que a coisa não seria boa, porque seu pai não pediu que fossem pra casa, e sim pro clube pertencente a família. Aquilo significava que haveria mudanças importantes para a família Cardenas. E ele não fazia ideia do que poderia ser.