Kate tinha escutado rumores sobre a separação que estava acontecendo na família, mas não tinha certeza, até aquele dia. Ela estava surpresa que Kayla estava ali, sem parecer muito preocupada. Todos sabiam que sair não era tão fácil, apesar de que ela desconfiava que a mulher nunca tinha sido de fato, uma mafiosa. Por coincidência ou armação, do destino ou do próprio Bernardo, ela tinha se casado com um mafioso, mas nunca se envolveu com os negócios. Alguns diziam até que ela não sabia até conhecer alguns dos amigos de Bernardo e ver a quantia enorme que ele recebia, desconfiando de que aquilo não poderia ser apenas fruto da empresa de floricultura que ele tinha.
Na época do casamento, se ela conhecia bem a história, Kayla tinha perdido seu marido para o que chamaram de "um assalto que deu errado". Dois anos depois, Kayla se tornou esposa de Bernardo, mas não adotou o sobrenome. Nessa época ela era mãe de Karen, que tinha a mesma idade que Kate, 9 anos.
— Tem certeza disso? Eu não tinha ideia que isso podia acontecer.
Kate estava limpando o balcão, faltando alguns minutos para acabar seu turno. E Lucas estava sentado em uma das cadeiras que ficava ligado ao balcão.
— Algumas pessoas tinham falado sobre isso, lá na boate. Mas eu não tinha certeza.
— Achei que...
— Que só se sai da máfia morto? Bom, acho que a maioria sim. Mas a Kayla não era da máfia. Ela provavelmente não tinha conhecimento algum sobre qualquer coisa envolvendo os negócios do marido.
— Deve ser por isso que ela está doida pra tirar a filha do Don.
Kate concordava com a afirmação do noivo. Ela não as conhecia, mas sentia algum tipo de sentimento por Karen e Kayla, talvez por elas estarem envolvidas nessa teia sem a menor intenção e sem qualquer meio de sair. Mesmo Kayla separada de Bernardo, enfrentaria as consequências por aquela decisão. E talvez sua filha pagasse ainda mais caro pela afronta da mãe.
— É, mas isso vai trazer problemas pra Karen. Muitos problemas.
— Eu acho engraçado como você fala delas, como se conhecesse.
— São meses de investigação, quase me sinto da família.
Ela deu uma risadinha. Lucas sorriu, segurando a mão dela. Kate parou o que estava fazendo para encará-lo.
— Eu ficaria preocupado se fosse.
— Eu sei, mas... Você sabe que...
Ela abaixou a cabeça. Evitava falar sobre o assunto desde que ambos discutiram feio quando ela decidiu se infiltrar. Mas não conseguia ignorar o que poderia acontecer.
— Não, por favor, não vamos falar sobre isso. Eu tô fingindo que não sei. Vai doer menos.
— Ah, meu amor. Não fica assim. Sabe que é o único jeito.
— Não sei não...
Ela arqueou uma das sobrancelhas, olhando séria pra ele, enquanto afastava a mão.
— Está sugerindo que eu quero isso?
Lucas balançou a cabeça, tentando se explicar. Mas cada vez que ele fazia isso, se complicava.
— Não, não. É só que... Ah, é difícil. Eu não entendo porque precisa fazer isso...
— Quer saber, é melhor eu ir me arrumar. Com licença.
Ela deixou o pano sobre a mesa e pediu que Jude ajudasse a fechar a conta do rapaz.
Ele bufou fechando os olhos, se lamentando por ter falado demais, novamente. Ele colocou o pagamento no balcão e implorou a ajuda de Jude/Jana.
— Me ajuda Jana, eu não sei o que fazer.
Para segurança dele e da agente, ele não conhecia a verdadeira identidade da agente Walters. Só sabia que ela trabalhava com Kate.
— Precisa ser paciente e compreensivo. Ela está nervosa com toda essa situação. Precisa fazer coisas que jamais imaginou e não está conseguindo chegar a lugar nenhum. Eu sei que é difícil, mas se a ama, precisa mostrar que a apoia, mesmo que seja difícil.
— E se eu não consegui? Se eu não for forte o bastante?
— Então talvez não seja pra ser.
Jude deu de ombros, recolhendo o pagamento que ele deixou no balcão. Lucas permaneceu ali, inquieto, com a testa enrugada, se perguntando se conseguiria superar aquilo. Já era muito difícil saber que ela exibia o corpo para vários homens todas as noites, mas pensar que talvez ela precisasse se envolver amorosamente com algum mafioso... Aquilo lhe dava nos nervos.
Ele já tinha namorado atrizes, modelos, estava acostumado a ver as pessoas que amava tendo atenção masculina e feminina o tempo todo, mas era diferente com Kate. Primeiro porque talvez fosse necessário um pouco mais do que alguns beijos técnicos, e segundo porque ele tinha certeza que queria passar o resto da vida com ela e, dividi-la com quem quer que fosse, era uma missão impossível.
Andrew, Karen e Kayla chegaram no clube na hora do jantar. Vestidos formalmente, eles participaram de uma festa particular que seu pai estava dando. Sem avisá-los com antecedência, Bernardo simplesmente mandou que fossem até lá com trajes de gala. E não havia o que questionar. Era o Don.
— Pai, estamos aqui. Posso perguntar o que deseja de nós?
Indagou Andrew, depois de alguns minutos de conversa jogada fora com alguns políticos e empresários.
— Daqui a pouco, Andrew.
Disse sem dar importância pra ansiedade do filho.
Kayla não queria estar ali, mas se Karen precisava, ela também estaria. Não fazia ideia do que seu ex-marido estava aprontando e não podia negar que sentia certo pavor em pensar nos planos de Bernardo para aquela noite. Mas o que quer que fosse, tentaria proteger sua filha.
— Isso tá um tédio.
Comentou Karen, tomando um gole do vinho tinto.
— Eu concordo. Ele está se divertindo com nosso sofrimento.
— Olhar pra ele já é um sofrimento. Desculpa Andy.
— Tudo bem. Está sendo torturante mesmo. Bem, não me resta mais nada além de beber.
Andrew pegou o copo e a garrafa de whisky que um garçom passou servindo. Ele tomou todo o conteúdo do copo e deu alguns goles na garrafa.
Kayla balançou a cabeça em negação, ao vê-lo exagerar na bebida, e comentou.
— Pega leve. Talvez precise ficar sóbrio pro que vai acontecer.
— Vou ficar em alerta. Tenho certeza que irei precisar beber mais depois dessa noite.
Karen olhava em volta, mas não o encontrava. O único homem que de fato lhe chamava a atenção, não estava na festa. Mas não devia estar surpresa. Ele não era do alto escalão para estar ali. Irritada ela bufou, tornando a beber.
Levou mais tempo do que eles gostariam, mas Bernardo finalmente resolveu chamar todos à mesa para fazer um comunicado.
— Agradeço a presença de todos vocês a essa pequena reunião. Como alguns de vocês sabem, eu sou um homem de palavra, que cumpre com seus acordos, não importa quanto tempo passe.
Karen olhou para Kayla, sentindo o coração disparar. A ex-esposa de Bernardo também sentiu o peito arfar, principalmente depois de lembrar da briga que tiveram quando ela soube o que ele estava fazendo com sua única filha viva.
— Há alguns anos, conheci um homem chamado Peter Guzman. Ele estava afundado na lama. Sua esposa tinha perdido uma de suas filhas gêmeas no parto, e apenas uma restara. Ele começou a beber e jogar feito um condenado. Em algum momento ele se viu afundado, quase que literalmente no fundo do poço. Então veio pedir a ajuda de um soldado, que se reportou a mim, que na época era Subchefe. Não tinha nada a oferecer. A casa hipotecada. O carro também. Mas um soldado sugeriu que ele desse a filha como garantia. E assim fechamos negócio. Ele pagou tudo o que devia. Alguns meses depois, pagou até mesmo a hipoteca da casa, mas esqueceu de mim. Quando fui cobrá-lo, não tinha como pagar. Ele disse que daria um jeito. Providenciei que meus homens lembrasse a ele o que se faz quando não se cumpre o que promete. Dias depois, ele acabou sendo morto, vítima de um assalto que deu errado. De certa forma, fiquei em um prejuízo financeiro que hoje em dia seria de valor inestimado, considerando os juros.
Alguns riram a mesa, mas Kayla estava tremendo, reconhecendo não apenas a história, mas com medo que chegasse exatamente onde ele insinuou antes que faria.
— Mas hoje posso recuperar meu investimento, em forma de vingança e demonstração de poder. O papel assinado, dá a mim, o poder de casar Karen Hawkins com quem eu quisesse quando ela fizesse 30 anos. E também poderia introduzi-la onde quisesse, inclusive na máfia. Então, meus amigos e amigas, nessa noite, anúncio a vocês que Andrew Cardenas e Karen Hawkins estão oficialmente noivos.