Ouviram-se muitos murmúrios, burburinhos e algumas caras de espanto acompanhadas de uma exclamação em tom de surpresa em suas arfadas.
Andrew levantou da cadeira, furioso.
— Que p***a é essa, pai?
— Ficou louco, Bernardo?
Kayla também levantou, se opondo, com a expressão furiosa. Exatamente o que ele queria ver. Com um sorriso, ele ergueu a taça de champanhe.
— Todos vocês ouviram bem. Irei casar meu filho com a jovem Karen. E não há o que questionar. Por favor, sentem todos. Vamos comemorar.
— Isso é insano! Andrew e eu fomos criados como irmãos.
Se manifestou Karen, que até então estava tentando digerir a ideia.
— Mas não são. Então irão seguir minhas ordens, se não preferem sofrer e serem torturados até a morte. Ou verem a mãezinha de vocês sendo levada...
— Isso vai contra o código de honra. Não devemos desrespeitar uma mulher. E muitos menos obrigá-la a...
Bernardo deu uma tapinha leve no ombro do filho e sorriu, quase parecia um pai emocionado.
— Meu filho, eu conheço muito bem nossos mandamentos. Tanto que somente eu poderia quebrá-los.
— Jamais faria isso. Quebraria a ordem, pai. Causaria um caos na organização. Se nem o líder obedecer as regras criadas por seus antepassados, quem iria?
— O assunto não é esse, Andrew. O que está em discussão aqui, é apenas a data do casamento de vocês. Estou ansioso para o dia. E vocês?
Bernardo simplesmente ignorou qualquer outro questionamento ou a raiva dos envolvidos. Ele simplesmente tratou como se a situação não precisasse ser discutida e, por ele, os dois casavam no dia seguinte.
— Com licença senhores. Preciso resolver algo com meu pai.
Andrew pegou o pai pelo braço e o afastou da mesa. Karen e Kayla foram juntas.
Mas para o susto de ambas, Bernardo deu um tapa na cara de Andrew assim que o filho o largou. O subchefe virou o rosto pro lado. Ele sabia que aquele tapa era apenas o começo das ameaças que estaria por vir.
— O que pensa que está fazendo? Me arrastando desse jeito?
— Pai, eu...
— Escutem de uma vez por todas. Eu anunciei, não perguntei o que vocês querem ou acham. Isso vai acontecer e ponto final. A única outra coisa possível de acontecer é a morte de Kayla. O que eu acredito que nenhum de vocês queiram que isso aconteça, não é?
— Mas...
— Ela não é minha esposa. Não é da máfia ou da família. O que me impede de meter uma bala na cara dela agora mesmo?
Bernardo sacou a arma e apontou pra Kayla. Karen se segurou na mãe, em uma tentativa fútil de protegê-la. Andrew estava com o coração acelerado e a respiração forte. O ódio subia a sua mente e ver aquela arma apontada pra Kayla não tinha melhorado a situação. Os olhos estavam mergulhados em dor, impotência e fúria. Não poder fazer nada causava ainda mais sentimentos conflitantes e que poderia facilmente se tornar uma bola de neve ou coquetel molotov.
— Vocês são patéticos, apegados a sentimentalismo.
Ele guardou a arma e segurou Andrew pela mandíbula.
— Não esqueça que além de seu pai, sou o Don dessa p***a. E antes de você existir, eu já era um Cardenas.
Ele olhou para os três e saiu, voltando a mesa.
— O-o que ele quis dizer com isso?
Karen indagou, confusa e ainda trêmula.
— Que não se importaria em me matar. Principalmente se isso for necessário pelo bem da máfia.
Sem dizer mais nada, Andrew resolveu sair da festa. A princípio, ele pretendia não fazer nada, mas estava com muita energia negativa acumulada e sentia uma necessidade latente de bebida.
Andrew pensou em ir em um bar, mas a boate lhe era muito mais atrativa.
Seu pai estava sugerindo quebrar regras naquela noite. E Andrew achou convidativo e apropriado fazer isso, para aproveitar seu estado temporário de solteiro.
Lucas estava calado. Ele dirigiu em silêncio até a boate, que ficava há poucos minutos da lanchonete. Kate não disse nada durante toda a viagem. E apenas agradeceu quando ele parou o carro pra ela sair.
— Ei, Kate, escuta.
Ela estava com a mão no cinto de segurança, quando ele tocou o braço dela.
— Eu sei que é seu trabalho, que não escolheu isso. Mas entenda que é muito difícil pra mim ver você entrando por aquela porta pra se exibir pros outros, entende? Por favor, só se coloque no meu lugar por um minuto. Sem contar na possibilidade de algum desses miseráveis abusar de você. Não é apenas ciúme, eu sinto medo. Se eu te perder, perco o rumo da minha vida. Não quero que você sinta que minha vida é sua responsabilidade, mas quero que saiba que eu ficaria perdido sem você.
Kate não sabia se o beijava ou ficava mais brava ainda. Ela conseguia entender a dificuldade da posição de Lucas. Eles tinham planos pra casamento imediato quando o caso surgiu na sua mesa. Depois de conversarem, ele entendeu a importância daquilo e a apoiou em tudo. E obviamente que não era fácil saber que ela entrava e se exibia e se esfregava em alguns homens, a fim de conseguir informações. No entanto, ele a conheceu na polícia. Sabendo da importância e da dificuldade do seu trabalho como agente do estado e não poderia exigir que isso mudasse.
Ela tirou o cinto de segurança e se inclinou, dando um beijo suave em sua bochecha. Era uma situação delicada. Podia entendê-lo, tanto o medo como a dor, mas não era capaz de mudar aquilo. Não com tanta coisa em jogo.
— Eu te amo. Vamos resolver isso depois, está bem?
Ele assentiu, com um pequeno sorriso de canto.
— Tudo bem. Passo aqui mais tarde?
— Não precisa. O Nicholas vem me pegar.
— Está bem. Qualquer coisa me liga, por favor. Não importa a hora. E se cuida.
Ela deu outro beijo, dessa vez em seus lábios, bem suave. Rapidamente, ela saiu do carro. Acenou pra ele indo embora com o carro e entrou pela porta lateral.
Partia seu coração magoa-lo com toda aquela situação, mas tinha feito uma escolha muito antes de saber quais as consequências poderia ter e, de toda forma, ela amava o que fazia e não trocaria por nada. Mesmo que de vez em quando precisasse fazer algumas coisas que não se aprendia na academia.
Ela olhou para o palco, antes de entrar para seu camarim. A noite estava agitada. Havia diversos grupos de homens com mulheres envolta. Quando elas não estavam rebolando no palco, estavam dançando em volta deles. Fazia parte do trabalho. E era lucrativo, de certa forma. Não que aquele fosse o estilo de vida que a maioria desejava, disso ela tinha certeza. Mas era melhor do que viver ao relento com fome ou morrer nas ruas.
A própria Kate, por exemplo, passou muita fome em uma época de tormento em sua vida, logo quando se viu sozinha no mundo. Momentos que ela jamais desejaria para ninguém. Mas ela teve um anjo que a salvou e ajudou a enfrentar aquela vida de migalhas. E ela fazia questão de retribuir de todas as formas possíveis, todos os dias de sua vida.
Andrew entrou na boate segurando uma garrafa de whisky. Ele ainda não estava bêbado, mas suas vistas não estavam das melhores. Ele riu ao sentar em uma das mesas e logo foi rodeado de mulheres, que nunca tinham visto um homem tão atraente e cheio de objetos de valor como ele entrar ali, sem que fosse algum dos criminosos que costumavam frequentar o lugar.
Se tinha uma coisa que elas tinham aprendido logo ao entrar na boate, era identificar possíveis alvos. Homens com dinheiro, homens com pouca ou nenhuma inteligência e com algum dinheiro, e também homens bêbados e vulneráveis, como ele, com dinheiro.
Kate colocou seu traje e entrou no palco. Como ainda era novata, ela sempre chamava a atenção da maioria dos homens que iam até lá. Até mesmo os clientes mais antigos, paravam tudo o que faziam para vê-la dançar.
Ela tinha muita sensualidade, sabia cativar seu público não apenas com o corpo, mas com a dança. Mesclando um pouco de dança do ventre com o pole dance, ela fazia parte da plateia ir a loucura. Usando um salto que lhe dava quase dez centímetros de altura, ela usava e abusava do corpo, da cintura, da elasticidade e da i********e com a barra. No final, geralmente engatinhava a beira do palco, para que seus clientes pusessem o dinheiro em seu seio ou cintura. Era nesse tempo que ela analisava quem poderia ser um informante em potencial. Ela tinha de usar habilidades quase nunca vistas antes, pra detectar um criminoso ou alguém com envolvimento em cinco segundos. Na maioria das vezes, ela precisava fazer uma dança de um ou dois minutos com cada um, pra ter certeza de qualquer suspeita.
Em muitas noites, ninguém interessante aparecia. Mas naquela em específico, seu olhar cruzou com um dos mafiosos mais importantes da cidade. Todos do submundo do crime conhecia o rosto de um Cardenas e, apesar deles nunca frequentarem lugares como aquele, em algum momento ele não passaria despercebido.