Capítulo 8

599 Words
Arya percebeu que o silêncio era uma armadilha. Dominic continuava esperando a resposta dela, os olhos escuros firmes, pacientes, como se estivesse acostumado a ver pessoas cederem depois de alguns segundos sob sua atenção. Ele não repetiu a pergunta. Não precisou. A pressão estava ali. Viva. Respirando entre eles. Fugir ainda era a escolha inteligente. Arya sabia disso. Cada parte racional da sua mente gritava para inventar uma desculpa, virar as costas, desaparecer no meio da cidade antes que fosse tarde. Mas ele tinha esperado. Horas. Sentado àquela mesa como se o mundo inteiro pudesse aguardar, menos ela. E isso mexia com algo dentro dela que Arya não queria nomear. — Eu não sei — admitiu, finalmente. A boca de Dominic não sorriu, mas os olhos dele suavizaram com a honestidade. — É uma resposta — disse. Não era cobrança. Era observação. Arya respirou fundo, tentando organizar o caos. — O que acontece se eu for embora agora? Ela precisava saber. Precisava medir o tamanho do risco. Dominic inclinou levemente a cabeça, estudando-a com aquela calma perigosa. — Nada — respondeu. Nada. A palavra veio limpa demais. Perfeita demais. Arya não acreditou. Ele percebeu. Claro que percebeu. — Eu não vou te obrigar a ficar — completou. E era quase verdade. Porque a obrigação não estava nas mãos dele. Estava na curiosidade dela. No jeito que o coração batia rápido demais quando ele estava perto. No fato de que, se fosse embora agora, Arya sabia que passaria a noite inteira imaginando o que teria acontecido se tivesse ficado. Dominic deu um passo para o lado, abrindo espaço. Oferecendo passagem. Liberdade. Mas a maneira como a observava dizia outra coisa: Veja se consegue usar. O ar parecia pesado. Difícil. Arya poderia atravessar aquela distância em dois segundos. Em vez disso, permaneceu onde estava. — Você é sempre assim? — perguntou. — Assim como? — Seguro de que as pessoas vão fazer o que você espera. Um brilho discreto apareceu no olhar dele. — Eu aprendi a reconhecer quando elas já decidiram. Só ainda não perceberam. O coração dela bateu forte. Porque talvez ele estivesse certo. — Você acha que eu já decidi? — desafiou. Dominic se aproximou um pouco. Não o suficiente para tocar. Mas o suficiente para que a presença dele a envolvesse outra vez. — Acho que você está aqui — respondeu. Sem saída. Sem argumento. Arya soltou o ar devagar. — Eu tenho medo de você. Precisava ser dito. Dominic absorveu a frase como quem recebe algo precioso. — Eu sei. — Isso não te incomoda? Ele demorou um segundo. — Me mantém honesto. Aquilo a pegou desprevenida. — Honesto? — Eu não preciso fingir ser outra coisa perto de você. A franqueza era brutal. Sem promessa bonita. Sem máscara. Ele era o perigo. E ainda assim estava ali, oferecendo escolha. Ou algo que parecia uma. O mundo ao redor seguia normal. Pessoas passavam pela calçada, carros cruzavam a rua, a vida acontecia indiferente ao terremoto particular de Arya. — Se eu ficar — ela começou, sentindo a própria coragem tremer — nós vamos conversar. Em público. Dominic assentiu sem hesitar. — Como você quiser. Controle. Até quando cedia, ele parecia no comando. Arya odiava o quanto aquilo mexia com ela. Mas, pela primeira vez desde que o conhecera, sentiu que tinha recuperado um centímetro de chão. — Cinco minutos — disse. Os olhos dele escureceram levemente. Interesse. — Eu aceito. Dominic indicou a mesa de onde tinha saído. Arya caminhou primeiro. E a sensação era clara, inevitável, pulsante: Ela não estava mais fugindo. Ela estava entrando.
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