Capítulo 9

945 Words
Arya sentou primeiro. Não porque fosse mais corajosa. Mas porque, se pensasse por mais um segundo, talvez desistisse. A cadeira pareceu dura demais sob suas pernas, o ar pesado demais para entrar nos pulmões. Ela apoiou a bolsa no colo como se fosse um escudo improvisado e manteve os olhos fixos na mesa, tentando ignorar a presença que se aproximava. Dominic puxou a cadeira à frente dela com calma. Sem pressa. Sem dúvida. Ele se movia como um homem que nunca tinha sido impedido de chegar a lugar algum. Quando se sentou, o café inteiro pareceu ajustar a própria respiração. Arya odiou perceber isso. Odiou o efeito que ele causava. E odiou ainda mais saber que, naquele momento, ele estava ali por causa dela. Cinco minutos. Ela repetiu mentalmente, como um prazo de sobrevivência. Cinco minutos e então você vai embora. Dominic apoiou o braço na mesa, observando-a com atenção suficiente para deixá-la inquieta. Não havia sorriso. Não havia gentileza ensaiada. Apenas interesse cru. — Obrigado por ficar — disse. Arya levantou os olhos. — Eu ainda posso ir. — Pode. A resposta foi imediata. Tranquila. Mas havia algo na forma como ele a encarava que dizia que ele não acreditava nessa possibilidade. Nem ela. O silêncio se estendeu por um instante, carregado demais. Ela precisava recuperar algum controle. — Você queria conversar — lembrou. — Então fale. Dominic a estudou como se estivesse decidindo por onde começar. Como se existissem muitas portas, mas ele quisesse escolher a que a faria permanecer. — Você ficou com medo ontem — disse. Não era pergunta. Arya apertou a bolsa entre os dedos. — Fiquei. Ele assentiu devagar, absorvendo a resposta. — Eu não quis assustar você. Mentira. Ou talvez não. Talvez o problema fosse que homens como ele assustavam simplesmente por existir. — Mas assustou — ela disse. Os olhos dele não fugiram. — Eu sei. Nenhuma defesa. Nenhuma desculpa. Aquilo a desarmava mais do que justificativas. Arya respirou fundo. — Então por que continuar? Dominic apoiou as costas na cadeira. — Porque ir embora seria fingir que eu não senti. O coração dela perdeu o ritmo. — Sentiu o quê? Ele inclinou levemente a cabeça. — Interesse. A palavra caiu entre eles como uma pedra em água parada. Simples. Mas pesada. Arya forçou uma risada fraca. — Você não me conhece. — Não — concordou. — Mas quero. O estômago dela apertou. — Por quê? Ela precisava entender. Precisava achar a falha naquela lógica. Dominic demorou um pouco para responder. Os olhos dele percorriam o rosto dela como se buscassem algo específico. — Porque você não tentou me agradar — disse. Aquilo a pegou desprevenida. — Eu estava tentando sobreviver ao momento. — Exatamente. Ele viu. Ele tinha visto. Enquanto outras pessoas se curvavam, sorriam demais, tentavam impressioná-lo… Arya tinha ficado com medo. Tinha sido real. Dominic parecia fascinado por isso. — Você olha para mim como se eu fosse um problema — continuou. — Talvez você seja. Um brilho perigoso cruzou o olhar dele. — Gosto disso. Claro que gostava. Homens acostumados a serem desejados aprendiam a valorizar quem hesitava. Arya odiou perceber que, de algum jeito torto, aquilo a colocava mais fundo ainda dentro do campo de visão dele. — E agora? — ela perguntou. — O que você espera que aconteça depois dessa conversa? Dominic apoiou os cotovelos na mesa. Mais perto. Mais intenso. — Nada imediato. A resposta surpreendeu. — Eu não estou com pressa. Mas ele tinha esperado horas. Aquilo não era pressa. Era determinação. — Eu só queria que você soubesse que eu não vou fingir que você não existe — completou. O coração dela apertou. Porque era exatamente isso que ela tinha tentado fazer desde o início. Fingir que ele era um acaso. Um desvio. Algo que desapareceria. Mas Dominic não tinha cara de quem desaparecia. Ele tinha cara de quem permanecia até se tornar indispensável. — Você sempre consegue o que quer? — Arya perguntou. Ele pensou. Não respondeu com arrogância. — Nem sempre. Ela ergueu as sobrancelhas, duvidando. Dominic percebeu. — Mas eu nunca deixo de tentar. Ali estava. A verdade que ela temia. Arya desviou o olhar por um momento, tentando organizar a própria respiração. Cinco minutos já deviam ter passado. Talvez mais. E, ainda assim, levantar parecia impossível. — Eu não sou parte do seu mundo — disse, finalmente. Dominic ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou, firme: — Talvez eu queira ser parte do seu. Aquilo foi perigoso. Muito mais do que se ele tentasse puxá-la para o dele. Porque significava invasão. Significava proximidade. Significava que ele não pretendia apenas observá-la de longe. Arya sentiu o peso dessa possibilidade se acomodar dentro dela. — Você não vai gostar — avisou. — De quê? — Da simplicidade. Ele quase sorriu. — Você ficaria surpresa. O olhar dele desceu rapidamente para a mão dela apertando a bolsa. Depois voltou. Atento. Cuidadoso. Como se estivesse se aproximando de um animal ferido que podia fugir a qualquer momento. — Eu posso te ver de novo? — perguntou. O pedido foi calmo. Mas havia força ali. A pergunta que mudava tudo. Arya sentiu o coração bater nos ouvidos. Se dissesse não, talvez fosse mentira. Se dissesse sim, a porta estaria aberta. Dominic esperava. Sem pressionar. Confiante demais. Ela respirou fundo. E percebeu que já estava perdida desde o momento em que tinha atravessado o café para sentar naquela mesa. — Eu… — começou. Mas a resposta ficou presa. Porque, no fundo, ela sabia: Independentemente do que dissesse, Dominic Russo encontraria um jeito de voltar. E talvez o mais assustador de tudo… fosse que uma parte dela queria isso.
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