Arya sentou primeiro.
Não porque fosse mais corajosa.
Mas porque, se pensasse por mais um segundo, talvez desistisse.
A cadeira pareceu dura demais sob suas pernas, o ar pesado demais para entrar nos pulmões. Ela apoiou a bolsa no colo como se fosse um escudo improvisado e manteve os olhos fixos na mesa, tentando ignorar a presença que se aproximava.
Dominic puxou a cadeira à frente dela com calma.
Sem pressa.
Sem dúvida.
Ele se movia como um homem que nunca tinha sido impedido de chegar a lugar algum.
Quando se sentou, o café inteiro pareceu ajustar a própria respiração.
Arya odiou perceber isso.
Odiou o efeito que ele causava.
E odiou ainda mais saber que, naquele momento, ele estava ali por causa dela.
Cinco minutos.
Ela repetiu mentalmente, como um prazo de sobrevivência.
Cinco minutos e então você vai embora.
Dominic apoiou o braço na mesa, observando-a com atenção suficiente para deixá-la inquieta.
Não havia sorriso.
Não havia gentileza ensaiada.
Apenas interesse cru.
— Obrigado por ficar — disse.
Arya levantou os olhos.
— Eu ainda posso ir.
— Pode.
A resposta foi imediata.
Tranquila.
Mas havia algo na forma como ele a encarava que dizia que ele não acreditava nessa possibilidade.
Nem ela.
O silêncio se estendeu por um instante, carregado demais.
Ela precisava recuperar algum controle.
— Você queria conversar — lembrou. — Então fale.
Dominic a estudou como se estivesse decidindo por onde começar.
Como se existissem muitas portas, mas ele quisesse escolher a que a faria permanecer.
— Você ficou com medo ontem — disse.
Não era pergunta.
Arya apertou a bolsa entre os dedos.
— Fiquei.
Ele assentiu devagar, absorvendo a resposta.
— Eu não quis assustar você.
Mentira.
Ou talvez não.
Talvez o problema fosse que homens como ele assustavam simplesmente por existir.
— Mas assustou — ela disse.
Os olhos dele não fugiram.
— Eu sei.
Nenhuma defesa.
Nenhuma desculpa.
Aquilo a desarmava mais do que justificativas.
Arya respirou fundo.
— Então por que continuar?
Dominic apoiou as costas na cadeira.
— Porque ir embora seria fingir que eu não senti.
O coração dela perdeu o ritmo.
— Sentiu o quê?
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Interesse.
A palavra caiu entre eles como uma pedra em água parada.
Simples.
Mas pesada.
Arya forçou uma risada fraca.
— Você não me conhece.
— Não — concordou. — Mas quero.
O estômago dela apertou.
— Por quê?
Ela precisava entender.
Precisava achar a falha naquela lógica.
Dominic demorou um pouco para responder.
Os olhos dele percorriam o rosto dela como se buscassem algo específico.
— Porque você não tentou me agradar — disse.
Aquilo a pegou desprevenida.
— Eu estava tentando sobreviver ao momento.
— Exatamente.
Ele viu.
Ele tinha visto.
Enquanto outras pessoas se curvavam, sorriam demais, tentavam impressioná-lo…
Arya tinha ficado com medo.
Tinha sido real.
Dominic parecia fascinado por isso.
— Você olha para mim como se eu fosse um problema — continuou.
— Talvez você seja.
Um brilho perigoso cruzou o olhar dele.
— Gosto disso.
Claro que gostava.
Homens acostumados a serem desejados aprendiam a valorizar quem hesitava.
Arya odiou perceber que, de algum jeito torto, aquilo a colocava mais fundo ainda dentro do campo de visão dele.
— E agora? — ela perguntou. — O que você espera que aconteça depois dessa conversa?
Dominic apoiou os cotovelos na mesa.
Mais perto.
Mais intenso.
— Nada imediato.
A resposta surpreendeu.
— Eu não estou com pressa.
Mas ele tinha esperado horas.
Aquilo não era pressa.
Era determinação.
— Eu só queria que você soubesse que eu não vou fingir que você não existe — completou.
O coração dela apertou.
Porque era exatamente isso que ela tinha tentado fazer desde o início.
Fingir que ele era um acaso.
Um desvio.
Algo que desapareceria.
Mas Dominic não tinha cara de quem desaparecia.
Ele tinha cara de quem permanecia até se tornar indispensável.
— Você sempre consegue o que quer? — Arya perguntou.
Ele pensou.
Não respondeu com arrogância.
— Nem sempre.
Ela ergueu as sobrancelhas, duvidando.
Dominic percebeu.
— Mas eu nunca deixo de tentar.
Ali estava.
A verdade que ela temia.
Arya desviou o olhar por um momento, tentando organizar a própria respiração.
Cinco minutos já deviam ter passado.
Talvez mais.
E, ainda assim, levantar parecia impossível.
— Eu não sou parte do seu mundo — disse, finalmente.
Dominic ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou, firme:
— Talvez eu queira ser parte do seu.
Aquilo foi perigoso.
Muito mais do que se ele tentasse puxá-la para o dele.
Porque significava invasão.
Significava proximidade.
Significava que ele não pretendia apenas observá-la de longe.
Arya sentiu o peso dessa possibilidade se acomodar dentro dela.
— Você não vai gostar — avisou.
— De quê?
— Da simplicidade.
Ele quase sorriu.
— Você ficaria surpresa.
O olhar dele desceu rapidamente para a mão dela apertando a bolsa.
Depois voltou.
Atento.
Cuidadoso.
Como se estivesse se aproximando de um animal ferido que podia fugir a qualquer momento.
— Eu posso te ver de novo? — perguntou.
O pedido foi calmo.
Mas havia força ali.
A pergunta que mudava tudo.
Arya sentiu o coração bater nos ouvidos.
Se dissesse não, talvez fosse mentira.
Se dissesse sim, a porta estaria aberta.
Dominic esperava.
Sem pressionar.
Confiante demais.
Ela respirou fundo.
E percebeu que já estava perdida desde o momento em que tinha atravessado o café para sentar naquela mesa.
— Eu… — começou.
Mas a resposta ficou presa.
Porque, no fundo, ela sabia:
Independentemente do que dissesse, Dominic Russo encontraria um jeito de voltar.
E talvez o mais assustador de tudo…
fosse que uma parte dela queria isso.