A manhã trouxe consigo o som do castelo despertando.
Portões se abriram, passos ecoaram pelos corredores de pedra, e o grande salão do trono foi preparado para receber o povo. Tapeçarias com o brasão dos MacAllister pendiam altas, e o fogo nas lareiras combatia o frio persistente do inverno.
Ewan estava sentado no trono de pedra escura.
Imóvel.
Atento.
Ao seu lado, em um assento ligeiramente menor, mas não menos imponente, estava Rowena. Vestia roupas sóbrias, dignas, sem excessos como se quisesse que nada distraísse do que realmente importava naquele dia.
Os camponeses começaram a entrar.
Homens de mãos calejadas.
Mulheres com mantos gastos.
Crianças que observavam tudo com olhos arregalados.
O primeiro a se ajoelhar foi um fazendeiro idoso, o chapéu apertado entre as mãos.
— Vossa Majestade… — começou, a voz trêmula. — O inverno matou metade do nosso gado. Não teremos como pagar os tributos este mês.
Um murmúrio percorreu o salão.
Ewan ouviu em silêncio, o olhar fixo no homem. Por alguns segundos, ninguém falou e o camponês pareceu encolher sob o peso daquela atenção.
Foi Rowena quem quebrou o silêncio.
— Levante-se — disse, firme, mas gentil. — Não precisa ajoelhar para falar de fome.
O homem obedeceu, surpreso.
Ewan voltou-se levemente para ela. Não em reprovação em avaliação.
— Quantas famílias dependem desse gado? — perguntou ele ao fazendeiro.
— Doze, senhor.
Ewan fez um cálculo rápido.
— O tributo será suspenso até o fim do inverno — declarou. — Em troca, quando a terra voltar a produzir, metade da primeira colheita será destinada aos celeiros do reino.
O homem arregalou os olhos.
— Isso… isso é justo, Vossa Majestade.
Rowena assentiu de leve, aprovando.
O próximo camponês era um jovem, visivelmente nervoso.
— Há soldados abusando de suas posições nas vilas do sul — disse, quase num sussurro. — Tomam mantimentos sem pagamento.
O salão ficou tenso.
Ewan se inclinou um pouco para frente.
— Nomes — disse. — E locais.
O jovem hesitou.
— Não quero retaliações.
Rowena inclinou-se também.
— Terá proteção — afirmou. — E justiça. O rei não protege homens que se escondem atrás de um brasão para ferir o próprio povo.
Ewan lançou-lhe um olhar rápido. Concordância silenciosa.
— Se suas palavras forem verdadeiras — completou ele —, esses homens não usarão mais minhas cores.
O jovem respirou aliviado.
Caso após caso foi apresentado.
Terras disputadas.
Invernos rigorosos.
Pequenas injustiças que, somadas, poderiam se tornar revoltas.
Ewan resolvia com precisão.
Rowena equilibrava com humanidade.
Onde ele cortava, ela costurava.
Onde ela suavizava, ele sustentava.
Em determinado momento, uma mulher com uma criança nos braços se aproximou.
— Meu marido morreu na última campanha — disse, a voz embargada. — Não tenho como manter a casa.
O salão silenciou.
Ewan fechou a mão no braço do trono.
Rowena falou primeiro.
— O reino falhou com você — disse. — E nós não falharemos novamente.
Ewan respirou fundo.
— Sua família será sustentada pelos cofres reais até que seu filho tenha idade para aprender um ofício — declarou. — E quando esse dia chegar, ele será tratado como qualquer outro cidadão livre.
A mulher chorou, ajoelhando-se.
Rowena desceu do assento antes que qualquer guarda pudesse impedi-la e a ajudou a se levantar.
— Não se ajoelhe para agradecer o que é direito seu — disse.
Quando a última pessoa deixou o salão, o silêncio voltou a reinar.
Ewan olhou para Rowena.
— Você os escuta — disse.
— E você os protege — respondeu ela.
Por um instante, o trono não pareceu tão frio.
E, entre o povo, um murmúrio começou a se espalhar:
O Lobo tinha uma rainha de verdade.
A notícia não ficou dentro dos muros do castelo.
Desceu as escadas de pedra, atravessou os portões e espalhou-se pelas ruas estreitas da vila como o vento frio que vinha das colinas. No mercado, entre barracas de madeira e o cheiro de pão recém-assado, os camponeses comentavam em vozes baixas primeiro com cautela, depois com crescente confiança.
— Ouviu o que o rei fez hoje? — disse um homem de barba grisalha, ajeitando um saco de cevada no ombro. — Suspendeu o tributo do velho Salazar.
— Não só isso — respondeu uma mulher enrolada em um xale gasto. — Garantiu comida para a viúva de um soldado. Com o próprio selo.
Outro se aproximou, balançando a cabeça.
— Sempre disseram que o Lobo só sabia guerrear.
— Diziam — corrigiu a mulher. — Mas agora ele governa.
Um jovem aprendiz, ainda com as mãos sujas de fuligem, interveio:
— Foi a rainha. Ela falou com a gente como gente. Olhou nos olhos. Não desviou.
— Aye — concordou o homem mais velho. — Ela não treme diante dele. E ele não a cala.
Mais adiante, perto do poço, duas mulheres cochichavam enquanto enchiam baldes de água.
— Viu como ela ajudou a viúva a se levantar? — comentou uma. — Como se fosse alguém da família.
— E o rei deixou — respondeu a outra, surpresa. — Qualquer outro teria chamado os guardas.
— Talvez por isso funcione — murmurou a primeira. — Ele é o aço. Ela é a mão que segura.
Um grupo de crianças brincava de luta com gravetos, imitando batalhas antigas.
— Eu quero ser o Lobo! — gritou um deles.
— Então eu sou a rainha que manda ele parar! — respondeu outra, arrancando risadas.
Perto da taverna, um velho veterano de guerra, apoiado em uma bengala torta, observava tudo em silêncio. Quando um rapaz se aproximou e perguntou o que achava do novo reinado, ele cuspiu no chão e falou com voz firme:
— Já vi reis demais para acreditar em promessas vazias. Mas hoje… hoje vi equilíbrio.
Ele ergueu o olhar para o castelo distante.
— O Lobo sempre protegeu o território. Agora protege o povo. E isso… — fez uma pausa — …é obra de dois.
À medida que o dia avançava, o medo antigo começou a ceder lugar a algo novo. Não era euforia. Nem ingenuidade.
Era confiança cautelosa.
E, pela primeira vez em muitos invernos, os camponeses não falavam apenas de sobreviver ao frio.
Falavam de futuro.