I
As Terras Altas estavam envoltas por uma névoa espessa naquela madrugada. O vento uivava entre as torres de pedra do Castelo MacAllister, como se os próprios ancestrais observassem, atentos, o que estava prestes a acontecer.
Dentro do aposento real, tochas crepitavam lançando sombras dançantes nas paredes. O cheiro de ervas queimadas misturava-se ao som abafado da chuva contra as janelas estreitas.
— Força, minha rainha… o bebê está chegando — murmurou a parteira, com as mãos firmes e a voz grave.
A rainha Moira MacAllister apertou os lençóis com os dedos trêmulos. O suor escorria por sua testa, mas seus olhos permaneciam determinados. Ela não gritaria ,não naquela noite. Uma rainha das Terras Altas dava à luz com coragem.
Do lado de fora, o rei Alasdair MacAllister caminhava de um lado para o outro no corredor de pedra, a mão fechada sobre o cabo da espada. Um rei que havia enfrentado batalhas sangrentas, agora reduzido à impotência de esperar.
Então, o som ecoou.
Um choro forte, alto, cortando a madrugada como o toque de um corno de guerra.
A porta se abriu.
— É um menino, meu rei. Forte… muito forte.
Alasdair entrou apressado. Seus olhos endurecidos pela guerra suavizaram-se ao ver o pequeno embrulhado em linho, o rosto já marcado por sobrancelhas espessas e punhos cerrados.
— Ewan — disse Moira, exausta, porém sorrindo. — Ele se chamará Ewan.
O rei tomou o filho nos braços. O bebê agarrou seu dedo com surpreendente força, arrancando um riso baixo do homem.
— Um MacAllister de verdade — murmurou Alasdair. — Que os antigos reis o guiem… pois um dia, esta terra será dele.
Naquela noite, os sinos do castelo tocaram.
O herdeiro havia nascido.
..
Dez anos depois
O pátio de treinamento estava coberto de lama e gelo fino. O ar cortava os pulmões, e ainda assim o garoto não recuava.
— Outra vez! — ordenou o mestre de armas.
Ewan MacAllister girou a espada de madeira nas mãos pequenas, mas firmes. Seus cabelos loiros claros estavam grudados na testa pelo suor, e os olhos cinzentos como o céu de inverno permaneciam focados.
O adversário era mais velho. Mais forte.
Não importava.
Quando o ataque veio, Ewan não bloqueou. Ele avançou.
Um golpe rápido no flanco, outro nas pernas, e o garoto girou o corpo com precisão surpreendente, derrubando o oponente na lama sob murmúrios de espanto.
— Por todos os santos… — murmurou um dos soldados.
O mestre de armas ergueu a mão, encerrando o combate.
— Chega. — Ele observou o príncipe com atenção. — Você luta como alguém que não teme cair.
Ewan respirava com dificuldade, mas mantinha o queixo erguido.
— Porque um rei não pode temer o chão, senhor.
O silêncio caiu sobre o pátio.
Do alto da muralha, o rei Alasdair observava. Um sorriso discreto surgiu sob a barba grisalha. Não via mais apenas seu filho… via o futuro das Terras Altas.
Quando Ewan ergueu o olhar e encontrou o do pai, não sorriu. Apenas assentiu, sério demais para sua idade.
O lobo estava crescendo.
E um dia, lideraria a alcateia.