II

616 Words
Sete anos depois. O amanhecer nasceu pálido, como se o próprio céu hesitasse em testemunhar o que estava por vir. A névoa rastejava pelo vale de Glenarraidh, escondendo homens armados, lanças, escudos e o brilho frio do aço. Ewan MacAllister, agora com dezessete anos, montava seu cavalo branco com o corpo rígido e o olhar atento. Já não era o garoto do pátio de treino. Seus ombros haviam alargado, o rosto ganhara linhas duras, e a espada em sua cintura não era mais de madeira era aço forjado nas fornalhas do castelo de seu pai. O estandarte dos MacAllister tremulava atrás dele: o lobo cinzento sobre fundo verde-escuro. — Lembre-se do que eu lhe ensinei — disse o rei Alasdair, montado ao lado do filho. — Um príncipe lidera. Um rei sobrevive. Ewan assentiu. — Não lutarei atrás dos meus homens. Lutarei com eles. O rei sustentou o olhar do filho por um longo instante, então sorriu com orgulho contido. — Então volte vivo. O som de um chifre ecoou do outro lado do vale. Os MacLeòid, um clã antigo e feroz, avançavam. — ESCUDOS! — gritou o capitão. A linha se formou. O chão tremia sob passos pesados. O ar cheirava a ferro, suor e medo. Ewan puxou o elmo, sentindo o peso real da guerra pousar sobre seus ombros. — Por MacAllister! — ele gritou, erguendo a espada. — POR MACALLISTER! — centenas responderam. O choque foi brutal. Escudos colidiram como trovões. Lâminas rasgaram carne. Gritos substituíram a névoa. Ewan avançou junto à linha de frente. O primeiro inimigo veio com um machado alto demais. Ele girou o corpo, sentiu o vento do golpe passar, e respondeu com um corte profundo no abdômen. O homem caiu, o sangue quente respingando na mão de Ewan. Ele congelou por um segundo. Era diferente do treino. O peso. O cheiro. O som de alguém morrendo. Um segundo inimigo surgiu. Ewan não pensou reagiu. Bloqueou, empurrou, golpeou o pescoço com força suficiente para derrubar o homem. Sentiu a lâmina travar no osso. Puxou com dificuldade, o coração martelando no peito. — Príncipe! À esquerda! Ele se virou a tempo de erguer o escudo. O impacto o lançou para trás. Caiu na lama, o mundo girando. Um MacLeòid ergueu a espada para o golpe final. Ewan rolou, sentiu a lâmina raspar seu ombro, e fincou a própria espada na coxa do inimigo. O grito foi curto. Ewan se levantou, ofegante, e finalizou o combate com um golpe preciso no peito. Ao redor, o campo era um inferno aberto. Então viu o estandarte inimigo avançando, protegido por um grupo fechado. — Comigo! — gritou Ewan, a voz rouca, mas firme. Alguns homens o seguiram sem hesitar. Ele correu. A espada subia e descia quase por instinto. Um golpe no braço. Outro no flanco. O sangue tornava o chão escorregadio, mas Ewan não parava. Quando alcançou o porta-estandarte, saltou, derrubando-o com o peso do corpo. O símbolo dos MacLeòid caiu na lama. O vale pareceu prender a respiração. — Eles perderam o estandarte! — alguém gritou. O inimigo começou a recuar. O chifre dos MacAllister soou novamente desta vez, o som da vitória. Quando a batalha terminou, Ewan estava ajoelhado, a espada cravada no chão, as mãos tremendo. O sangue em sua armadura não era todo dele. O rei Alasdair aproximou-se, desmontou e colocou a mão no ombro do filho. — Hoje você nasceu pela segunda vez, Ewan. O jovem príncipe ergueu o olhar. Seus olhos não tinham mais a inocência da juventude apenas determinação. — E nunca esquecerei o preço, meu pai. No vale de Glenarraidh, os homens começaram a chamá-lo de algo novo. O Jovem Lobo das Terras Altas.
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