Sete anos depois.
O amanhecer nasceu pálido, como se o próprio céu hesitasse em testemunhar o que estava por vir. A névoa rastejava pelo vale de Glenarraidh, escondendo homens armados, lanças, escudos e o brilho frio do aço.
Ewan MacAllister, agora com dezessete anos, montava seu cavalo branco com o corpo rígido e o olhar atento. Já não era o garoto do pátio de treino. Seus ombros haviam alargado, o rosto ganhara linhas duras, e a espada em sua cintura não era mais de madeira era aço forjado nas fornalhas do castelo de seu pai.
O estandarte dos MacAllister tremulava atrás dele: o lobo cinzento sobre fundo verde-escuro.
— Lembre-se do que eu lhe ensinei — disse o rei Alasdair, montado ao lado do filho. — Um príncipe lidera. Um rei sobrevive.
Ewan assentiu.
— Não lutarei atrás dos meus homens. Lutarei com eles.
O rei sustentou o olhar do filho por um longo instante, então sorriu com orgulho contido.
— Então volte vivo.
O som de um chifre ecoou do outro lado do vale.
Os MacLeòid, um clã antigo e feroz, avançavam.
— ESCUDOS! — gritou o capitão.
A linha se formou. O chão tremia sob passos pesados. O ar cheirava a ferro, suor e medo.
Ewan puxou o elmo, sentindo o peso real da guerra pousar sobre seus ombros.
— Por MacAllister! — ele gritou, erguendo a espada.
— POR MACALLISTER! — centenas responderam.
O choque foi brutal.
Escudos colidiram como trovões. Lâminas rasgaram carne. Gritos substituíram a névoa.
Ewan avançou junto à linha de frente. O primeiro inimigo veio com um machado alto demais. Ele girou o corpo, sentiu o vento do golpe passar, e respondeu com um corte profundo no abdômen. O homem caiu, o sangue quente respingando na mão de Ewan.
Ele congelou por um segundo.
Era diferente do treino.
O peso. O cheiro. O som de alguém morrendo.
Um segundo inimigo surgiu.
Ewan não pensou reagiu.
Bloqueou, empurrou, golpeou o pescoço com força suficiente para derrubar o homem. Sentiu a lâmina travar no osso. Puxou com dificuldade, o coração martelando no peito.
— Príncipe! À esquerda!
Ele se virou a tempo de erguer o escudo. O impacto o lançou para trás. Caiu na lama, o mundo girando.
Um MacLeòid ergueu a espada para o golpe final.
Ewan rolou, sentiu a lâmina raspar seu ombro, e fincou a própria espada na coxa do inimigo. O grito foi curto. Ewan se levantou, ofegante, e finalizou o combate com um golpe preciso no peito.
Ao redor, o campo era um inferno aberto.
Então viu o estandarte inimigo avançando, protegido por um grupo fechado.
— Comigo! — gritou Ewan, a voz rouca, mas firme.
Alguns homens o seguiram sem hesitar.
Ele correu.
A espada subia e descia quase por instinto. Um golpe no braço. Outro no flanco. O sangue tornava o chão escorregadio, mas Ewan não parava.
Quando alcançou o porta-estandarte, saltou, derrubando-o com o peso do corpo. O símbolo dos MacLeòid caiu na lama.
O vale pareceu prender a respiração.
— Eles perderam o estandarte! — alguém gritou.
O inimigo começou a recuar.
O chifre dos MacAllister soou novamente desta vez, o som da vitória.
Quando a batalha terminou, Ewan estava ajoelhado, a espada cravada no chão, as mãos tremendo. O sangue em sua armadura não era todo dele.
O rei Alasdair aproximou-se, desmontou e colocou a mão no ombro do filho.
— Hoje você nasceu pela segunda vez, Ewan.
O jovem príncipe ergueu o olhar. Seus olhos não tinham mais a inocência da juventude apenas determinação.
— E nunca esquecerei o preço, meu pai.
No vale de Glenarraidh, os homens começaram a chamá-lo de algo novo.
O Jovem Lobo das Terras Altas.