III

552 Words
Os mortos ainda eram enterrados quando Ewan começou a observar. No vale de Glenarraidh, enquanto os homens celebravam a vitória ou choravam os caídos, o jovem príncipe caminhava entre os corpos, atento demais para alguém de apenas dezessete anos. Seus olhos não se fixavam nos rostos, mas nos erros. — Eles avançaram rápido demais — murmurou, agachando-se ao lado de um escudo quebrado. — Sem cobertura dos flancos. O capitão Duncan Fraser o observava de longe, intrigado. Aproximou-se com cautela. — A maioria dos jovens só vê sangue depois da primeira batalha. Ewan ergueu o olhar. — Eu vejo padrões. Ele se levantou e apontou para a encosta ao norte. — Se os MacLeòid tivessem colocado arqueiros ali, teriam quebrado nossa linha antes do choque. O terreno favorecia eles… e ainda assim avançaram cegos. Duncan franziu o cenho. — Você percebeu isso durante a luta? — Antes. — respondeu Ewan, sem hesitar. — Mas eles não pensam como caçadores. Pensam como martelos. O capitão sentiu um arrepio. Aquilo não era arrogância. Era clareza. Na noite seguinte, reunidos ao redor da fogueira, os homens pediram que Ewan falasse. Não por título mas por respeito. Ele desenhou no chão com a ponta da espada. — A guerra não começa quando as lâminas se tocam — disse. — Ela começa quando o inimigo pisa no campo errado. Os veteranos se inclinaram para ouvir. — Observem o vento. O terreno. O silêncio antes do ataque. Um homem que luta só com força morre cansado. Um homem que luta com a cabeça… escolhe quando o outro morre. Alasdair, à distância, percebeu algo que o perturbou e orgulhou ao mesmo tempo. Ewan não imitava ninguém. Ele intuía. Dias depois, um novo conflito surgiu. Batedores trouxeram notícias de um grupo MacLeòid remanescente avançando pelo desfiladeiro de Cael Mor, estreito demais para uma formação tradicional. O conselho sugeriu bloqueio. Ewan pediu a palavra. — Eles esperam isso. — Ele apontou o mapa de couro. — Se bloqueamos aqui, eles recuam e nos atacam pelos flancos amanhã. — E sua sugestão, príncipe? — perguntou um nobre, desconfiado. Ewan levantou-se. — Deixem-nos entrar. O murmúrio foi imediato. — Cael Mor tem um ponto onde o eco engole o som — continuou. — Quando eles estiverem no centro, faremos o ataque de cima e de trás. Não verão. Não ouvirão. Entrarão como caçadores… e sairão como presas. Silêncio. O rei Alasdair observou o filho longamente. — Você apostaria a vida dos nossos homens nisso? — Apostaria a minha primeiro. O plano foi aceito. A emboscada foi um m******e silencioso. Pedras rolaram primeiro. Depois flechas. Quando os MacLeòid perceberam, já estavam cercados. O desfiladeiro amplificava os gritos deles e abafava os dos MacAllister, como Ewan previra. Quando terminou, quase não houve perdas do lado de Ewan. Duncan se aproximou, o rosto sério. — Como sabia? Ewan limpou a lâmina, os olhos distantes. — A guerra fala. — disse baixo. — A maioria não escuta. Eu… sempre escutei. Naquela noite, sozinho, Ewan permaneceu acordado, observando as estrelas sobre as Terras Altas. Não sentia prazer na morte mas também não sentia hesitação. Ele compreendia a guerra como parte de si. Não era sede de sangue. Era instinto. E os homens começaram a dizer, em sussurros: “Quando o Lobo lidera, a batalha já está vencida.”
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD