LXV

1007 Words
A sala do conselho fervia. Não havia gritos ainda mas havia ódio contido, o tipo mais perigoso. Os conselheiros estavam de pé, alguns andando de um lado para o outro, outros apoiados em bastões, como se a madeira pudesse sustentar certezas antigas demais para ceder. — Isso já passou dos limites — rosnou um deles. — Mulheres diante dos portões pedindo espadas! — outro cuspiu as palavras. — Isso é consequência direta da influência da rainha. O mais velho bateu o bastão no chão. — Rowena MacAllister está corrompendo a ordem natural do reino. A porta se abriu. Rowena entrou. Sozinha. Não pediu permissão. Não abaixou a cabeça. Caminhou até o centro da sala com a postura de quem não implora espaço toma. O silêncio caiu como pedra. — Cuidado com as palavras que escolhem — disse ela, calma demais para ser ignorada. — Ou terei de presumir que falam sem pensar. — Vossa Majestade — começou o conselheiro mais velho, ríspido — isso não é lugar para… — É exatamente o meu lugar — interrompeu Rowena, firme. — Sou a rainha deste reino. E também sou mulher. Logo, tudo o que discutem aqui… diz respeito a mim. Alguns se remexeram, desconfortáveis. — Mulheres pedem o direito de lutar — continuou ela. — Não para guerrear por glória. Mas para sobreviver. — Sobreviver é papel dos homens — rebateu um conselheiro. Rowena virou-se lentamente para ele. — Então me diga — disse, a voz afiada — quem me defenderá se meu marido morrer? Um silêncio pesado. — E se eu precisar fugir? — prosseguiu. — Se precisar caçar para comer? Alimentar meus filhos? Esperar que um homem apareça para me salvar? Ninguém respondeu. Ela deu um passo à frente. — Ou preferem que mulheres morram corretamente… em vez de viverem preparadas? O conselheiro mais velho apertou o bastão. — A rainha está esquecendo seu lugar. Rowena sorriu. Mas não houve calor naquele gesto. — Não. — A voz dela baixou, tornando-se ainda mais perigosa. — Eu finalmente o compreendi. Ela caminhou até parar diante do conselheiro mais velho. Próxima o suficiente para que ele sentisse a presença dela. Para que entendesse que aquela mulher sabia exatamente o que fazia. — Diga-me, senhor — disse ela, clara, cortante — e se o senhor quiser me atacar? Alguns inspiraram bruscamente. — Se meu marido não estiver aqui… — continuou Rowena, sem elevar a voz — quem me defenderá? Ela sustentou o olhar dele. — Ou talvez a ideia de uma mulher que possa se defender seja exatamente o que lhes causa tanto medo. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Então, uma nova voz se fez ouvir. — Basta. Ewan estava à porta. O Lobo. Os conselheiros se viraram de imediato. Ewan caminhou até Rowena e parou ao lado dela não à frente, não atrás. Ao lado. — A rainha não é uma má influência — disse ele, frio como aço. — Ela é um espelho. E vocês não gostam do que veem. O mais velho tentou falar. Ewan ergueu a mão. — Esta decisão será minha — concluiu. — E aviso desde já: mulheres aprenderão a se defender neste reino. Ele olhou um por um. — Quem confundir tradição com covardia… pode se retirar. Ninguém se moveu. Rowena não sorriu. Mas, ao sair da sala ao lado de Ewan, ela disse. — Não precisa de defesa! Ewan sorriu com a audácia de Rowena. — És perigosa, Rowena. Ela levantou os olhos para ele. — Você que me escolheu. Ewan soltou um suspiro longo fingindo arrependimento. — Não pensei que me daria tanto trabalho. Rowena sorriu. O documento foi preparado naquela mesma noite. Pergaminho grosso. Selo real. A caligrafia firme de quem não recua. Ewan permaneceu sozinho na sala de escrita por longos minutos, a pena suspensa sobre o papel. Não por dúvida mas pelo peso do que estava prestes a se tornar lei. Quando começou a escrever, não houve adornos. Apenas verdade. Por decreto do Rei Ewan MacAllister, soberano destas terras altas, fica estabelecido que todas as mulheres sob a proteção do Reino MacAllister têm o direito de aprender a se defender e lutar. Não como afronta à ordem, mas como fortalecimento dela. A partir desta lua, os campos de treino do castelo estarão abertos às mulheres que assim desejarem: — Às quartas-feiras, no período da manhã — Às sextas-feiras, no período da noite Os soldados do castelo serão responsáveis pelo treinamento, sob disciplina, respeito e ordem. Que fique claro: força não é exclusividade de gênero, mas de coragem. Assim decreto. Assim se cumpre. Ewan assinou. O selo de cera foi pressionado com firmeza, marcando o símbolo do lobo. O destino estava selado. Na manhã seguinte, o comunicado foi lido em voz alta no pátio do castelo e depois levado às praças, tavernas e vilas. A reação foi imediata. Alguns homens cruzaram os braços, desconfiados. Outros assentiram em silêncio, respeitosos demais para contestar o rei que nunca perdera uma guerra. Mas entre as mulheres… Houve lágrimas. Houve mãos cobrindo a boca. Houve sorrisos incrédulos. Houve coragem nascendo. — Quartas de manhã… — Sextas à noite… — No campo do castelo… As palavras eram repetidas como se fossem promessa. No alto das muralhas, Rowena observava. Quando Ewan se aproximou, ela não disse nada de imediato. Apenas segurou a mão dele, com força. — Você mudou o reino — disse por fim. Ewan manteve o olhar fixo à frente. — Não. — A voz era baixa, firme. — Dei a ele a chance de mudar. Ela virou-se para ele, os olhos marejados. — Eles vão lembrar disso. Ewan olhou para ela então. — Não me importa se lembrarem de mim. — Pausa. — Importa que sobrevivam. Rowena sorriu. — Eu sabia que o Lobo protegeria a matilha inteira. Ele arqueou levemente a sobrancelha. — Não espalhe isso. Ela riu baixinho. Mas, naquele dia, enquanto mulheres caminhavam rumo ao castelo com passos decididos, uma verdade se tornava impossível de negar: O Reino MacAllister havia mudado. E nunca mais seria o mesmo
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