A sala do conselho fervia.
Não havia gritos ainda mas havia ódio contido, o tipo mais perigoso. Os conselheiros estavam de pé, alguns andando de um lado para o outro, outros apoiados em bastões, como se a madeira pudesse sustentar certezas antigas demais para ceder.
— Isso já passou dos limites — rosnou um deles.
— Mulheres diante dos portões pedindo espadas! — outro cuspiu as palavras. — Isso é consequência direta da influência da rainha.
O mais velho bateu o bastão no chão.
— Rowena MacAllister está corrompendo a ordem natural do reino.
A porta se abriu.
Rowena entrou.
Sozinha.
Não pediu permissão.
Não abaixou a cabeça.
Caminhou até o centro da sala com a postura de quem não implora espaço toma.
O silêncio caiu como pedra.
— Cuidado com as palavras que escolhem — disse ela, calma demais para ser ignorada. — Ou terei de presumir que falam sem pensar.
— Vossa Majestade — começou o conselheiro mais velho, ríspido — isso não é lugar para…
— É exatamente o meu lugar — interrompeu Rowena, firme. — Sou a rainha deste reino. E também sou mulher. Logo, tudo o que discutem aqui… diz respeito a mim.
Alguns se remexeram, desconfortáveis.
— Mulheres pedem o direito de lutar — continuou ela. — Não para guerrear por glória. Mas para sobreviver.
— Sobreviver é papel dos homens — rebateu um conselheiro.
Rowena virou-se lentamente para ele.
— Então me diga — disse, a voz afiada — quem me defenderá se meu marido morrer?
Um silêncio pesado.
— E se eu precisar fugir? — prosseguiu. — Se precisar caçar para comer? Alimentar meus filhos? Esperar que um homem apareça para me salvar?
Ninguém respondeu.
Ela deu um passo à frente.
— Ou preferem que mulheres morram corretamente… em vez de viverem preparadas?
O conselheiro mais velho apertou o bastão.
— A rainha está esquecendo seu lugar.
Rowena sorriu.
Mas não houve calor naquele gesto.
— Não. — A voz dela baixou, tornando-se ainda mais perigosa. — Eu finalmente o compreendi.
Ela caminhou até parar diante do conselheiro mais velho. Próxima o suficiente para que ele sentisse a presença dela. Para que entendesse que aquela mulher sabia exatamente o que fazia.
— Diga-me, senhor — disse ela, clara, cortante — e se o senhor quiser me atacar?
Alguns inspiraram bruscamente.
— Se meu marido não estiver aqui… — continuou Rowena, sem elevar a voz — quem me defenderá?
Ela sustentou o olhar dele.
— Ou talvez a ideia de uma mulher que possa se defender seja exatamente o que lhes causa tanto medo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Então, uma nova voz se fez ouvir.
— Basta.
Ewan estava à porta.
O Lobo.
Os conselheiros se viraram de imediato.
Ewan caminhou até Rowena e parou ao lado dela não à frente, não atrás.
Ao lado.
— A rainha não é uma má influência — disse ele, frio como aço. — Ela é um espelho. E vocês não gostam do que veem.
O mais velho tentou falar.
Ewan ergueu a mão.
— Esta decisão será minha — concluiu. — E aviso desde já: mulheres aprenderão a se defender neste reino.
Ele olhou um por um.
— Quem confundir tradição com covardia… pode se retirar.
Ninguém se moveu.
Rowena não sorriu.
Mas, ao sair da sala ao lado de Ewan, ela disse.
— Não precisa de defesa!
Ewan sorriu com a audácia de Rowena.
— És perigosa, Rowena.
Ela levantou os olhos para ele.
— Você que me escolheu.
Ewan soltou um suspiro longo fingindo arrependimento.
— Não pensei que me daria tanto trabalho.
Rowena sorriu.
O documento foi preparado naquela mesma noite.
Pergaminho grosso.
Selo real.
A caligrafia firme de quem não recua.
Ewan permaneceu sozinho na sala de escrita por longos minutos, a pena suspensa sobre o papel. Não por dúvida mas pelo peso do que estava prestes a se tornar lei.
Quando começou a escrever, não houve adornos.
Apenas verdade.
Por decreto do Rei Ewan MacAllister, soberano destas terras altas,
fica estabelecido que todas as mulheres sob a proteção do Reino MacAllister têm o direito de aprender a se defender e lutar.
Não como afronta à ordem, mas como fortalecimento dela.
A partir desta lua, os campos de treino do castelo estarão abertos às mulheres que assim desejarem:
— Às quartas-feiras, no período da manhã
— Às sextas-feiras, no período da noite
Os soldados do castelo serão responsáveis pelo treinamento, sob disciplina, respeito e ordem.
Que fique claro: força não é exclusividade de gênero, mas de coragem.
Assim decreto. Assim se cumpre.
Ewan assinou.
O selo de cera foi pressionado com firmeza, marcando o símbolo do lobo.
O destino estava selado.
Na manhã seguinte, o comunicado foi lido em voz alta no pátio do castelo e depois levado às praças, tavernas e vilas.
A reação foi imediata.
Alguns homens cruzaram os braços, desconfiados.
Outros assentiram em silêncio, respeitosos demais para contestar o rei que nunca perdera uma guerra.
Mas entre as mulheres…
Houve lágrimas.
Houve mãos cobrindo a boca.
Houve sorrisos incrédulos.
Houve coragem nascendo.
— Quartas de manhã…
— Sextas à noite…
— No campo do castelo…
As palavras eram repetidas como se fossem promessa.
No alto das muralhas, Rowena observava.
Quando Ewan se aproximou, ela não disse nada de imediato. Apenas segurou a mão dele, com força.
— Você mudou o reino — disse por fim.
Ewan manteve o olhar fixo à frente.
— Não. — A voz era baixa, firme. — Dei a ele a chance de mudar.
Ela virou-se para ele, os olhos marejados.
— Eles vão lembrar disso.
Ewan olhou para ela então.
— Não me importa se lembrarem de mim. — Pausa. — Importa que sobrevivam.
Rowena sorriu.
— Eu sabia que o Lobo protegeria a matilha inteira.
Ele arqueou levemente a sobrancelha.
— Não espalhe isso.
Ela riu baixinho.
Mas, naquele dia, enquanto mulheres caminhavam rumo ao castelo com passos decididos, uma verdade se tornava impossível de negar:
O Reino MacAllister havia mudado.
E nunca mais seria o mesmo