XXVIII

921 Words
O pátio de treinamento despertou antes do sol. A névoa ainda se agarrava às pedras quando Ewan surgiu, já vestido para a batalha túnica simples, botas gastas, espada à cintura. Não havia insígnia real. Ali, ele não era o rei. Era o Lobo. Rowena chegou pouco depois, usando roupas de treino adaptadas: calças firmes, túnica presa à cintura, cabelos presos de forma prática. Não havia joias. Não havia coroa. Apenas determinação. Os guerreiros começaram a se reunir, primeiro por rotina… depois por incredulidade. Sussurros correram pelo pátio. — É a rainha… — O rei permitiu isso…? — Isso não é adequado… Ewan ignorou todos. Parou diante de Rowena e lhe entregou uma espada de treino pesada o suficiente para ensinar respeito, leve o bastante para não ferir de início. — Não ajoelhes. — disse ele, seco. — Aqui não há trono. Rowena endireitou-se. — Entendido. — Também não facilitarei. — continuou. — Se caíres, levantarás. Se errar, corrigirei. Se desistires… Ela sustentou o olhar. — Não desistirei. Ewan assentiu uma única vez. — Empunhadura. Ele posicionou as mãos dela na espada com precisão quase brutal. — Força não vem dos braços. — disse. — Vem do centro. Se lutares só com os músculos, perderás. Ele se afastou um passo. — Ataca. Rowena hesitou apenas um segundo. Avançou. Ewan desviou com facilidade, girando a lâmina de treino e tocando o flanco dela com a ponta. — Morta. — disse. Alguns guerreiros trocaram olhares. Rowena apertou o maxilar. — De novo. Ewan não respondeu. Atacou primeiro. Ela bloqueou tarde demais, o impacto fazendo seus braços tremerem. — Postura errada. — disse ele. — Teu corpo anuncia o golpe antes da espada. — Como sabe? — Porque faço isso desde criança. — respondeu. Mais um ataque. Ela caiu de joelhos. O pátio ficou em silêncio. Ewan não estendeu a mão. — Levanta. Rowena levantou sozinha. Suja de poeira. Respirando forte. Os olhos firmes. — De novo. Os guerreiros começaram a perceber. Ele não a poupava. Ela não recuava. O treino seguiu duro. Golpes bloqueados, erros corrigidos com palavras secas, quedas que arrancavam o fôlego. O sol já estava alto quando Ewan finalmente ergueu a mão. — Basta por hoje. Rowena apoiou-se na espada, suada, ofegante, mas de pé. Os guerreiros observavam em silêncio absoluto. Um deles murmurou: — Ela não caiu como rainha… caiu como guerreira. Ewan virou-se para os homens. — Acostumem-se. — disse. — Ela treinará aqui todos os dias. Ninguém ousou contestar. Rowena respirou fundo e ergueu o olhar para ele. — Foi… pior do que imaginei. — disse, tentando conter um sorriso cansado. — Ainda foi leve. — respondeu. Ela riu, breve, sincera. E naquele pátio, entre aço, suor e olhares incrédulos, algo mudava. Não apenas a rainha. Mas a ideia de quem podia empunhar uma espada sob o olhar do Lobo. Os dias seguintes passaram a obedecer a um novo ritmo. Antes do sol tocar as muralhas, Rowena já estava no pátio. Ewan nunca se atrasava. Nunca elogiava. Nunca suavizava. O primeiro aprendizado foi o mais duro: cair sem medo. — O chão não é teu inimigo. — dizia ele, enquanto ela se levantava pela terceira vez com os joelhos ardendo. — O medo de cair é. Ele a fazia repetir movimentos simples até os músculos tremerem: postura, deslocamento, equilíbrio. Nada de golpes elaborados. Nada de glória. — Um guerreiro morre tentando impressionar. — dizia. — Vive tentando permanecer de pé. Os guerreiros observavam à distância, cada vez menos incrédulos e cada vez mais atentos. No terceiro dia, ela já não segurava a espada como um objeto estranho. No quinto, o corpo começava a antecipar o ataque antes da mente. No sétimo, ela bloqueou um golpe dele. Por um instante breve demais para virar celebração. Mas suficiente para que o pátio prendesse a respiração. Ewan recuou um passo. — Melhor. — disse. Era tudo. Mas, vindo dele, era imenso. Rowena descobriu músculos que não sabia existir. As mãos ficaram marcadas. Os braços, roxos. As costas, rígidas. Ela não reclamou. Quando caiu e o ar lhe faltou, levantou-se sem ajuda. Quando errou, ouviu. Quando acertou, percebeu sozinha porque Ewan não dizia. — A espada não obedece vontade. — dizia ele. — Obedece constância. À noite, Rowena m*l conseguia erguer os braços. Ewan observava em silêncio. Não oferecia conforto. Mas também não deixava que ela treinasse além do limite real. — Um guerreiro ferido é inútil. — dizia. — Um governante também. Aos poucos, os sussurros mudaram. — Ela aprende rápido. — O rei não está ensinando… está formando. — Ela aguenta mais do que muitos recrutas. Alguns guerreiros começaram a ajustar a postura ao vê-la passar. Não por medo. Por respeito. Rowena notava. E mantinha o queixo erguido. Em um dos treinos, Ewan atacou sem aviso. Rowena reagiu por instinto, girando o corpo e evitando o golpe por um fio. Ele parou. A analisou por longos segundos. — Não pensaste. — disse. — Não. — respondeu, ainda ofegante. — Bom. — disse ele. — Pensar é tarde demais. Ele se afastou. — Estás começando a ouvir o campo de batalha. Ela sorriu, cansada, mas viva. À noite, nos aposentos, o silêncio entre eles já não era vazio. Era cúmplice. Não falavam do treino. Mas Ewan observava as mãos dela, mais firmes. Rowena observava os olhos dele, menos distantes. Nada era dito. Mas ambos sabiam: Ela não estava apenas aprendendo a lutar. Estava sendo forjada. E o Lobo… Não ensinava qualquer um. Ele só formava aqueles que julgava dignos de sobreviver.
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