LXXV

1096 Words
As semanas que se seguiram mudaram o reino de forma silenciosa e irreversível. No campo de treino do castelo, o som de aço contra aço já não vinha apenas das mãos dos homens. Vozes femininas misturavam-se às ordens dos capitães. Passos firmes, respiração controlada, posturas corrigidas com rigor. No início, muitas chegavam tímidas. Algumas com mãos calejadas do campo. Outras com medo nos olhos. Algumas carregando mais dúvidas do que força. Mas todas com o mesmo motivo: não querer mais ser indefesa. Os soldados estranharam. Não por desprezo mas por surpresa. Mulheres que tropeçavam na primeira semana, agora mantinham guarda firme. Braços que tremiam ao erguer espadas, agora sustentavam o peso com orgulho. Olhares antes baixos, agora enfrentavam. Rowena estava presente em quase todos os treinos. Não como espectadora distante. Ela treinava junto. Caía junto. Sangrava junto. E isso fazia toda a diferença. — A rainha não pede nada que não faça — murmuravam os soldados. Ewan observava à distância. Sempre em silêncio. Sempre atento. Havia uma em especial Mairi, filha de um curtidor. Pequena, rápida, feroz. Outra, Elspeth, viúva de guerra, forte como carvalho velho. E Fiona, que m*l sabia segurar uma lâmina, mas nunca faltava a um treino. Ewan passou a notar padrões. Não apenas força… mas instinto. — Ela pensa antes de atacar — comentou com o capitão Fergus, observando Mairi desarmar um oponente. — Ela aguenta dor — disse, ao ver Elspeth continuar mesmo com o braço marcado. — E aquela — apontou para Fiona — aprende rápido porque escuta. O capitão assentiu, impressionado. — São guerreiras, Majestade. Só nunca tiveram permissão. Ewan não respondeu. Mas algo em seu olhar mudou. No final do primeiro mês, ele fez algo inesperado. Desceu ao campo. Pegou uma espada de treino. As mulheres pararam imediatamente. O silêncio foi absoluto. — Continuem — ordenou ele. Rowena o observou de canto de olho, surpresa. Ewan começou a corrigir posições, ajustar empunhaduras, testar reflexos. Sem suavidade. Sem favoritismo. Como fazia com qualquer soldado. Quando uma das mulheres caiu, ele não a levantou. — De pé — disse apenas. Ela se levantou. Os soldados trocaram olhares. O lobo as aceitava. Com o passar dos meses, os efeitos chegaram ao povo. Assaltos diminuíram. Mulheres caminhavam mais seguras. Camponeses falavam com orgulho das filhas que treinavam no castelo. — Minha menina sabe se defender — dizia um pai, com lágrimas nos olhos. — Nunca mais vou enterrar uma filha por covardia alheia — disse outra mãe. O medo começou a mudar de lado. No castelo, numa noite silenciosa, Rowena apoiou o queixo no ombro de Ewan, observando o campo vazio pela janela. — Você vê? — murmurou ela. — Não são só espadas. É dignidade. Ewan demorou a responder. — Um exército não é feito apenas de soldados — disse por fim. — É feito de pessoas que não fogem. Ele virou o rosto para ela. — Você deu isso a elas. Rowena sorriu, cansada… mas plena. — Nós demos. Ewan assentiu. Naquele momento, o reino ainda não sabia. Mas estava nascendo algo perigoso para inimigos antigos: Um povo que não se curva. Uma rainha que não recua. E um rei que protege não apenas com a espada, mas com escolhas que mudam gerações. O lobo continuava à frente. Mas agora… ele não caminhava sozinho. O campo de treino já não era o mesmo a meses. Onde antes havia hesitação, agora havia ritmo. Onde havia medo, havia cálculo. O som das espadas não era caótico era coordenado. Ewan observava do alto da muralha interna, braços cruzados, olhos claros analisando cada movimento como se estivesse diante de um mapa vivo. À sua frente, mulheres enfrentavam soldados do rei. E não recuavam. — Troquem — ordenou o capitão Fergus. Os pares mudaram. Uma mulher contra um soldado experiente. No início, alguns homens ainda hesitavam. Não por incapacidade mas por hábito antigo. Isso durava pouco. A primeira desarmada veio rápida. Mairi girou o pulso no momento exato, usou o peso do próprio adversário contra ele e o jogou ao chão. O soldado rolou, rindo, sem fôlego. — De novo — disse ele, já se levantando. — Você quase quebrou meu orgulho. Elspeth bloqueou um golpe pesado, avançou sem medo e pressionou até o soldado recuar dois passos. Fiona, menor, mais leve, usava agilidade. Evitava o confronto direto, cansava o oponente, atacava quando ele errava. Ewan inclinou levemente a cabeça. Eles não lutavam como os homens. Lutavam diferente. — Veja isso — murmurou ele para Fergus. — Elas não buscam força bruta. Buscam falhas. O capitão assentiu. — Aprenderam rápido, Majestade. E sem arrogância. — Porque nunca foram ensinadas a vencer por orgulho — respondeu Ewan. — Apenas a sobreviver. Um soldado caiu de joelhos após levar um golpe preciso na lateral do corpo. Outro ergueu a mão, rendendo-se. O campo inteiro irrompeu em aplausos espontâneos. Rowena estava à frente do grupo feminino, suor no rosto, respiração firme. Ela levantou a espada em saudação. Os soldados responderam, batendo as lâminas nos escudos. Ewan desceu. Caminhou até o centro do campo. O silêncio voltou a cair como um manto. — Hoje — disse ele, alto o bastante para todos ouvirem — vocês provaram algo que nenhum mapa poderia mostrar. Ele olhou para as mulheres. — Vocês não substituem nossos soldados. Alguns homens prenderam a respiração. — Vocês os completam. O campo explodiu em gritos e aplausos. Ewan virou-se para os capitães. — Anotem isso: meu reino agora tem mais combatentes do que qualquer reino vizinho. — Seu olhar ficou afiado. — E combatentes que lutam para proteger casa, filhos e futuro. Ele voltou-se novamente às mulheres. — Não serão usadas como escudo. — Pausa. — Mas jamais serão deixadas indefesas outra vez. Rowena sentiu o peito apertar. Orgulho. Respeito. E algo mais profundo. Mais tarde, sozinhos, Ewan observava mapas espalhados sobre a mesa. Rowena se aproximou. — Já está contando números — comentou ela, com um meio sorriso. — Sempre contei — respondeu ele. — Só que agora… o mapa mudou. Ele marcou pontos com carvão. — Se um reino vizinho avançar, eles não enfrentarão apenas homens cansados de guerra. — Olhou para ela. — Enfrentarão um povo inteiro preparado. Rowena tocou o ombro dele. — Você criou algo que nenhum rei ao redor previu. Ewan fechou o punho lentamente. — Não. — Ele a encarou. — Nós criamos. Lá fora, o vento carregava vozes do campo de treino. Risos. Ordens. Determinação. O lobo via além da batalha imediata. E o que ele via… era um reino que não apenas resistiria mas dominaria o próprio destino
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