LI

1058 Words
O dia amanhecera cinzento, como tantos outros naquele inverno. A sala de mapas estava silenciosa, iluminada apenas pela luz que entrava pelas janelas estreitas e pelo brilho suave de tochas presas às paredes de pedra. Ewan estava inclinado sobre a grande mesa central. Mapas abertos, marcados com pedras, símbolos entalhados em madeira e riscos feitos à mão. Seus dedos percorriam fronteiras, estradas, montanhas. O mundo, para ele, sempre fora algo a ser lido como um campo de batalha. A porta se abriu sem alarde. Ewan não ergueu o olhar. Sabia quem era. Rowena entrou com passos calmos, respeitando o silêncio do lugar. Vestia roupas simples, adequadas ao treino que faria mais tarde, mas trazia nos olhos a curiosidade que nunca tentava esconder. Ela passou pela mesa sem interrompê-lo. Foi até a parede oposta. Ali, dispostas com um cuidado quase cerimonial, estavam as espadas. Longas e curtas. Largas e finas. Algumas marcadas por entalhes antigos, outras limpas, perfeitas, como se jamais tivessem provado sangue embora ambas o tivessem feito. Rowena se aproximou lentamente, como quem entra num território sagrado. — Você cuida delas como se fossem vivas — disse, quase num sussurro. Ewan ergueu o olhar, observando-a de perfil. — Para mim, são — respondeu. — Cada uma carrega uma escolha. Rowena passou os dedos a poucos centímetros do metal, sem tocá-lo. — Posso? — perguntou. Ewan assentiu. Ela tocou a empunhadura de uma espada média, simples, sem ornamentos. — Esta… parece diferente. — Foi feita para resistência, não para beleza — explicou ele, fechando os mapas e caminhando até ela. — Usei-a em três campanhas seguidas. Rowena virou-se para ele. — Você disse “feita”. — Franziu levemente a testa. — Quem as forjou? Ewan parou ao lado dela. — Eu. Rowena piscou, surpresa. — Todas? — Todas — confirmou. — Exceto uma. Ele caminhou até o início da coleção e retirou uma espada envolta em couro escuro, mais gasta, mais antiga. O metal não brilhava como os outros, mas havia nela uma presença quase solene. — Esta foi a primeira — disse. — Meu pai me deu quando eu tinha doze anos. Rowena observou a lâmina com respeito. — Foi quando decidiu que seria um guerreiro? Ewan demorou um instante para responder. — Não — disse por fim. — Foi quando ele decidiu por mim. Rowena sentiu o peso daquela frase. — Mesmo assim… você a manteve — comentou. — Porque me ensinou algo importante — respondeu ele. — Nem todas as escolhas começam como nossas. Mas podemos decidir o que fazer com elas. Ele entregou a espada a Rowena. Ela a segurou com cuidado, sentindo o peso real, honesto, do aço. — É mais pesada do que parece — disse. — Como o trono — respondeu ele, sem desviar o olhar. Rowena sorriu de leve. — E ainda assim… você não a largaria. Ewan a observou por um longo momento. — Não — disse. — Nem você largará o seu. Ela devolveu a espada com cuidado, os dedos demorando um segundo a mais do que o necessário a soltá-la. — Obrigada por confiar isso a mim — disse. Ewan recolocou a lâmina no lugar. — Quem entende o aço — respondeu — entende a verdade. E você… entende mais do que imagina. O silêncio voltou a preencher a sala, mas não era vazio. Era feito de respeito. E de algo que começava, lentamente, a se afiar. Rowena permaneceu diante da parede por mais alguns instantes, o olhar vagando entre as lâminas como se cada uma lhe contasse uma história diferente. Então respirou fundo, reunindo uma coragem que não vinha do campo de batalha, mas de um desejo antigo demais para ser contido. — Ewan… — chamou, virando-se para ele. Ele já a observava. — Eu queria uma espada também. A frase saiu simples, direta. Sem pedidos adornados. Sem justificativas longas. Ewan não respondeu de imediato. Avaliou-a como sempre fazia —não como marido, não como rei, mas como estrategista. Mediu postura, tom de voz, firmeza no olhar. Não havia capricho ali. Nem impulso infantil. Havia intenção. — Para treinar — continuou Rowena, antes que o silêncio se tornasse uma recusa. — Não como símbolo. Não para exibição. Mas para aprender de verdade. Ela deu um passo à frente. — Sei que não é comum. Sei o que dirão. Mas também sei o que sou capaz de aprender. Ewan cruzou os braços lentamente. — Uma espada não é um adorno — disse. — Ela exige escolhas difíceis. E cobra cada erro. — Eu sei — respondeu Rowena. — Já aprendi isso observando você. E sentindo na própria pele. Ele a encarou por mais alguns segundos. Então se virou, caminhando até uma mesa lateral onde havia ferramentas de metal, moldes e pedaços de aço ainda bruto. Rowena arregalou levemente os olhos ao perceber que aquela não era apenas uma sala de guerra… mas também de criação. — Não lhe darei qualquer espada — disse ele, sem olhar para trás. — Se for ter uma, será feita para você. Rowena sentiu o coração bater mais rápido. — Você faria…? — Sim — interrompeu ele. — Como fiz as outras. Ele pegou um bloco de aço e o ergueu levemente, avaliando peso e densidade. — Qual o seu braço dominante? — perguntou. — Direito. — Força média, mas crescente — continuou, como se estivesse traçando um plano de batalha. — Sua postura favorece equilíbrio, não impacto bruto. Rowena piscou. — Você já pensou nisso antes? Ewan a olhou então. — Um rei sempre observa o que protege. O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais quente. Mais perigoso. — Quero que ela me represente — disse Rowena, por fim. — Não como rainha apenas… mas como alguém que escolhe lutar. Ewan assentiu uma única vez. — Então não será grande demais — disse. — Nem ornamentada. Será rápida. Precisa. Honesta. Ele colocou o bloco de aço sobre a mesa. — Quando estiver pronta, você saberá — concluiu. Rowena sorriu, um sorriso que não cabia nos protocolos da corte. — Obrigada, Ewan. Ele voltou-se para os mapas, como se aquilo fosse apenas mais uma decisão estratégica. Mas, por dentro, o Lobo reconhecia: Forjar uma espada era fácil. Difícil… era forjar quem a empunharia. E, naquele momento, ele já sabia: A lâmina de Rowena não seria feita apenas de aço
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