Rowena despertou.
O quarto ainda estava mergulhado em sombras frias, o ar denso do norte entrando pelas frestas de pedra. Ela virou-se por hábito e então percebeu.
Ewan estava imóvel demais.
A respiração, curta.
A pele, úmida.
Rowena levou a mão à testa dele.
Quente. Quente demais.
— Ewan… — chamou em voz baixa.
Os olhos azuis se abriram lentamente, lúcidos, atentos demais para alguém doente.
— Já estou acordado — murmurou. — Tenho reunião com o conselho.
Ela não retirou a mão.
— Tens febre.
— Não é nada.
— Não é uma pergunta.
Ele tentou se erguer, mas Rowena pressionou o ombro dele com firmeza surpreendente.
— Deita.
Ewan a encarou, incrédulo.
— Estás me dando ordens?
— Estou te proibindo de trabalhar — respondeu ela, fria e precisa. — Como tua rainha.
— Não preciso de—
— Nem termine a frase.
Ele virou o rosto, irritado.
— Chamarei os curandeiros.
— Não.
Isso o fez voltar-se bruscamente para ela.
— Como assim, não?
— Não confio neles, não totalmente — disse Rowena. — Não confio que ficarão em silêncio se te virem fraco.
Ewan estreitou os olhos.
— Eu não sou fraco.
Rowena inclinou-se até ficar à altura do rosto dele.
— Eu sei. — disse com suavidade firme. — Mas estás doente.
O silêncio caiu entre eles, pesado.
— Não chamarei ninguém — concluiu ela. — Eu cuidarei de ti.
— Isso é—
— Prudente. — interrompeu. — E estratégico. O rei não aparece doente. O rei se recupera.
Ele a observou por longos segundos.
O lobo, avaliando.
Por fim, recostou-se novamente no travesseiro.
Rowena não sorriu. Apenas se levantou.
Ela trouxe água fresca, panos limpos, ervas que aprendera a reconhecer desde jovem. Molhou o tecido e voltou a pousá-lo na testa dele, com cuidado.
Ewan fechou os olhos por um instante.
— Não precisas fazer isso — disse, a voz mais baixa.
— Preciso, sim.
Ela sentou-se à beira da cama.
— Sempre foste o que cuida de todos — continuou. — Hoje, alguém cuida de ti.
Ele abriu os olhos de novo.
— Se o conselho perguntar—
— Direi que o rei está em oração. — respondeu ela. — Ou em planejamento. Eles nunca saberão a diferença.
Um quase-sorriso surgiu no canto da boca dele.
Quase.
Horas se passaram.
Rowena trocou os panos, fez Ewan beber água, ignorou cada tentativa dele de se levantar. Quando ele resmungou, ela apenas ergueu a sobrancelha.
— Não ouse levantar Ewan MacAllister, é uma ordem da tua rainha.
Ele se rendeu imediatamente.
No meio da tarde, a febre começou a ceder.
Ewan respirava mais lento.
— Ficaste aqui o tempo todo? — murmurou, sem abrir os olhos.
— Sim.
— Não comeste.
— Não importa.
Ele abriu os olhos então, de verdade.
— Importa.
Rowena encontrou o olhar dele.
— Descansa, meu rei — disse baixinho. — O reino sobreviverá a um dia sem teu aço.
Ewan fechou os olhos novamente.
Pela primeira vez em muito tempo,
o grande lobo das guerras dormiu sem vigiar o mundo
porque alguém, finalmente, vigiava por ele