XXV

1071 Words
O amanhecer m*l tocara as muralhas quando a porta dos aposentos reais foi aberta com urgência contida. Um mensageiro ajoelhou-se. — Majestade… — a voz falhou — o vosso pai faleceu antes do nascer do sol. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ewan levantou-se da cama sem uma palavra. Vestiu-se com a precisão de sempre, como se fosse apenas mais um dia de decisões. Não houve gesto brusco. Não houve mudança visível em sua expressão. — Organizem os ritos. — disse, firme. — Avisem o conselho. O reino não deve acordar sem ordem. O mensageiro saiu. Rowena observava. Não interferiu. Não tentou consolar algo que ainda não se revelara. Nos dias que se seguiram, Ewan foi impecável. Participou dos ritos fúnebres sem falhar. Permaneceu ereto durante as homenagens. Recebeu emissários. Confirmou decretos. Dormiu pouco mas isso não era novidade. Para todos, o Lobo estava intacto. Mas Rowena começou a notar o que ninguém mais via. Ele treinava mais cedo. Dormia menos. Falava menos ainda. E, quando ficava em silêncio, não era descanso. Era contenção. Na terceira noite após o funeral, Rowena encontrou Ewan sozinho na sala de armas. Ele limpava uma espada antiga. A espada do pai. Rowena aproximou-se sem anunciar a presença. — Essa lâmina não precisa de mais cuidado. — disse ela, por fim. Ewan não levantou os olhos. — Precisa. — respondeu. — Tudo precisa. Ela observou o ritmo repetitivo, quase obsessivo. — Estás tentando ser forte até para ti mesmo. — disse, sem acusação. A mão dele parou. Mas apenas por um segundo. — Um rei não pode se permitir— — Um homem pode. — interrompeu ela, com voz baixa. Ewan ergueu o olhar lentamente. — Não agora. Rowena deu mais um passo. — Não estou falando de chorar diante do reino. — disse. — Estou falando de não transformar a dor em mais uma batalha silenciosa. Ele voltou a olhar para a espada. — Meu pai viveu e morreu como rei. — disse. — Não posso— — Ele viveu e morreu como teu pai. — respondeu ela. O golpe foi preciso. Ewan inspirou fundo. Não respondeu de imediato. — Se eu parar… — disse ele por fim — o que sobra? Rowena não respondeu com pressa. — Sobra o homem que ele criou. — disse. — E isso não enfraquece o trono. Ela apoiou a mão na mesa, próxima à dele. — Governar sem sentir dor não é força. — continuou. — É vazio. Ele fechou os olhos por um instante. Apenas um. Mas foi suficiente. — Não sei como fazer isso. — disse, quase inaudível. Rowena não tocou nele. Não ainda. — Então não faças. — disse. — Apenas permite. Silêncio. A lâmina escorregou lentamente da mão dele e repousou sobre a mesa. Não caiu. Foi colocada. Um gesto pequeno. Mas definitivo. Naquela noite, Ewan falou pouco. Mas quando se deitou, não virou de costas imediatamente. Rowena permaneceu em silêncio ao lado dele. Não houve palavras de consolo. Apenas presença. E, pela primeira vez desde a morte do pai, o Lobo não vigiou sozinho. Ele não chorou. Ainda. Mas deixou de lutar contra a própria dor. E isso, Rowena sabia, era o começo do luto verdadeiro. A noite avançara fria, mais dura que as anteriores. O vento das Terras Altas atravessava a varanda como lâmina, fazendo as cortinas se moverem em silêncio inquieto. Rowena despertou sem saber exatamente por quê talvez instinto, talvez o mesmo sentido que aprendera a usar ao governar ao lado dele. Virou-se. O lado de Ewan estava vazio. Ela sentou-se devagar, o coração atento. Não houve pressa. Apenas certeza. Levantou-se e seguiu o fluxo de ar gelado. E o encontrou. Ewan estava parado na varanda, sem manto, apenas a túnica leve da noite. As mãos apoiadas na pedra, o olhar fixo no nada não nas montanhas, não no céu, mas em um ponto invisível que só ele via. O vento cortava-lhe os cabelos claros, que se moviam livres sobre os ombros. A postura era rígida demais para alguém em repouso. Ele não estava apenas acordado. Estava segurando-se. Rowena parou a alguns passos de distância. Observou por um momento. O Lobo não tremia de frio. Tremia de contenção. — Vais congelar se continuar aí. — disse ela, em tom baixo. Ewan não respondeu. — Não precisa ficar sozinho para provar nada. — continuou. Silêncio. Ela deu mais um passo. — Ele morreu… — disse, finalmente — e isso não te faz menor. A respiração dele falhou. Foi mínimo. Mas real. Rowena sentiu o peso da decisão antes mesmo de tomá-la. Governar ao lado de Ewan exigira inteligência, frieza, estratégia. Mas aquilo… aquilo exigia algo que ela sempre controlara com rigor. Proximidade. Ela se aproximou até estar atrás dele. Por um instante, hesitou. Não por medo dele mas por respeito ao que ele sempre fora. Então, tomou a decisão mais difícil desde que se tornara rainha. Rowena envolveu Ewan com os braços. Não foi um gesto delicado. Foi firme. Ancorado. Inevitável. Ela apoiou a testa no pescoço dele, sentindo o frio da pele, a rigidez do corpo que não sabia mais relaxar. Ewan inspirou bruscamente. — Não… — começou, quase num reflexo. Mas não se afastou. Os ombros dele cederam um centímetro. Depois outro. O Lobo não se virou. Não chorou. Não caiu. Mas deixou-se segurar. Rowena apertou um pouco mais. — Não estou aqui para te quebrar. — murmurou. — Estou aqui para te manter inteiro. O vento continuava cortante, mas agora havia algo entre ele e o vazio. Ewan fechou os olhos. — Ele sempre soube o que eu me tornaria… — disse, a voz rouca. — E mesmo assim… exigiu que eu fosse mais. Rowena não respondeu com palavras. Apenas permaneceu. Por longos minutos, ficaram assim: o rei que nunca recuava e a rainha que, naquela noite, não exigiu força ofereceu abrigo. Quando Ewan finalmente se moveu, foi apenas para pousar uma das mãos sobre o braço dela. Não para afastar. Para confirmar. — Não me acostumes com isso. — disse, baixo. Rowena inclinou a cabeça levemente. — Não pretendo. — respondeu. — Apenas não te deixarei sozinho quando não deves estar. O vento continuou a soprar. Mas, naquela varanda, pela primeira vez desde a morte do pai, o Lobo não encarava o vazio sozinho. E algo silencioso, profundo e irrevogável se ajustou entre eles. Não amor ainda. Não promessa. Mas vínculo sincero. E isso… mudava tudo.
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