O pátio de treinamento ainda estava coberto pela névoa quando Ewan chegou.
O frio mordia a pele, típico das manhãs do norte, e o chão de terra escura guardava as marcas de incontáveis batalhas simuladas. Alguns guerreiros já estavam ali, aquecendo em silêncio e todos pararam quando viram quem vinha logo atrás do rei.
Rowena.
Vestia roupas simples de treino, sem adornos reais. Cabelos presos firmemente, postura ereta. Nenhuma joia. Nenhum símbolo além de quem ela era.
Os murmúrios surgiram baixos.
— A rainha voltou…
— Depois do ferimento…
— O rei permitiu…
Ewan lançou um único olhar ao redor.
O silêncio caiu.
Ele caminhou até o centro do pátio e virou-se para ela.
— Começamos do princípio. — disse. — Não pouparei teu corpo nem teu orgulho.
Rowena assentiu.
— Não lhe pedi isso.
Ele entregou-lhe uma espada de treino.
— Empunhadura firme. — corrigiu de imediato, ajustando a mão dela sem delicadeza. — Se tua lâmina vacilar, teu braço cai.
Rowena respirou fundo e ajustou a postura.
— Outra vez. — ordenou ele.
Ela atacou.
Ewan desviou com facilidade, girando o punho dela e a fazendo perder o equilíbrio.
Ela caiu de joelhos.
Não reclamou.
Levantou-se.
— Outra vez. — pediu.
Ewan arqueou uma sobrancelha.
— Boa resposta.
O treino seguiu duro.
Golpe após golpe, defesa após defesa. Ele a empurrava até o limite corrigindo cada erro, exigindo precisão, cobrando resistência.
— Olhos no oponente!
— Teu pé esquerdo está lento!
— Antecipe, não reaja!
O suor começou a marcar a testa dela. O braço ferido protestou, mas Rowena manteve a lâmina firme.
Um dos guerreiros cochichou:
— Ela não recua…
— Como o rei. — respondeu outro.
Em determinado momento, Ewan atacou com mais força.
Rowena quase caiu… mas girou o corpo no último segundo e conseguiu bloquear.
O impacto ecoou.
O pátio ficou em silêncio.
Ewan ficou imóvel por um instante.
— Melhor. — disse. — Muito melhor.
Rowena ofegava, mas o olhar estava aceso.
— Não terminei.
Ele inclinou a cabeça.
— Nem eu.
Continuaram.
Até que os braços dela tremessem. Até que a respiração se tornasse pesada. Até que o frio fosse substituído pelo calor do esforço.
Por fim, Ewan ergueu a mão.
— Chega.
Rowena hesitou.
— Ainda posso—
— Já provaste o suficiente por hoje. — disse ele. — O treino constrói. O excesso destrói.
Ela abaixou a espada lentamente.
Ewan aproximou-se.
— Estás aprendendo a cair sem quebrar. — disse, em tom baixo. — Isso é mais raro do que força.
Rowena ergueu o olhar para ele.
— E tu estás aprendendo a confiar.
O comentário o pegou de surpresa.
Ele sustentou o olhar dela por um instante… depois virou-se.
— Amanhã, continuamos. — disse. — Mais cedo.
Rowena sorriu, cansada, mas firme.
Enquanto ela se afastava, os guerreiros observavam em silêncio reverente.
Naquele pátio, naquela manhã, ficou claro para todos:
A rainha não treinava para ser protegida.
Ela treinava
para permanecer de pé ao lado do Lobo
quando a próxima guerra chegasse.
Os dias que se seguiram moldaram Rowena.
Não com suavidade.
Mas com constância.
O sol m*l surgia quando ela já estava no pátio, o frio cortando a pele, o chão úmido sob os pés. Ewan sempre chegava primeiro ou fingia chegar depois, apenas para observar.
No início, os erros eram muitos.
— Teu centro está exposto.
— Estás atacando com emoção demais.
— Respira antes do golpe.
Rowena ouvia.
Corrigia.
Repetia.
Caiu inúmeras vezes. Levantou-se todas.
Com o passar dos dias, algo mudou.
O corpo aprendeu o peso da lâmina.
Os pés aprenderam a antecipar o terreno.
Os olhos começaram a ler movimentos antes que acontecessem.
Ewan passou a falar menos.
Quando corrigia, eram palavras curtas.
— Agora.
— Melhor.
— De novo.
Os guerreiros notaram.
— Ela não trava mais.
— Os movimentos… estão mais limpos.
— Está começando a pensar como um combatente.
Em um dos treinos, Ewan atacou sem aviso.
Rowena desviou.
O choque das lâminas ecoou.
Ela girou o corpo, mudou a empunhadura e respondeu com um golpe preciso, obrigando Ewan a recuar um passo.
Apenas um.
Mas foi suficiente.
O pátio ficou em silêncio.
Ewan a encarou.
— Não hesitaste. — disse.
— Aprendi contigo. — respondeu ela, ofegante.
Ele assentiu.
A partir desse dia, o treino mudou de nível.
Simulações de combate real.
Ataques inesperados.
Exercícios até a exaustão.
Rowena passou a resistir.
A dor ainda vinha. O cansaço ainda existia.
Mas o medo… não.
Em uma manhã chuvosa, o chão escorregadio traiu seu pé. Ela quase caiu quase mas cravou o joelho no chão, girou o corpo e manteve a lâmina erguida.
— Continua. — ordenou Ewan.
Ela continuou.
Ao final daquele treino, Ewan entregou-lhe uma espada diferente.
Mais pesada.
— Já não és iniciante. — disse.
Rowena sentiu o peso.
E sorriu.
— Confias em mim. — afirmou.
— Confio no que construíste. — respondeu ele.
Os soldados já não observavam com incredulidade.
Observavam com respeito.
Alguns inclinavam a cabeça quando ela passava.
Outros comentavam em voz baixa:
— A rainha luta.
— E luta bem.
— Não é símbolo… é lâmina.
Em certa manhã, Ewan a fez lutar contra dois homens alternadamente, nunca juntos.
Ela perdeu. Muitas vezes.
Mas não foi derrubada sem resposta.
— Estás aprendendo a perder sem quebrar. — disse ele depois. — Isso te manterá viva.
Rowena limpou o suor do rosto.
— E vencer virá depois?
— Vencer é consequência. — respondeu. — Sobreviver é escolha.
Quando a semana terminou, Rowena m*l reconhecia o próprio corpo.
Mais forte.
Mais firme.
Mais consciente.
Ewan a observava com um olhar novo.
Não de mestre avaliando uma aluna.
Mas de guerreiro reconhecendo outro.
O aço tinha aprendido o ritmo.
E o Lobo sabia:
Se algum dia Rowena precisasse lutar não como rainha,
mas como combatente…
Ela não cairia facilmente.
E isso mudava tudo