Ewan levantou-se como sempre, antes do sol. Vestiu-se em silêncio. Preparou-se para o dia. Mas, antes de sair do quarto, parou.
Olhou para Rowena ainda adormecida.
Aproximou-se da cama e, com cuidado extremo o mesmo cuidado que tinha ao empunhar uma lâmina recém-forjada ajustou o cobertor sobre os ombros dela, protegendo-a do frio.
Tocou levemente a lateral do seu rosto.
Mas ficou ali por tempo demais.
Quando saiu, Rowena abriu os olhos.
Ela havia acordado no instante em que ele se aproximara.
E sorriu.
Nos dias que seguiram, o castelo inteiro sentiu a mudança, embora ninguém soubesse nomeá-la.
Quando ela falava, ele não a interrompia.
Quando o conselho se exaltava, bastava um único olhar dele para que o tom baixasse mas era ela quem encerrava as discussões.
Durante audiências, Ewan observava.
Observava como Rowena inclinava a cabeça ao ouvir os camponeses.
Como suas mãos permaneciam firmes mesmo diante da injustiça.
Como sua voz nunca se elevava e ainda assim era ouvida.
Certa noite.
Rowena se aproximou, e Ewan abriu o braço para ela antes mesmo que ela pedisse.
Ela repousou a cabeça em seu peito.
Ele apoiou o queixo levemente sobre os cabelos dela.
Nenhum dos dois dormiu de imediato.
— Ewan… — murmurou ela.
— Hm.
— Se algum dia eu me tornar um peso…
Ele a interrompeu.
— Não será.
A resposta veio rápida demais para ser ensaiada.
Rowena ergueu o rosto, surpresa.
Ewan respirou fundo.
— Você me ancora — disse, baixo. — Mesmo quando não percebe.
Ela não respondeu.
Apenas fechou os olhos e apertou levemente o tecido da camisa dele entre os dedos.
O silêncio falou por eles.
Dias depois, durante um treino leve, Rowena escorregou no chão úmido. Antes que caísse, Ewan a segurou pela cintura.
Ficaram próximos demais.
Ela riu, breve, sem jeito.
— Obrigada.
Ewan não a soltou de imediato.
— Tenha mais cuidado — disse ele.
— Sempre digo isso a você.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Eu sempre sobrevivo.
— Eu sei — respondeu ela. — Mas agora não é só você.
A mão dele apertou um pouco mais.
Depois a soltou.
Mas o olhar permaneceu.
Naquela noite, enquanto observavam a neve cair pela janela da torre, Ewan falou, sem encará-la:
— Se isso fosse amor… — começou, cauteloso.
Rowena não o interrompeu.
— …eu ainda não saberia o que fazer com ele.
Ela deu um passo à frente, ficando ao lado dele.
— Então não chame de amor — disse suavemente. — Chame de escolha.
Ele a olhou.
Por um longo instante.
Então assentiu.
Ewan estendeu a mão.
Rowena entrelaçou os dedos aos dele.
Nenhuma palavra foi dita depois disso.
Rowena puxou levemente Ewan para um beijo e ele correspondeu com intensidade que ela já tava acostumada.
A noite estava silenciosa demais.
A neve caía do lado de fora, espessa, cobrindo o mundo com um manto branco que abafava qualquer som. Dentro do quarto, apenas o estalar baixo da lareira e a respiração ritmada de Rowena quebravam o silêncio.
Ela dormia abraçada a Ewan.
O braço dele envolvia seus ombros quase por reflexo agora, e a cabeça de Rowena repousava em seu peito, exatamente sobre o coração que ele aprendera a endurecer desde menino. O calor dela atravessava o tecido, constante, confiável.
Ewan permanecia acordado.
Os olhos fixos no teto de pedra.
A mente desperta como sempre estivera em vigília antes das batalhas.
Mas não havia inimigo naquela noite.
Havia lembranças.
Lembrou-se do primeiro campo de guerra, do cheiro de sangue e ferro. Do pai lhe dizendo que um rei não podia amar demais porque quem ama, hesita. Lembrou-se das noites ao relento com seus homens, dizendo a eles que amor era conto de bardos, história feita para enfraquecer guerreiros antes da lâmina cair.
— Não deixem ninguém tocar onde dói — costumava dizer. — O amor é uma brecha.
Agora, a brecha dormia sobre seu peito.
Rowena se mexeu levemente, procurando mais conforto, e Ewan sentiu o toque dela se firmar, como se seu corpo soubesse que ali estava seguro. Ele inspirou fundo, sentindo o perfume leve dela, diferente de qualquer coisa que conhecera.
Aquilo não o enfraquecia.
O assustava mas não o tornava menor.
“Se isso é amor”, pensou, “então menti a vida inteira.”
Porque o que sentia não era perda de força. Era o oposto. Uma necessidade silenciosa de proteger, de permanecer, de garantir que nada a alcançaria enquanto ele respirasse.
O lobo não se tornara manso.
Apenas escolhera um território para guardar.
Ewan levou a mão até os cabelos de Rowena, tocando-os com cuidado extremo, como se qualquer gesto em falso pudesse quebrar aquele instante. Ela suspirou e se aninhou ainda mais, o rosto pressionando seu peito.
Ele fechou os olhos por um instante.
Não para dormir mas para aceitar.
Aceitar que, pela primeira vez, algo atravessara suas defesas sem batalha.
Aceitar que não havia estratégia contra aquilo.
Aceitar que talvez amor não fosse fraqueza…
…mas risco.
E o Lobo sempre soubera viver com risco.
— Se isso me enfraquecer… — murmurou para o vazio, tão baixo que só ele ouviu — …que seja por você.
Rowena dormia profundamente.
E, naquela noite gelada, Ewan MacAllister permaneceu acordado, não como rei, nem como guerreir
mas como um homem que não fugia do que sentia