XXXIX

892 Words
Mais tarde, o castelo retomara seu ritmo silencioso. Rowena estava sentada em um dos bancos de pedra do jardim interno, o sol fraco aquecendo-lhe o rosto. Um curandeiro acabara de sair, deixando pomadas e faixas novas sobre a mesa próxima. Ela flexionou o ombro com cuidado. — Vai ficar roxo. — comentou, como se fosse algo trivial. Ewan permanecia de pé diante dela, braços cruzados, o olhar atento demais para alguém que fingia indiferença. — Deverias descansar mais. — disse ele. — O impacto foi forte. Rowena ergueu uma sobrancelha. — Estás preocupado? — Estou atento. — corrigiu. Ela sorriu, um sorriso curto, divertido. — Engraçado… — murmurou. — O quê? — O grande príncipe de gelo preocupado com dores. — disse ela, com leveza. Ewan franziu o cenho. — Príncipe de… quê? Rowena piscou percebendo que tinha falado demais. — Gelo. Ele a encarou. — Não entendo. Ela percebeu então. O Lobo não sabia. Rowena apoiou o cotovelo no banco, claramente divertida agora. — As moças do vilarejo te chamavam assim. — explicou. — Antes da coroação. Agora creio que deve ser rei de gelo. Ewan permaneceu imóvel. — Por quê? — Porque és bonito, inalcançável… — disse ela, contando nos dedos — e nunca olhavas para nenhuma. Sempre distante. Sempre frio. Ela inclinou a cabeça. — Príncipe de Gelo. O silêncio se estendeu. — Isso é… — ele começou, mas parou. — Ridículo? — sugeriu ela. — Irrelevante. — respondeu ele. Rowena riu, um riso baixo. — Vês? — disse. — Nem percebias. Enquanto eras lenda para elas, tu estavas ocupado demais sendo o Lobo. Ele desviou o olhar, incomodado de um jeito estranho. — Não presto atenção a essas coisas. — Eu sei. — respondeu ela. — E é exatamente por isso que é engraçado. Ela fez uma pausa. — Sabes o que mais diziam? Ewan suspirou. — O quê? — Que o príncipe de gelo jamais derreteria por ninguém. — disse ela, fitando-o. — Que morreria rei… e sozinho. O ar pareceu pesar. Ewan voltou o olhar para ela. — Estavam erradas. — disse, seco. Rowena sorriu de leve. — Estavam. Ela se levantou com cuidado. — Porque o príncipe de gelo se preocupa com dores. — continuou. — E caminha ao lado da rainha quando ninguém está olhando. Ewan a observou caminhar lentamente à frente. Algo dentro dele quase imperceptível se moveu. Ele não entendia apelidos. Nem lendas românticas. Mas entendia fatos. E o fato era simples: Rowena via além do gelo. E ainda assim permanecia. — Se doer mais tarde… — disse ele, por fim — me avise. Rowena virou-se, surpresa. — Avisarei. — respondeu. Ela sorriu novamente, agora com algo mais suave. E Ewan ficou ali, sozinho por um instante, pensando que talvez… o gelo nunca tivesse sido ausência de sentimento. Talvez fosse apenas o que protegia algo que nunca aprendera a ser tocado. Alguns dias depois, o convite chegou selado em cera vermelha. Ewan o leu uma única vez. Depois o deixou sobre a mesa como quem descarta algo sem importância. — Não iremos. — disse, direto. Rowena, sentada próxima à janela, ergueu o olhar do bordado que fingia fazer. — Iremos, sim. Ewan franziu o cenho. — É um baile. — disse ele. — Não uma reunião estratégica. — É exatamente por isso que é estratégico. — respondeu ela, calmamente. Ele cruzou os braços. — Não gosto de salões cheios. Nem de música alta. Nem de sorrisos falsos. Rowena levantou-se e aproximou-se da mesa, pegando o convite. — Rei Malcolm não é t**o. — disse. — Se nos convida, é porque quer que sejamos vistos. — Que me vejam dançar? — retrucou Ewan, seco. — Que nos vejam juntos. — corrigiu ela. Ela pousou o convite novamente. — Um rei temido causa silêncio. — continuou. — Um rei respeitado constrói alianças. Ewan estreitou os olhos. — Já nos respeitam. — Temem-te. — disse ela. — Ainda não sabem o que fazer comigo. Ele permaneceu em silêncio. Rowena deu um passo mais perto. — Mostrar-nos como um casal unido… — disse — muda o jogo. Especialmente depois do que aconteceu no conselho. — Não sou feito para essas encenações. — Não te peço encenação. — respondeu. — Apenas presença. Ela tocou de leve o braço dele o ferido já quase curado. — Ewan, passaste a vida inteira provando tua força no campo de batalha. — disse. — Permite-me provar a nossa no salão. Ele desviou o olhar. — Danço m*l. Rowena sorriu. — Então não dançaremos...muito. Um silêncio se formou. Ewan suspirou, longo. — Odiarei cada momento, minha rainha. — Eu sei, meu rei. — respondeu ela, satisfeita. — E se alguém tentar nos testar? O sorriso dela se tornou afiado. — Então verão que o Lobo sabe se mover até sem espada. Ele a encarou por alguns segundos. Depois assentiu. — Iremos. — disse. — Mas não ficaremos até o fim. Rowena inclinou a cabeça. — Como desejar, meu rei. Ela virou-se para sair. — Rowena? — Sim? — Se isso for um erro… Ela sorriu por sobre o ombro. — Então enfrentaremos juntos. E enquanto Ewan voltava os olhos para o convite, percebeu algo incômodo: Ele preferia mil batalhas abertas a um único salão iluminado. Mas, pela primeira vez, não iria sozinho. E isso… tornava a dança menos ameaçadora do que parecia
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