Mais tarde, o castelo retomara seu ritmo silencioso.
Rowena estava sentada em um dos bancos de pedra do jardim interno, o sol fraco aquecendo-lhe o rosto. Um curandeiro acabara de sair, deixando pomadas e faixas novas sobre a mesa próxima.
Ela flexionou o ombro com cuidado.
— Vai ficar roxo. — comentou, como se fosse algo trivial.
Ewan permanecia de pé diante dela, braços cruzados, o olhar atento demais para alguém que fingia indiferença.
— Deverias descansar mais. — disse ele. — O impacto foi forte.
Rowena ergueu uma sobrancelha.
— Estás preocupado?
— Estou atento. — corrigiu.
Ela sorriu, um sorriso curto, divertido.
— Engraçado… — murmurou.
— O quê?
— O grande príncipe de gelo preocupado com dores. — disse ela, com leveza.
Ewan franziu o cenho.
— Príncipe de… quê?
Rowena piscou percebendo que tinha falado demais.
— Gelo.
Ele a encarou.
— Não entendo.
Ela percebeu então.
O Lobo não sabia.
Rowena apoiou o cotovelo no banco, claramente divertida agora.
— As moças do vilarejo te chamavam assim. — explicou. — Antes da coroação. Agora creio que deve ser rei de gelo.
Ewan permaneceu imóvel.
— Por quê?
— Porque és bonito, inalcançável… — disse ela, contando nos dedos — e nunca olhavas para nenhuma. Sempre distante. Sempre frio.
Ela inclinou a cabeça.
— Príncipe de Gelo.
O silêncio se estendeu.
— Isso é… — ele começou, mas parou.
— Ridículo? — sugeriu ela.
— Irrelevante. — respondeu ele.
Rowena riu, um riso baixo.
— Vês? — disse. — Nem percebias. Enquanto eras lenda para elas, tu estavas ocupado demais sendo o Lobo.
Ele desviou o olhar, incomodado de um jeito estranho.
— Não presto atenção a essas coisas.
— Eu sei. — respondeu ela. — E é exatamente por isso que é engraçado.
Ela fez uma pausa.
— Sabes o que mais diziam?
Ewan suspirou.
— O quê?
— Que o príncipe de gelo jamais derreteria por ninguém. — disse ela, fitando-o. — Que morreria rei… e sozinho.
O ar pareceu pesar.
Ewan voltou o olhar para ela.
— Estavam erradas. — disse, seco.
Rowena sorriu de leve.
— Estavam.
Ela se levantou com cuidado.
— Porque o príncipe de gelo se preocupa com dores. — continuou. — E caminha ao lado da rainha quando ninguém está olhando.
Ewan a observou caminhar lentamente à frente.
Algo dentro dele quase imperceptível se moveu.
Ele não entendia apelidos.
Nem lendas românticas.
Mas entendia fatos.
E o fato era simples:
Rowena via além do gelo.
E ainda assim permanecia.
— Se doer mais tarde… — disse ele, por fim — me avise.
Rowena virou-se, surpresa.
— Avisarei. — respondeu.
Ela sorriu novamente, agora com algo mais suave.
E Ewan ficou ali, sozinho por um instante, pensando que talvez…
o gelo nunca tivesse sido ausência de sentimento.
Talvez fosse apenas
o que protegia algo que nunca aprendera a ser tocado.
Alguns dias depois, o convite chegou selado em cera vermelha.
Ewan o leu uma única vez.
Depois o deixou sobre a mesa como quem descarta algo sem importância.
— Não iremos. — disse, direto.
Rowena, sentada próxima à janela, ergueu o olhar do bordado que fingia fazer.
— Iremos, sim.
Ewan franziu o cenho.
— É um baile. — disse ele. — Não uma reunião estratégica.
— É exatamente por isso que é estratégico. — respondeu ela, calmamente.
Ele cruzou os braços.
— Não gosto de salões cheios. Nem de música alta. Nem de sorrisos falsos.
Rowena levantou-se e aproximou-se da mesa, pegando o convite.
— Rei Malcolm não é t**o. — disse. — Se nos convida, é porque quer que sejamos vistos.
— Que me vejam dançar? — retrucou Ewan, seco.
— Que nos vejam juntos. — corrigiu ela.
Ela pousou o convite novamente.
— Um rei temido causa silêncio. — continuou. — Um rei respeitado constrói alianças.
Ewan estreitou os olhos.
— Já nos respeitam.
— Temem-te. — disse ela. — Ainda não sabem o que fazer comigo.
Ele permaneceu em silêncio.
Rowena deu um passo mais perto.
— Mostrar-nos como um casal unido… — disse — muda o jogo. Especialmente depois do que aconteceu no conselho.
— Não sou feito para essas encenações.
— Não te peço encenação. — respondeu. — Apenas presença.
Ela tocou de leve o braço dele o ferido já quase curado.
— Ewan, passaste a vida inteira provando tua força no campo de batalha. — disse. — Permite-me provar a nossa no salão.
Ele desviou o olhar.
— Danço m*l.
Rowena sorriu.
— Então não dançaremos...muito.
Um silêncio se formou.
Ewan suspirou, longo.
— Odiarei cada momento, minha rainha.
— Eu sei, meu rei. — respondeu ela, satisfeita.
— E se alguém tentar nos testar?
O sorriso dela se tornou afiado.
— Então verão que o Lobo sabe se mover até sem espada.
Ele a encarou por alguns segundos.
Depois assentiu.
— Iremos. — disse. — Mas não ficaremos até o fim.
Rowena inclinou a cabeça.
— Como desejar, meu rei.
Ela virou-se para sair.
— Rowena?
— Sim?
— Se isso for um erro…
Ela sorriu por sobre o ombro.
— Então enfrentaremos juntos.
E enquanto Ewan voltava os olhos para o convite, percebeu algo incômodo:
Ele preferia mil batalhas abertas
a um único salão iluminado.
Mas, pela primeira vez,
não iria sozinho.
E isso…
tornava a dança menos ameaçadora do que parecia