A sala do conselho estava carregada.
Os homens mais velhos do reino murmuravam antes mesmo de Ewan tomar seu lugar à cabeceira da mesa. Rostos fechados, mãos crispadas sobre o carvalho antigo.
— Uma imprudência — disse o conselheiro Morcant, o mais antigo. — O rei expôs-se sem necessidade.
— Caminhar entre camponeses — acrescentou outro — sem escolta visível… é inconcebível.
Ewan permaneceu em silêncio.
Observava.
O lobo avaliava.
— Majestade — continuou Morcant — vossa segurança é o pilar do reino. Isso não pode—
— CHEGA!
A palavra caiu como lâmina.
Todos se calaram.
Rowena dera um passo à frente.
Não havia sorriso.
Não havia suavidade.
A rainha estava ereta, os olhos frios, a voz firme como pedra antiga.
— Falais de imprudência — disse ela — como se o rei tivesse abandonado o campo de batalha. Ele caminhou entre seu povo. Isso não é fraqueza. É liderança.
Morcant franziu o cenho.
— Com todo respeito, Vossa Majestade, o povo—
— O povo confia em quem vê. — interrompeu Rowena, a voz subindo um tom, controlada, afiada. — Não em quem apenas ouve rumores.
Um dos conselheiros tentou intervir.
— A história mostra que reis expostos—
— A história também mostra — cortou ela — que reis isolados caem sem que o povo mova um dedo para salvá-los.
Silêncio absoluto.
Ewan observava.
Impressionado.
Rowena avançou mais um passo.
— Vós governais a partir de mesas e pergaminhos. O rei governa com sangue, suor e presença. — ela olhou um a um. — E eu governei com ele ontem.
— A rainha não deveria—
— Eu sou a rainha. — disse Rowena, fria. — E minha função não é ser decorativa, muito menos silenciosa.
O conselheiro mais jovem pigarreou.
— Mas e se algo tivesse acontecido?
Rowena virou-se lentamente para ele.
— Então terias visto o que acontece quando alguém ousa tocar no MEU REI!
O peso da frase ecoou.
Ewan sentiu algo apertar em seu peito.
Não orgulho apenas.
Respeito profundo.
— Vós temeis o povo — continuou Rowena. — Eu temo um reino que não confia no próprio soberano.
Ela voltou-se para Ewan, por um instante, e depois novamente aos conselheiros.
— O passeio continuará. Com estratégia. Com cuidado. Mas continuará.
Morcant abriu a boca, fechou novamente.
Nenhum deles tinha resposta.
Ewan então falou, pela primeira vez.
— A decisão está tomada.
A reunião terminou em silêncio constrangido.
Quando os conselheiros se retiraram, Ewan permaneceu de pé, olhando Rowena.
— Eu teria resolvido isso com menos palavras — disse ele.
— Eu sei. — respondeu ela, calma. — Mas hoje, palavras eram a arma certa.
Ele assentiu lentamente.
— Lembras quando disseste que aprender comigo era uma honra?
— Sim.
— Pois hoje — disse Ewan, sério — foste tu quem me ensinou.
Rowena inclinou a cabeça.
E, naquele momento, até o lobo reconheceu:
A rainha não apenas caminhava ao lado do rei.
Ela o defendia com a mesma ferocidade
com que ele defenderia o reino.
O corredor que levava à sala do trono estava cheio de vozes distantes e passos ecoando nas pedras antigas. Camponeses aguardavam, alguns nervosos, outros esperançosos, trazendo problemas que só o rei poderia resolver.
Ewan caminhava com o passo firme de sempre.
Rowena, ao lado dele, falava em tom baixo.
— Depois do que vimos ontem, talvez seja melhor ouvir primeiro os agricultores do sul. A seca—
Um estrondo interrompeu a frase.
Algo caiu em uma das galerias superiores talvez um estandarte m*l preso, talvez uma caixa de madeira e o barulho seco ecoou pelo corredor como um golpe de guerra.
Rowena se assustou.
Foi instinto.
Não pensamento.
Em um único movimento, ela deu um passo rápido e se agarrou a Ewan, os braços envolvendo o tronco dele, o rosto próximo demais.
Ewan reagiu no mesmo instante.
O corpo se colocou à frente.
O braço subiu, protetor.
O olhar varreu o corredor como lâmina.
Silêncio.
Nada mais aconteceu.
Só então Rowena percebeu.
Ela estava abraçada a ele.
Muito abraçada.
O coração batia rápido demais não de medo agora, mas de consciência. Ela se afastou imediatamente, o rosto corando de leve.
— Eu… desculpa — disse, sem graça. — Foi só… reflexo.
Ewan olhou para ela.
Nenhum julgamento.
Nenhuma rigidez.
— Bons reflexos — respondeu, simplesmente.
Isso só a deixou mais constrangida.
— Não era exatamente… — ela gesticulou, procurando palavras. — Quero dizer, eu sei lutar, eu não—
— Rowena. — ele a interrompeu, a voz baixa. — Não precisas te explicar.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Não?
— Em batalha, instinto é vida. — disse ele. — E confiar em alguém no reflexo… também diz algo.
Ela engoliu em seco.
— Diz o quê?
Ewan sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
— Que escolheste bem onde te colocar.
Rowena respirou fundo, tentando recompor a postura de rainha antes que as portas do trono se abrissem.
— Prometo não me agarrar a ti diante do povo — murmurou, tentando brincar.
Um canto da boca de Ewan se ergueu.
Quase um sorriso.
— Talvez seja bom que vejam — respondeu ele. — Um rei que protege… e uma rainha que confia.
As portas se abriram.
E lado a lado, ainda sentindo o eco daquele instante inesperado,
rei e rainha avançaram
mais conscientes do que significavam um para o outro
do que jamais admitiriam em voz alta.