O amanhecer m*l tocara as pedras do castelo quando Ewan se levantou.
O corpo protestou em silêncio músculos rígidos, cortes latejando sob as faixas recém-trocadas. Ainda assim, ele se moveu como sempre fazia: sem hesitar, sem ceder.
Vestiu a camisa, alcançou o cinto.
Foi então que a voz dela cortou o ar.
— Não.
Ewan parou.
Rowena estava sentada à beira da cama, já desperta, os cabelos presos de forma simples, o olhar firme como aço recém-forjado.
— Não o quê? — perguntou ele, sem se virar.
— Não vais a lugar algum. — respondeu. — Não hoje.
Ele se virou lentamente.
— Há relatórios a ouvir. O conselho—
— Esperará. — interrompeu ela, levantando-se. — Ouvirão amanhã. Ou depois. Hoje, o rei repousa.
Ewan franziu o cenho.
— Não preciso—
— Precisas. — a voz dela não se elevou, mas não deixou espaço. — Teu braço ainda sangrou durante a noite. Teu ombro m*l se move. Teu corpo lutou antes que a guerra terminasse.
Ele deu um passo à frente.
— Já lutei ferido antes.
Rowena não recuou.
— E quantas vezes voltaste por pouco? — rebateu, afiada. — Quantas cicatrizes carregas porque ignoraste o próprio limite?
Silêncio.
Ewan respirou fundo.
— Um rei não pode se dar ao luxo de—
— Um rei morto governa o quê? — cortou ela.
Ele estreitou os olhos.
— Estás me dando ordens?
Rowena sustentou o olhar.
— Estou protegendo meu reino—
Ela se aproximou, reduzindo a distância entre eles.— E meu rei.
A palavra pairou no ar.
Ewan abriu a boca para responder… e fechou.
Rowena apontou para a cama.
— Volta a deitar. Descansa. Ou eu mesma chamarei o conselho e direi que ignoraste a própria saúde por orgulho.
Um canto da boca dele se moveu.
— Ameaça política? — murmurou.
— Estratégia. — corrigiu ela. — Aprendi com o melhor.
Por um momento, ele a encarou como encarava generais no campo de batalha.
Calculando.
Pesando.
Por fim, soltou o cinto sobre a mesa.
— Um dia. — disse. — Não mais.
Rowena assentiu.
— Um dia. Hoje.
Ewan voltou à cama com relutância visível.
Rowena ajustou os travesseiros, cobriu-o com firmeza quase militar.
— Ficarás aqui. — disse. — E se tentares levantar, saberei.
— Como? — perguntou ele.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— O Lobo pode ser silencioso… mas não mais que uma rainha que dorme ao lado dele.
Um silêncio diferente se instalou.
Ewan a observou enquanto ela se afastava alguns passos.
— Não és fácil de deter. — comentou.
Rowena virou-se.
— Nem tu. — respondeu. — É por isso que funcionamos.
Ele fechou os olhos, ainda acordado.
Pela primeira vez desde que se tornara rei,
Ewan MacAllister repousou não porque o corpo falhou
mas porque alguém ousou enfrentá-lo
e venceu.
E essa vitória não veio com espada.
Veio com voz firme,
olhar direto,
e a coragem de não recuar diante do Lobo.
O conselho reunira-se em caráter de urgência.
Os homens mais velhos do reino ocupavam seus lugares ao redor da longa mesa de carvalho, capas pesadas, rostos tensos, vozes sobrepostas.
— O rei deve estar aqui.
— O ataque exige respostas imediatas.
— Não podemos esperar.
As portas do salão se abriram.
Passos firmes ecoaram pelas pedras.
Não era Ewan.
Era Rowena.
Vestia-se como rainha não de forma ostentosa, mas incontestável. Tons escuros, tecido nobre, postura reta. A coroa repousava leve sobre a cabeça, mas o peso simbólico era esmagador.
Ela caminhou até a cabeceira da mesa.
E sentou-se.
O murmúrio cessou.
— Vossa Majestade… — começou um dos conselheiros, confuso. — Onde está o rei?
Rowena cruzou as mãos sobre a mesa.
— Ferido. — respondeu. — Descansando por minha ordem.
Um silêncio tenso se espalhou.
— Com todo respeito… — outro tentou — o reino foi atacado. O rei—
— Continua sendo rei. — cortou ela. — Mesmo deitado. E hoje, falo com a autoridade dele.
Alguns trocaram olhares.
— Isso é… incomum. — disse o mais velho.
Rowena inclinou levemente a cabeça.
— A guerra também foi.
Ela não esperou permissão.
— O inimigo recuou, mas não foi derrotado. Suas forças foram quebradas na linha frontal, seus suprimentos queimados. Estão reorganizando-se ao norte.
Os conselheiros se entreolharam.
— Como sabe disso? — perguntou um deles.
— Porque o rei planejou o ataque com três rotas falsas. — respondeu. — E porque conheço cada uma delas.
Um silêncio pesado caiu.
— O rei não costuma compartilhar—
— Com a rainha, sim. — afirmou, sem hesitar.
Ela se inclinou levemente para frente.
— Agora, escutem com atenção. Hoje não discutiremos o que deveria ter sido feito. Discutiremos o que será.
Ela apontou para um mapa sobre a mesa.
— Reforços ao sul. Vigias dobradas nas colinas. Nenhuma ofensiva antes de duas semanas. O inimigo espera impaciência. Não a terão.
— Isso foi decidido pelo rei? — perguntou alguém.
Rowena sustentou o olhar.
— Foi previsto por ele. Confirmado por mim.
— E se discordarmos?
Rowena ergueu uma sobrancelha.
— Então discordem. — disse calmamente. — Mas o plano seguirá.
O conselheiro mais antigo pigarreou.
— Vossa Majestade… com todo respeito… o reino está acostumado à presença do Lobo.
Rowena respirou fundo.
— E continuará tendo-o. — disse. — Mas hoje, o Lobo descansa. E quem vigia o território é a rainha dele.
Ela se levantou.
— Podem levar suas dúvidas com vocês. Ou podem levar resultados ao povo.Escolham.
Silêncio absoluto.
Nenhum deles ousou contestar.
Rowena virou-se e caminhou até a porta.
Antes de sair, lançou o último aviso:
— Digam a quem perguntar: o rei governa.
— E quando ele repousa… eu sustento o trono.
As portas se fecharam.
E naquele salão, pela primeira vez, os homens que temiam o Lobo compreenderam algo novo:
O reino agora tinha dois governantes capazes de gelar o sangue.
E ambos sabiam exatamente quando avançar
e quando obrigar o outro a parar.