XXXIII

992 Words
O amanhecer m*l tocara as pedras do castelo quando Ewan se levantou. O corpo protestou em silêncio músculos rígidos, cortes latejando sob as faixas recém-trocadas. Ainda assim, ele se moveu como sempre fazia: sem hesitar, sem ceder. Vestiu a camisa, alcançou o cinto. Foi então que a voz dela cortou o ar. — Não. Ewan parou. Rowena estava sentada à beira da cama, já desperta, os cabelos presos de forma simples, o olhar firme como aço recém-forjado. — Não o quê? — perguntou ele, sem se virar. — Não vais a lugar algum. — respondeu. — Não hoje. Ele se virou lentamente. — Há relatórios a ouvir. O conselho— — Esperará. — interrompeu ela, levantando-se. — Ouvirão amanhã. Ou depois. Hoje, o rei repousa. Ewan franziu o cenho. — Não preciso— — Precisas. — a voz dela não se elevou, mas não deixou espaço. — Teu braço ainda sangrou durante a noite. Teu ombro m*l se move. Teu corpo lutou antes que a guerra terminasse. Ele deu um passo à frente. — Já lutei ferido antes. Rowena não recuou. — E quantas vezes voltaste por pouco? — rebateu, afiada. — Quantas cicatrizes carregas porque ignoraste o próprio limite? Silêncio. Ewan respirou fundo. — Um rei não pode se dar ao luxo de— — Um rei morto governa o quê? — cortou ela. Ele estreitou os olhos. — Estás me dando ordens? Rowena sustentou o olhar. — Estou protegendo meu reino— Ela se aproximou, reduzindo a distância entre eles.— E meu rei. A palavra pairou no ar. Ewan abriu a boca para responder… e fechou. Rowena apontou para a cama. — Volta a deitar. Descansa. Ou eu mesma chamarei o conselho e direi que ignoraste a própria saúde por orgulho. Um canto da boca dele se moveu. — Ameaça política? — murmurou. — Estratégia. — corrigiu ela. — Aprendi com o melhor. Por um momento, ele a encarou como encarava generais no campo de batalha. Calculando. Pesando. Por fim, soltou o cinto sobre a mesa. — Um dia. — disse. — Não mais. Rowena assentiu. — Um dia. Hoje. Ewan voltou à cama com relutância visível. Rowena ajustou os travesseiros, cobriu-o com firmeza quase militar. — Ficarás aqui. — disse. — E se tentares levantar, saberei. — Como? — perguntou ele. Ela ergueu uma sobrancelha. — O Lobo pode ser silencioso… mas não mais que uma rainha que dorme ao lado dele. Um silêncio diferente se instalou. Ewan a observou enquanto ela se afastava alguns passos. — Não és fácil de deter. — comentou. Rowena virou-se. — Nem tu. — respondeu. — É por isso que funcionamos. Ele fechou os olhos, ainda acordado. Pela primeira vez desde que se tornara rei, Ewan MacAllister repousou não porque o corpo falhou mas porque alguém ousou enfrentá-lo e venceu. E essa vitória não veio com espada. Veio com voz firme, olhar direto, e a coragem de não recuar diante do Lobo. O conselho reunira-se em caráter de urgência. Os homens mais velhos do reino ocupavam seus lugares ao redor da longa mesa de carvalho, capas pesadas, rostos tensos, vozes sobrepostas. — O rei deve estar aqui. — O ataque exige respostas imediatas. — Não podemos esperar. As portas do salão se abriram. Passos firmes ecoaram pelas pedras. Não era Ewan. Era Rowena. Vestia-se como rainha não de forma ostentosa, mas incontestável. Tons escuros, tecido nobre, postura reta. A coroa repousava leve sobre a cabeça, mas o peso simbólico era esmagador. Ela caminhou até a cabeceira da mesa. E sentou-se. O murmúrio cessou. — Vossa Majestade… — começou um dos conselheiros, confuso. — Onde está o rei? Rowena cruzou as mãos sobre a mesa. — Ferido. — respondeu. — Descansando por minha ordem. Um silêncio tenso se espalhou. — Com todo respeito… — outro tentou — o reino foi atacado. O rei— — Continua sendo rei. — cortou ela. — Mesmo deitado. E hoje, falo com a autoridade dele. Alguns trocaram olhares. — Isso é… incomum. — disse o mais velho. Rowena inclinou levemente a cabeça. — A guerra também foi. Ela não esperou permissão. — O inimigo recuou, mas não foi derrotado. Suas forças foram quebradas na linha frontal, seus suprimentos queimados. Estão reorganizando-se ao norte. Os conselheiros se entreolharam. — Como sabe disso? — perguntou um deles. — Porque o rei planejou o ataque com três rotas falsas. — respondeu. — E porque conheço cada uma delas. Um silêncio pesado caiu. — O rei não costuma compartilhar— — Com a rainha, sim. — afirmou, sem hesitar. Ela se inclinou levemente para frente. — Agora, escutem com atenção. Hoje não discutiremos o que deveria ter sido feito. Discutiremos o que será. Ela apontou para um mapa sobre a mesa. — Reforços ao sul. Vigias dobradas nas colinas. Nenhuma ofensiva antes de duas semanas. O inimigo espera impaciência. Não a terão. — Isso foi decidido pelo rei? — perguntou alguém. Rowena sustentou o olhar. — Foi previsto por ele. Confirmado por mim. — E se discordarmos? Rowena ergueu uma sobrancelha. — Então discordem. — disse calmamente. — Mas o plano seguirá. O conselheiro mais antigo pigarreou. — Vossa Majestade… com todo respeito… o reino está acostumado à presença do Lobo. Rowena respirou fundo. — E continuará tendo-o. — disse. — Mas hoje, o Lobo descansa. E quem vigia o território é a rainha dele. Ela se levantou. — Podem levar suas dúvidas com vocês. Ou podem levar resultados ao povo.Escolham. Silêncio absoluto. Nenhum deles ousou contestar. Rowena virou-se e caminhou até a porta. Antes de sair, lançou o último aviso: — Digam a quem perguntar: o rei governa. — E quando ele repousa… eu sustento o trono. As portas se fecharam. E naquele salão, pela primeira vez, os homens que temiam o Lobo compreenderam algo novo: O reino agora tinha dois governantes capazes de gelar o sangue. E ambos sabiam exatamente quando avançar e quando obrigar o outro a parar.
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