Três meses se passaram.
O inverno avançou lentamente, cobrindo o reino com geadas espessas, noites longas e um silêncio que parecia nunca terminar. A neve veio cedo naquele ano pesada, constante, como se o céu também carregasse algo que não conseguia soltar de uma vez.
E, durante todo esse tempo…
Rowena não viu Ewan.
Nem uma única vez.
No início, ela contava os dias.
Depois, as semanas.
Até que o tempo deixou de ser algo que pudesse ser medido com precisão e passou a ser apenas… ausência.
Ela governava.
Sentava-se no trono ao lado de um espaço vazio.
Resolvia disputas.
Recebia camponeses.
Enfrentava o conselho agora ainda mais atento, ainda mais calculista.
— O rei se recupera — dizia ela, sempre com a voz firme.
— O rei está vivo — repetia, quando cochichos surgiam.
— O rei retornará quando julgar adequado.
E ninguém ousava desmenti-la.
Mas o castelo inteiro sentia.
O lobo estava ferido.
E a rainha… sozinha.
À noite, Rowena caminhava até a janela do quarto.
Sempre o mesmo quarto.
Sempre a mesma cama grande demais para uma só pessoa.
Ela se sentava ali, envolta em cobertores, observando a neve cair lentamente sobre os pátios do castelo.
— Três meses… — sussurrou certa vez, a voz quase se perdendo no vento.
Não chorava mais.
As lágrimas haviam secado, substituídas por algo mais perigoso: o silêncio.
Ela se perguntava se ele ainda a queria ali.
Se aquela distância era apenas proteção… ou rejeição.
Se o amor que ela sentia era unilateral.
Ewan também contava os meses.
Cada dia sem vê-la era um golpe que não deixava marcas visíveis, mas aprofundava algo dentro dele.
Os ferimentos cicatrizavam.
As costelas já não doíam ao respirar.
A perna, embora ainda rígida, voltara a sustentá-lo.
Ele já conseguia ficar de pé.
Caminhar.
Treinar em silêncio, longe dos olhos de todos.
Mas ainda não se aproximava dela.
Porque quanto mais forte o corpo ficava…
mais frágil ele se sentia por dentro.
Certa noite, enquanto a neve caía espessa, Ewan ficou parado diante do espelho.
As cicatrizes novas cruzavam seu torso como lembranças recentes demais.
Ele passou os dedos por uma delas, depois fechou a mão em punho.
— Se eu entrar naquele quarto… — murmurou — não saberei mais fingir.
E não fingir significava deixar Rowena ver tudo.
O medo.
O amor.
A possibilidade de perdê-la.
Do outro lado do castelo, Rowena apagou a última vela.
Deitou-se sozinha, como vinha fazendo há meses.
— Se você acha que pode me afastar para sempre… — pensou, encarando o teto escuro — não me conhece tão bem quanto pensa.
O inverno ainda não havia terminado.
Mas algo, lentamente, estava prestes a se romper.
Porque três meses de silêncio não apagam um laço forjado em guerra, escolha e amor não dito.
Eles apenas o tensionam…
até o limite.
O quarto mês chegou sem aviso.
Não houve um momento exato em que algo se quebrou foi mais silencioso do que isso.
Como gelo se formando lentamente sobre um lago, até que a água por baixo já não pudesse mais ser vista.
Rowena parou.
Parou de caminhar até o corredor dos aposentos do rei.
Parou de perguntar aos soldados como ele estava.
Parou de esperar ouvir seus passos no castelo à noite.
No começo, foi uma decisão consciente.
Depois… virou hábito.
— Ele não sente o mesmo — pensou, certa manhã, enquanto prendia os cabelos diante do espelho.
— Se sentisse, não me manteria tão distante por tanto tempo.
Dizer isso a si mesma doía menos do que continuar esperando.
Rowena sempre fora forte.
Aprendera a governar, a lutar, a calar homens que a subestimavam.
Agora, precisava aprender algo novo:
como sobreviver ao silêncio de alguém que se ama.
Ela se tornou ainda mais contida.
Nos conselhos, falava apenas o necessário.
Nos corredores, caminhava ereta, distante, impecável.
Os criados notaram que o sorriso fácil desaparecera.
— A rainha está diferente — cochichavam.
Não fraca.
Fria.
À noite, Rowena passou a se deitar mais cedo.
Virava-se para o lado vazio da cama sem tocar o espaço que um dia fora de Ewan.
Não se permitia lembrar do calor, do peso protetor, do silêncio confortável que já existira entre eles.
— Chega — murmurou para si mesma certa vez. — Eu não posso amar alguém que escolheu não me ver.
Ewan percebeu.
Percebeu no terceiro dia em que nenhum guarda mencionou o nome dela.
No quinto, quando o corredor ficou silencioso demais.
Na semana seguinte, quando a ausência dela deixou de doer de forma aguda… e passou a ser um vazio constante.
Ela não estava mais ali.
Não brigava.
Não implorava.
Não esperava.
E isso o atingiu com mais força do que qualquer grito.
Ele voltou a ser o lobo de gelo.
Apareceu no conselho com o rosto fechado, a postura impecável.
Tomou decisões rápidas.
Cortou debates sem piedade.
Os homens respiraram aliviados.
— O rei voltou — diziam.
Mas algo estava errado.
Porque aquele gelo…
não era força.
Era armadura.
Certa noite, Ewan ficou parado diante da janela, observando a lua refletida na neve já suja do fim do inverno.
— Você parou de vir — murmurou, como se falasse com o vento.
E, pela primeira vez, o lobo entendeu tarde demais
Ele a afastara para protegê-la…
mas, ao fazê-lo, ensinara Rowena a viver sem ele.
E isso era uma ferida que nenhuma guerra havia preparado Ewan MacAllister para suportar