O dia estava claro, raro para aquelas terras.
Ewan e Rowena caminharam a pé, sem escolta próxima demais, apenas alguns soldados à distância não por segurança, mas por costume. O reino estava vivo ao redor deles.
E diferente.
Nas ruas de pedra, nos pátios abertos, perto dos muros e até entre barracas do mercado, pessoas treinavam.
Crianças imitavam golpes com gravetos, rindo quando erravam.
Mulheres mais velhas praticavam movimentos simples, firmes, com a concentração de quem aprendeu tarde mas aprendeu.
Homens treinavam ao lado delas, corrigindo, aprendendo também.
Não havia separação.
Havia comunidade.
Rowena observava tudo com um sorriso contido, mas os olhos brilhavam.
— Olhe — murmurou ela.
Uma mãe ajudava a filha a ajustar a postura. Um pai observava atento, orgulhoso. Um grupo de jovens treinava em silêncio sério demais para a idade.
Ewan parou por um instante.
Não por cálculo.
Por impacto.
Ele viu algo que jamais vira em campanha alguma.
Um povo que não esperava ser salvo.
— Eles não estão treinando por medo — disse ele, baixo. — Estão treinando porque acreditam que vale a pena viver.
Rowena tocou sua mão.
— Você deu isso a eles, meu rei.
Ewan balançou a cabeça, ainda observando.
— Não. Dei permissão. Eles fizeram o resto.
Quando passaram por uma rua mais estreita, ouviram gritos agudos, infantis:
— EU VOU SER O LOBO!
— NÃO, EU! O LOBO É SOU EU!
— QUERO LUTAR COMO O REI!
Ewan parou.
Virou-se lentamente.
Três meninos pequenos, sujos de terra, seguravam pedaços de madeira como se fossem espadas. Um deles tinha um pano amarrado nos ombros como capa.
— Olha! — gritou um deles, apontando. — É ELE! É O LOBO!
Os meninos ficaram imóveis por um segundo… e então endireitaram a postura do jeito mais sério que conseguiam.
— Meu rei! — disse um, fazendo uma reverência desajeitada.
Os outros o imitaram, quase caindo.
Rowena mordeu o lábio para não rir.
Ewan se abaixou até ficar na altura deles.
O gesto silenciou a rua inteira.
— Por que querem ser o lobo? — perguntou ele.
Um dos meninos respondeu sem hesitar:
— Porque o lobo protege a matilha.
Ewan sentiu algo apertar no peito.
Outro completou:
— E não foge.
O terceiro ergueu o graveto.
— E ensina todo mundo a lutar, ele é forte.
Ewan ficou em silêncio por um momento.
Então tocou o ombro do menino.
— Se querem ser lobos — disse — aprendam primeiro a cuidar uns dos outros.
Eles assentiram com tanta seriedade que parecia um juramento.
— Sim, Majestade!
Ewan se levantou.
Rowena o observava com algo novo no olhar.
— Você percebeu? — disse ela, quando se afastaram.
— O quê?
— Eles não gritam seu nome por medo. — Ela sorriu. — Gritam porque querem ser como você.
Ewan respirou fundo.
— Que nunca precisem ser como eu em guerra — respondeu. — Que sejam melhores em paz.
Mais adiante, uma mulher se aproximou com respeito.
— Majestades… — disse, com voz firme. — Obrigada.
Rowena sorriu.
— Pelo quê?
— Pela chance — respondeu a mulher. — Pela escolha.
Ela se afastou antes que qualquer um pudesse dizer mais.
Ewan seguiu em silêncio por alguns passos.
Então falou, quase para si:
— Nenhuma vitória em batalha se compara a isso.
Rowena segurou a mão dele.
— Você sempre disse que amor enfraquecia os homens.
Ele a olhou de lado.
— Eu estava errado.
O vento passou entre eles, carregando risos, aço batendo em madeira, vozes vivas.
O lobo caminhava entre sua matilha.
E, pela primeira vez, não precisava rosnar.
O vento mudou antes que qualquer mensageiro chegasse.
Ewan sentiu isso primeiro não como rei, mas como lobo.
O falcão pousou no parapeito da torre ao amanhecer, inquieto, as asas ainda vibrando do voo longo. O selo preso à sua pata era vermelho-escuro, marcado com o símbolo de Dunrath, reino vizinho e antigo rival.
Guerra.
Ewan abriu o pergaminho em silêncio. Seus olhos percorreram as linhas uma única vez. Não houve surpresa apenas confirmação.
Rowena observava de perto.
— O que dizem? — perguntou, já sabendo a resposta.
— Que meu reinado os ameaça. — Ele dobrou o pergaminho com cuidado excessivo. — Que armar mulheres, camponeses e crianças “desestabiliza a ordem dos reinos”.
Ela respirou fundo, contendo a raiva.
— Não é a ordem que eles temem. É perder o controle.
Horas depois, o conselho estava reunido.
O salão, antes cheio de vozes arrogantes, agora era pesado, cauteloso. Muitos dos rostos que antes desafiavam Rowena estavam ausentes alguns presos, outros silenciosos por medo.
Ewan ficou de pé diante da mesa.
— Dunrath exige que dissolvamos os treinos populares — disse ele. — Que eu entregue três vilas da fronteira como “garantia de paz”.
Um murmúrio percorreu a sala.
Um dos conselheiros mais jovens ousou perguntar:
— E se recusarmos?
Ewan levantou o olhar devagar.
— Então eles marcham em um mês.
Silêncio absoluto.
Rowena deu um passo à frente.
— Eles não virão apenas contra o rei — disse ela. — Virão contra nossas casas, nossas crianças, nosso modo de viver.
Ela olhou um por um.
— E, pela primeira vez, não encontrarão um povo ajoelhado.
Naquele mesmo dia, a notícia correu o reino.
Não houve pânico.
Houve movimento.
Os campos de treino se encheram ainda mais. As mulheres que já lutavam chamaram outras. Homens ensinaram os filhos. Velhos passaram estratégias, histórias de batalhas esquecidas.
Ewan observava tudo da muralha ao lado de Fergus.
— Eles não recuaram — disse o capitão, impressionado. — Nem quando ouviram o nome de Dunrath.
— Porque não lutam só por mim — respondeu Ewan. — Lutam por eles mesmos.
À noite, no quarto aquecido por lareira, Rowena estava sentada na cama, polindo a própria espada.
— Eles subestimam você — disse ela, sem erguer os olhos. — Acham que você é apenas um rei que permitiu demais.
Ewan tirou as luvas, aproximando-se.
— Eles subestimam algo pior.
— O quê?
Ele parou à frente dela.
— Uma rainha que ensinou um reino inteiro a não abaixar a cabeça.
Rowena ergueu o olhar.
— Eles virão com exércitos treinados desde o berço.
— E encontrarão mães, filhas e filhos que aprenderam a lutar juntos.
Ele tocou a lâmina da espada dela.
— Dunrath nunca enfrentou um reino que fosse… matilha.
Mais tarde, já deitados, o silêncio era diferente do frio do inverno.
Era tenso.
Rowena quebrou-o:
— Você tem medo?
Ewan pensou antes de responder.
— Tenho.
Ela se virou para ele.
— Do quê?
— De não voltar para você.
Ela se aproximou, apoiando a testa na dele.
— Então volte. — disse. — Como sempre fez.
Ele fechou os olhos por um instante.
— Se a guerra vier — murmurou —, não será só para defender o trono.
Rowena sorriu, firme.
— Será para proteger tudo o que construímos.
Do lado de fora, o vento uivou contra as muralhas.
Não como aviso.
Mas como um chamado.
A guerra se aproximava.
E o lobo estava pronto