XXIII

557 Words
A luz da manhã entrou tímida pelas frestas da janela, desenhando linhas pálidas sobre a pedra fria do quarto. Rowena acordou primeiro. Não se moveu de imediato. Respirar fundo demais seria um erro. Aprendera isso cedo: quartos compartilhados exigem cautela. Ajustou a respiração, lenta, controlada mas ainda assim… algo mudou. Ewan percebeu. O Lobo acordara no exato instante em que o ritmo dela se alterara. Não abriu os olhos. Não mudou a postura. Manteve a respiração pesada, regular, como a de um homem profundamente adormecido. Observava sem ver. Testava sem agir. Rowena virou-se devagar. E parou. Por um momento, apenas observou. Ewan parecia diferente dormindo ,não menos perigoso, mas desarmado de propósito. O rosto relaxado suavizava as linhas duras que a guerra desenhara. A pele clara contrastava com os cabelos loiros claros espalhados pelo travesseiro, caindo soltos até os ombros. Alto, forte, marcado por cicatrizes que não precisavam ser exibidas para serem sentidas. Era um homem bonito. Não de forma delicada. Mas de forma honesta. Rowena não corou. Não sorriu. Não se aproximou. Apenas avaliou. Ele dorme como luta, pensou. Preparado até quando parece vulnerável. Após alguns segundos, afastou-se da cama. Ewan percebeu cada movimento. Ela se levantou com cuidado, os pés quase não tocando o chão de pedra. Não foi até as roupas. Não procurou espelho. Não se apressou. Foi direto às armas. Parou diante da parede onde espadas repousavam como sentinelas silenciosas. Passou os dedos com reverência contida pelos punhos gastos, pelas lâminas marcadas. Não tocava como curiosa. Tocava como quem compreende. Pegou uma espada mais antiga, equilibrando o peso na mão. — Esta já viu muita coisa… — murmurou, quase para si. Ewan, ainda “dormindo”, sorriu por dentro. Rowena observava detalhes: o desgaste do couro, a afiação irregular sinais de uso real, não de exibição. Colocou a espada de volta exatamente no mesmo lugar. Depois outra. E outra. Não mexeu em nada desnecessariamente. Não desorganizou. Não julgou. Ela não tenta me invadir, pensou Ewan. Ela tenta me entender. Rowena respirou fundo. — Um homem cercado de armas… — disse baixinho — não porque gosta da guerra. Mas porque sabe que ela nunca o abandona. Houve uma pausa. Ela se afastou das paredes, olhou brevemente para a cama não para o rosto dele, mas para a distância entre os dois lados. — Não és um rei que descansa. — concluiu. Então, finalmente, foi até as roupas. Quando começou a se vestir, Ewan abriu os olhos. Não abruptamente. Não em alerta. Como quem decide que já viu o suficiente. — Observaste muito para alguém que acordou há pouco. — disse ele, a voz ainda baixa, mas desperta. Rowena virou-se sem sobressalto. — E tu dormiste pouco para alguém que respira tão regularmente. Um silêncio curto se formou. Denso. Preciso. Ewan sentou-se devagar. — O que viste? — perguntou. Rowena não respondeu de imediato. Ajustou o fecho do vestido, então falou: — Um homem que não teme ser visto… mas que raramente é compreendido. Ela sustentou o olhar dele. — E armas que não são troféus. São memória. Ewan inclinou levemente a cabeça. — E isso te preocupa? — Não. — respondeu. — Me prepara. Mais um silêncio. Não havia tensão. Havia reconhecimento mútuo. O dia começava. E, com ele, não apenas um reinado compartilhado… mas uma vigilância dupla silenciosa, atenta e perigosamente alinhada
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