O salão principal do castelo estava cheio demais para o gosto de Ewan.
Lustres acesos, música baixa, vinho correndo em taças de metal polido. Nobres aliados, enviados de vilas próximas, alguns membros do conselho todos reunidos sob o mesmo teto, fingindo cordialidade como quem veste uma máscara bem treinada.
Rowena caminhava entre eles com naturalidade.
Sorria quando necessário, ouvia com atenção, respondia com educação firme. Não havia arrogância em seus gestos, nem submissão. Apenas presença. E isso, Ewan percebeu, incomodava mais do que qualquer espada.
Ele estava um passo atrás dela, como sempre fazia em eventos assim. Não por obrigação, mas por instinto.
Foi então que notou.
Olhares rápidos demais. Cochichos interrompidos quando ela se aproximava. Sobrancelhas franzidas. Um silêncio estranho que se formava em pequenos círculos à medida que Rowena passava.
Ela não percebeu.
Ou, se percebeu, não deu importância.
Ewan, sim.
Seu olhar percorreu o salão com precisão de quem está acostumado a mapear ameaças. Foi fácil identificar o foco.
O conselheiro mais velho.
Sentado perto de uma coluna de pedra, taça intocada na mão, olhos fixos em Rowena com algo entre reprovação e cálculo. Ele não cochichava observava. E quando outros se inclinavam para murmurar algo, ele apenas assentia lentamente.
Ewan sentiu a mandíbula travar.
Aproximou-se um pouco mais de Rowena, diminuindo a distância entre eles. Ela se virou, surpresa leve no rosto.
— Está tudo bem? — perguntou baixo.
— Está — respondeu ele. — Apenas… fique perto de mim esta noite.
Ela sorriu, achando que era apenas mais um de seus silêncios protetores.
— Sempre fico.
O conselheiro mais velho notou o movimento.
Seus olhos encontraram os de Ewan por um instante longo demais. Não havia medo ali. Havia desafio o tipo silencioso, venenoso.
Ewan sustentou o olhar sem piscar.
Ele desaprova você, pensou.
E isso não é apenas política.
Quando a música mudou, Rowena foi chamada por uma dama para comentar algo trivial. Ewan deixou que ela se afastasse apenas alguns passos, mas manteve os olhos nela.
O conselheiro aproveitou.
— Majestade — disse, aproximando-se de Ewan com uma inclinação mínima da cabeça. — Vejo que a rainha está… bastante à vontade entre os convidados.
— Como deveria estar — respondeu Ewan, frio.
— Nem todos veem dessa forma.
Ewan virou-se lentamente, encarando-o por inteiro.
— Nem todos governam este reino.
O velho sorriu de canto, sem humor.
— Mudanças rápidas costumam gerar resistência.
— Resistência costuma quebrar — respondeu Ewan. — Especialmente quando insiste em não sair do caminho.
O conselheiro segurou a taça com mais força.
— Ela é… diferente do que esperávamos.
Ewan seguiu o olhar dele até Rowena, que ria discretamente com outra mulher, alheia a tudo.
— Eu sei — disse o rei, baixo. — E é exatamente por isso que qualquer olhar atravessado, qualquer palavra dita nas sombras… chegará a mim.
O sorriso do velho morreu.
— Estamos apenas preocupados com a estabilidade do reino.
— Não — Ewan respondeu, voz firme como aço. — Estão preocupados com o fato de uma mulher não pedir licença para existir.
O conselheiro se afastou, sem responder.
Ewan voltou os olhos para Rowena no exato momento em que ela o procurava no salão, instintivamente.
Quando seus olhares se encontraram, ela franziu o cenho de leve como se sentisse algo no ar.
Ele assentiu, quase imperceptível.
Enquanto eu estiver aqui, pensou, ninguém toca nela. Nem com palavras.
Naquela noite, Rowena sentiu o salão esfriar
não por causa do inverno,
mas pela proteção silenciosa do lobo ao seu lado.