A música voltou a subir no salão, violas e alaúdes preenchendo o ar com uma leveza que contrastava com o peso crescente nos ombros de Ewan.
Ele não desviava os olhos.
Não de Rowena.
Não do conselheiro.
Os cochichos tornaram-se mais frequentes conforme o vinho esquentava as línguas. Pequenos grupos se formavam e se desfaziam rápido demais. Criadas atravessavam o salão com pressa excessiva. Ewan conhecia aquele ritmo. Era o ritmo de algo sendo tramado.
Sem tirar o sorriso contido do rosto o sorriso treinado de rei ele fez um gesto mínimo com dois dedos.
Um guarda aproximou-se pela lateral do salão.
Era Callum.
Homem de poucas palavras, leal desde os anos mais duros do inverno. Ewan confiava nele como confiava na própria lâmina.
— Majestade — murmurou Callum, inclinando-se discretamente.
— Algo se move sob o chão deste salão — respondeu Ewan, sem mover os lábios além do necessário. — Quero saber o quê. Não faça alarde.
Callum apenas assentiu.
Desapareceu entre os convidados como se fosse parte da sombra das colunas.
A primeira pista veio da cozinha.
O cheiro de carne assada e especiarias abafava qualquer conversa, mas moedas falam mais alto que lealdade temporária. Callum esperou o momento certo, segurou o braço de uma criada jovem demais para saber mentir direito e pressionou uma moeda de prata contra a palma dela.
— Fale.
Ela hesitou. Olhou para os lados. Engoliu em seco.
— Não sei tudo… — sussurrou. — Só ouvi dizer que o conselheiro ordenou que o vinho da mesa da rainha fosse… trocado.
Callum não reagiu. Nem um músculo.
— Trocado como?
— Não é veneno… — ela se apressou. — É algo que causa fraqueza. Tontura. Confusão. Ele quer que ela… pareça instável diante de todos. Que tropece. Que diga algo incoerente.
Callum sentiu o sangue gelar.
— E depois?
— Depois… — a criada balançou a cabeça. — Não sei. Só ouvi que “um erro público basta para calar uma mulher de boca grande".
Callum saiu sem dizer mais nada.
A outra metade exigiu algo mais delicado.
O guarda pessoal do conselheiro estava no corredor lateral, atento demais para ser inocente. Callum aproximou-se como quem compartilha uma piada.
— Noite longa.
O homem bufou.
— Velhos gostam de intrigas.
Callum encostou-se na parede ao lado dele.
— Algumas intrigas acabam m*l. Para quem fica do lado errado.
O guarda não respondeu.
Então Callum tirou um pequeno saco de moedas. Pesado.
O som foi suficiente.
O homem hesitou. Olhou para o salão. Para a porta. Para o saco.
E cedeu.
— Ele já espalhou rumores — murmurou. — Disse a dois membros do conselho que a rainha tem… acessos de descontrole. Que o rei é cego por paixão. Se ela demonstrar qualquer fraqueza hoje, amanhã haverá um pedido formal para limitar a influência dela nas decisões do reino.
Callum ficou imóvel.
— E se ela não demonstrar?
O guarda engoliu.
— Então… o conselheiro pretende sugerir uma investigação sobre sua “linhagem” e “conduta passada”. Ele quer plantar dúvida. Manchar. Devagar.
Silêncio.
Callum largou o saco de moedas nas mãos do homem.
— Você nunca me viu.
Minutos depois, Ewan sentiu a presença de Callum ao seu lado novamente.
— Fale.
O relato veio baixo. Direto. Completo.
A cada palavra, a expressão de Ewan se tornava mais imóvel.
Não houve explosão.
Não houve grito.
Apenas um silêncio denso demais.
Seus olhos deslizaram pelo salão até a mesa onde uma taça específica aguardava ser servida.
Rowena estava prestes a retornar ao seu lugar.
— Intercepte o vinho dela — disse Ewan, tranquilo demais. — Substitua. E mantenha essa criada longe daqui até o amanhecer. Protegida. Não punida.
Callum assentiu e saiu.
Ewan então começou a andar.
Não em direção ao conselheiro.
Mas à mesa central.
Chegou primeiro.
Pegou a taça destinada à rainha.
Ergueu-a.
O salão foi diminuindo o volume pouco a pouco, curiosidade natural diante do gesto inesperado do rei.
Rowena parou a poucos passos, observando-o.
Ewan virou-se para os convidados.
— Um brinde — anunciou.
Seus olhos encontraram os do conselheiro.
— À rainha. À força que não se curva. E àqueles que confundem presença com ameaça… que aprendam a diferença.
E, diante de todos, levou a taça aos lábios.
Bebeu.
Inteira.
O conselheiro empalideceu.
Callum havia sido rápido.
Não havia nada na taça.
Ewan devolveu-a à mesa com calma.
O silêncio no salão era absoluto agora.
Ele olhou diretamente para o velho.
Sem elevar a voz.
— Alguns jogos são perigosos demais para serem jogados no meu castelo.
O recado estava dado.
Mas aquilo…
Aquilo era apenas o início.