LXVIII

772 Words
A música voltou a subir no salão, violas e alaúdes preenchendo o ar com uma leveza que contrastava com o peso crescente nos ombros de Ewan. Ele não desviava os olhos. Não de Rowena. Não do conselheiro. Os cochichos tornaram-se mais frequentes conforme o vinho esquentava as línguas. Pequenos grupos se formavam e se desfaziam rápido demais. Criadas atravessavam o salão com pressa excessiva. Ewan conhecia aquele ritmo. Era o ritmo de algo sendo tramado. Sem tirar o sorriso contido do rosto o sorriso treinado de rei ele fez um gesto mínimo com dois dedos. Um guarda aproximou-se pela lateral do salão. Era Callum. Homem de poucas palavras, leal desde os anos mais duros do inverno. Ewan confiava nele como confiava na própria lâmina. — Majestade — murmurou Callum, inclinando-se discretamente. — Algo se move sob o chão deste salão — respondeu Ewan, sem mover os lábios além do necessário. — Quero saber o quê. Não faça alarde. Callum apenas assentiu. Desapareceu entre os convidados como se fosse parte da sombra das colunas. A primeira pista veio da cozinha. O cheiro de carne assada e especiarias abafava qualquer conversa, mas moedas falam mais alto que lealdade temporária. Callum esperou o momento certo, segurou o braço de uma criada jovem demais para saber mentir direito e pressionou uma moeda de prata contra a palma dela. — Fale. Ela hesitou. Olhou para os lados. Engoliu em seco. — Não sei tudo… — sussurrou. — Só ouvi dizer que o conselheiro ordenou que o vinho da mesa da rainha fosse… trocado. Callum não reagiu. Nem um músculo. — Trocado como? — Não é veneno… — ela se apressou. — É algo que causa fraqueza. Tontura. Confusão. Ele quer que ela… pareça instável diante de todos. Que tropece. Que diga algo incoerente. Callum sentiu o sangue gelar. — E depois? — Depois… — a criada balançou a cabeça. — Não sei. Só ouvi que “um erro público basta para calar uma mulher de boca grande". Callum saiu sem dizer mais nada. A outra metade exigiu algo mais delicado. O guarda pessoal do conselheiro estava no corredor lateral, atento demais para ser inocente. Callum aproximou-se como quem compartilha uma piada. — Noite longa. O homem bufou. — Velhos gostam de intrigas. Callum encostou-se na parede ao lado dele. — Algumas intrigas acabam m*l. Para quem fica do lado errado. O guarda não respondeu. Então Callum tirou um pequeno saco de moedas. Pesado. O som foi suficiente. O homem hesitou. Olhou para o salão. Para a porta. Para o saco. E cedeu. — Ele já espalhou rumores — murmurou. — Disse a dois membros do conselho que a rainha tem… acessos de descontrole. Que o rei é cego por paixão. Se ela demonstrar qualquer fraqueza hoje, amanhã haverá um pedido formal para limitar a influência dela nas decisões do reino. Callum ficou imóvel. — E se ela não demonstrar? O guarda engoliu. — Então… o conselheiro pretende sugerir uma investigação sobre sua “linhagem” e “conduta passada”. Ele quer plantar dúvida. Manchar. Devagar. Silêncio. Callum largou o saco de moedas nas mãos do homem. — Você nunca me viu. Minutos depois, Ewan sentiu a presença de Callum ao seu lado novamente. — Fale. O relato veio baixo. Direto. Completo. A cada palavra, a expressão de Ewan se tornava mais imóvel. Não houve explosão. Não houve grito. Apenas um silêncio denso demais. Seus olhos deslizaram pelo salão até a mesa onde uma taça específica aguardava ser servida. Rowena estava prestes a retornar ao seu lugar. — Intercepte o vinho dela — disse Ewan, tranquilo demais. — Substitua. E mantenha essa criada longe daqui até o amanhecer. Protegida. Não punida. Callum assentiu e saiu. Ewan então começou a andar. Não em direção ao conselheiro. Mas à mesa central. Chegou primeiro. Pegou a taça destinada à rainha. Ergueu-a. O salão foi diminuindo o volume pouco a pouco, curiosidade natural diante do gesto inesperado do rei. Rowena parou a poucos passos, observando-o. Ewan virou-se para os convidados. — Um brinde — anunciou. Seus olhos encontraram os do conselheiro. — À rainha. À força que não se curva. E àqueles que confundem presença com ameaça… que aprendam a diferença. E, diante de todos, levou a taça aos lábios. Bebeu. Inteira. O conselheiro empalideceu. Callum havia sido rápido. Não havia nada na taça. Ewan devolveu-a à mesa com calma. O silêncio no salão era absoluto agora. Ele olhou diretamente para o velho. Sem elevar a voz. — Alguns jogos são perigosos demais para serem jogados no meu castelo. O recado estava dado. Mas aquilo… Aquilo era apenas o início.
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