O salão voltou a respirar aos poucos.
A música retornou, hesitante no início, depois mais firme. Conversas retomaram seu curso como água tentando esconder a pedra que quase a desviou. Rowena se aproximou de Ewan, os olhos atentos demais para quem fingia tranquilidade.
— Está tudo bem? — perguntou ela, baixo.
— Está — respondeu ele, tocando de leve a mão dela. — Preciso apenas resolver um assunto breve.
Ela sustentou o olhar dele por um segundo a mais.
Rowena o conhecia.
Mas assentiu.
— Não demore.
Ewan inclinou a cabeça e, sem olhar novamente para o conselheiro, caminhou em direção ao corredor lateral que levava à ala mais silenciosa do castelo.
Não precisou chamá-lo.
O velho veio.
O corredor era de pedra fria, iluminado apenas por tochas espaçadas. O som do baile tornava-se distante ali, como se pertencesse a outro mundo.
Ewan parou antes da curva que levava à torre oeste.
— Diga — murmurou o conselheiro, mantendo a postura ereta. — Imagino que não seja um convite para vinho.
Ewan virou-se devagar.
O rei que estava no salão era diplomático.
O homem ali era outra coisa.
— O senhor me subestima — disse Ewan, calmo demais. — E isso é um erro perigoso.
O conselheiro não desviou o olhar.
— Eu subestimo a impulsividade da juventude, Majestade. Não o senhor.
— Juventude não é cegueira.
— Não — o velho retrucou. — Mas paixão é.
O silêncio ficou mais denso.
— Acredita que faço isso por capricho? — continuou o conselheiro. — O reino precisa de estabilidade. Sua rainha é… intensa. Influente demais. Fala com o povo como igual. Circula sem pedir permissão.
— Isso altera equilíbrios antigos.
— Equilíbrios frágeis não merecem ser preservados.
— Tradições existem por um motivo.
— Sim — respondeu Ewan. — Para serem superadas quando se tornam correntes.
O conselheiro estreitou os olhos.
— Uma rainha não deveria ofuscar o rei.
Ewan deu um passo à frente.
Não ameaçador.
Mas decisivo.
— Ela não me ofusca. Caminha ao meu lado. Se isso o incomoda, o problema não está nela.
O velho respirou fundo.
— O conselho pode exigir limites formais. Pode convocar votação.
— Pode tentar.
Havia algo diferente agora na voz de Ewan.
Não era raiva.
Era certeza.
— Se o senhor ousar manchar o nome dela — continuou o rei —, não lidará com um marido ofendido. Muito menos com um soberano, lidará com o lado meu que você mesmo já elogiou tanto.
O conselheiro entendeu, ele falava do lobo.
— Está me ameaçando?
— Estou lhe dando uma escolha.
O conselheiro sustentou o olhar por alguns segundos que pareceram longos demais.
— O senhor arriscaria dividir o conselho por causa dela?
Ewan não hesitou.
— Eu dividiria o reino se fosse preciso.
O impacto daquela resposta foi visível.
O velho não esperava isso.
— Então é verdade — murmurou. — Ela o governa.
Ewan aproximou-se o suficiente para que a voz não precisasse ultrapassar um sussurro.
— Ninguém me governa. Mas eu escolho quem fica ao meu lado. E escolhi uma mulher que não abaixa a cabeça para homens inseguros.
O conselheiro apertou a mandíbula.
— Isso ainda não acabou.
Ewan inclinou levemente a cabeça.
— Eu sei.
Silêncio.
Passos ecoaram ao longe guardas fazendo ronda.
O rei voltou a falar, desta vez mais frio do que antes.
— Retire seus homens. Pare os rumores. E jamais use criados ou guardas para jogar seu jogo novamente.
O velho arregalou levemente os olhos.
Ele entendeu.
O rei sabia de tudo.
— Está mais atento do que imaginei.
— Eu aprendi cedo demais a ouvir o que é sussurrado.
Ewan deu um último passo para trás.
— Considere esta noite um aviso. A próxima não será privada.
O conselheiro ficou parado enquanto o rei se afastava.
Quando Ewan retornou ao salão, o calor das luzes e da música o envolveu novamente.
Rowena o procurou imediatamente com o olhar.
Ele cruzou o salão até ela.
Não disse nada.
Apenas tocou sua cintura com firmeza silenciosa.
Mas algo havia mudado.
A guerra não era mais apenas política.
Agora era pessoal.
E Ewan não recuava quando se tornava pessoal.
O baile terminou tarde.
As últimas notas ecoaram suaves sob os lustres já mais baixos, as velas consumidas até quase o fim. Os convidados começaram a se dispersar em grupos pequenos, despedidas formais, promessas diplomáticas, sorrisos que escondiam cálculos.
Rowena permaneceu ao lado de Ewan até o último brinde.
Ela parecia tranquila.
Mas Callum, da posição discreta próxima às portas do salão, sabia que a noite não havia terminado.
O conselheiro mais velho também permanecera.
Não estava bêbado.
Não estava cansado.
Estava esperando.
Quando o salão esvaziou o suficiente, o velho se afastou pela saída lateral que dava para o jardim interno um espaço de pedras claras e arbustos podados, protegido por muros altos.
Callum notou.
E seguiu.
Sem armadura que fizesse ruído. Sem pressa que levantasse suspeita.
A noite estava fria, o ar cortante típico daquele inverno rigoroso. A lua iluminava parcialmente o pátio, desenhando sombras longas entre as colunas.
O conselheiro não estava sozinho.
Dois homens o aguardavam perto da fonte central não eram nobres. Eram soldados à paisana. Postura rígida demais para servos comuns.
Callum se manteve atrás de uma das arcadas, onde a escuridão era mais densa.
— Ele não vai abaixar a guarda — disse um dos homens, baixo. — Está claro.
O conselheiro apoiou as mãos na bengala.
— Eu sei.
— Depois do que aconteceu com o vinho…
O velho respirou fundo.
— O rei é previsível em uma coisa: proteção. Ele cercará a rainha com homens, vigiará cada taça, cada corredor.
— Então acabou?
O conselheiro levantou os olhos.
Frio.
Calculista.
— Não. Significa apenas que devemos tirar o jogo do tabuleiro dele.
Silêncio.
A água da fonte corria suave demais para a tensão da conversa.
— O que o senhor sugere? — perguntou o outro homem.
O velho deu um passo mais próximo.
— Se não podemos quebrar a imagem dela diante do conselho… quebramos a estabilidade do rei.
Callum sentiu o corpo enrijecer.
— Um escândalo? — murmurou o soldado.
— Algo maior.
O conselheiro falou então, quase como quem comenta o clima.
— Se a rainha desaparecer… o reino entrará em pânico.
Os homens se entreolharam.
— Sequestro? Dentro do castelo?
— Não dentro — corrigiu o velho. — Durante uma saída. Ela gosta de circular entre o povo. De visitar vilas. De mostrar-se acessível.
Callum sentiu o sangue ferver.
— O rei não permitirá deslocamentos sem escolta.
— Não precisamos vencer a escolta — disse o conselheiro. — Apenas criar uma distração suficiente. Um incêndio. Um tumulto. Um falso ataque na muralha oeste. Enquanto os olhos estiverem voltados para lá…
Ele fez um pequeno gesto com os dedos.
— Nós a tiramos do caminho.
Um dos homens hesitou.
— E depois?
O conselheiro ficou em silêncio por um segundo longo demais.
— Não precisa ser permanente
Mas o olhar dele dizia outra coisa.
— O suficiente para que o rei perca o controle. Para que tome decisões precipitadas. Para que o conselho intervenha “pela segurança do reino”.
Callum compreendeu tudo.
Não era apenas contra Rowena.
Era contra Ewan.
Provocar o lobo até que ele mordesse errado.
— E se falharmos? — perguntou.
O conselheiro respondeu sem emoção:
— Então ninguém jamais saberá que estivemos aqui esta noite.
Passos.
Um guarda da ronda aproximava-se do jardim.
A conversa cessou.
Os homens se dispersaram por saídas diferentes.
Callum permaneceu imóvel até que o pátio voltasse ao silêncio.
Quando saiu da sombra, sua expressão era de pedra.
Aquilo não era mais intriga.
Era traição.
No alto da torre, as luzes do aposento real ainda estavam acesas.
o lobo não dormia.