XLVIII

907 Words
A sala do conselho estava carregada. Os homens mais velhos do reino murmuravam antes mesmo de Ewan tomar seu lugar à cabeceira da mesa. Rostos fechados, mãos crispadas sobre o carvalho antigo. — Uma imprudência — disse o conselheiro Morcant, o mais antigo. — O rei expôs-se sem necessidade. — Caminhar entre camponeses — acrescentou outro — sem escolta visível… é inconcebível. Ewan permaneceu em silêncio. Observava. O lobo avaliava. — Majestade — continuou Morcant — vossa segurança é o pilar do reino. Isso não pode— — CHEGA! A palavra caiu como lâmina. Todos se calaram. Rowena dera um passo à frente. Não havia sorriso. Não havia suavidade. A rainha estava ereta, os olhos frios, a voz firme como pedra antiga. — Falais de imprudência — disse ela — como se o rei tivesse abandonado o campo de batalha. Ele caminhou entre seu povo. Isso não é fraqueza. É liderança. Morcant franziu o cenho. — Com todo respeito, Vossa Majestade, o povo— — O povo confia em quem vê. — interrompeu Rowena, a voz subindo um tom, controlada, afiada. — Não em quem apenas ouve rumores. Um dos conselheiros tentou intervir. — A história mostra que reis expostos— — A história também mostra — cortou ela — que reis isolados caem sem que o povo mova um dedo para salvá-los. Silêncio absoluto. Ewan observava. Impressionado. Rowena avançou mais um passo. — Vós governais a partir de mesas e pergaminhos. O rei governa com sangue, suor e presença. — ela olhou um a um. — E eu governei com ele ontem. — A rainha não deveria— — Eu sou a rainha. — disse Rowena, fria. — E minha função não é ser decorativa, muito menos silenciosa. O conselheiro mais jovem pigarreou. — Mas e se algo tivesse acontecido? Rowena virou-se lentamente para ele. — Então terias visto o que acontece quando alguém ousa tocar no MEU REI! O peso da frase ecoou. Ewan sentiu algo apertar em seu peito. Não orgulho apenas. Respeito profundo. — Vós temeis o povo — continuou Rowena. — Eu temo um reino que não confia no próprio soberano. Ela voltou-se para Ewan, por um instante, e depois novamente aos conselheiros. — O passeio continuará. Com estratégia. Com cuidado. Mas continuará. Morcant abriu a boca, fechou novamente. Nenhum deles tinha resposta. Ewan então falou, pela primeira vez. — A decisão está tomada. A reunião terminou em silêncio constrangido. Quando os conselheiros se retiraram, Ewan permaneceu de pé, olhando Rowena. — Eu teria resolvido isso com menos palavras — disse ele. — Eu sei. — respondeu ela, calma. — Mas hoje, palavras eram a arma certa. Ele assentiu lentamente. — Lembras quando disseste que aprender comigo era uma honra? — Sim. — Pois hoje — disse Ewan, sério — foste tu quem me ensinou. Rowena inclinou a cabeça. E, naquele momento, até o lobo reconheceu: A rainha não apenas caminhava ao lado do rei. Ela o defendia com a mesma ferocidade com que ele defenderia o reino. O corredor que levava à sala do trono estava cheio de vozes distantes e passos ecoando nas pedras antigas. Camponeses aguardavam, alguns nervosos, outros esperançosos, trazendo problemas que só o rei poderia resolver. Ewan caminhava com o passo firme de sempre. Rowena, ao lado dele, falava em tom baixo. — Depois do que vimos ontem, talvez seja melhor ouvir primeiro os agricultores do sul. A seca— Um estrondo interrompeu a frase. Algo caiu em uma das galerias superiores talvez um estandarte m*l preso, talvez uma caixa de madeira e o barulho seco ecoou pelo corredor como um golpe de guerra. Rowena se assustou. Foi instinto. Não pensamento. Em um único movimento, ela deu um passo rápido e se agarrou a Ewan, os braços envolvendo o tronco dele, o rosto próximo demais. Ewan reagiu no mesmo instante. O corpo se colocou à frente. O braço subiu, protetor. O olhar varreu o corredor como lâmina. Silêncio. Nada mais aconteceu. Só então Rowena percebeu. Ela estava abraçada a ele. Muito abraçada. O coração batia rápido demais não de medo agora, mas de consciência. Ela se afastou imediatamente, o rosto corando de leve. — Eu… desculpa — disse, sem graça. — Foi só… reflexo. Ewan olhou para ela. Nenhum julgamento. Nenhuma rigidez. — Bons reflexos — respondeu, simplesmente. Isso só a deixou mais constrangida. — Não era exatamente… — ela gesticulou, procurando palavras. — Quero dizer, eu sei lutar, eu não— — Rowena. — ele a interrompeu, a voz baixa. — Não precisas te explicar. Ela ergueu os olhos para ele. — Não? — Em batalha, instinto é vida. — disse ele. — E confiar em alguém no reflexo… também diz algo. Ela engoliu em seco. — Diz o quê? Ewan sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário. — Que escolheste bem onde te colocar. Rowena respirou fundo, tentando recompor a postura de rainha antes que as portas do trono se abrissem. — Prometo não me agarrar a ti diante do povo — murmurou, tentando brincar. Um canto da boca de Ewan se ergueu. Quase um sorriso. — Talvez seja bom que vejam — respondeu ele. — Um rei que protege… e uma rainha que confia. As portas se abriram. E lado a lado, ainda sentindo o eco daquele instante inesperado, rei e rainha avançaram mais conscientes do que significavam um para o outro do que jamais admitiriam em voz alta.
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